O rock é diversão
Por: José Franco
 
 
Quando em 2001, após se apresentar no mítico "John Peel Sessions" o grupo novaiorquino The Strokes tornou-se a "melhor banda de todos os tempos da última semana", talvez não soubessem que no mesmo caminho levariam juntos outras tantas bandas como The White Stripes, British Sea Power, Doves, Futureheads, Bloc Party, Kaiser Chiefs, Interpol, The Arcade Fire, Starsailor e, a mais festejada de todas, Franz Ferdinand. Quando se diz "mais festejada", não se quer afirmar a mais bem sucedida (papel esse desempenhado pelo White Stripes) ou melhor banda (talvez espaço vago, não ocupado por nenhuma delas, por na maioria das vezes fazer de filial um som que já teve matriz).
Mas se Franz Ferdinand merece algum crédito esse seria direcionado para o campo da diversão. Como diz André Takeda "uma das premissas básicas da música pop é fazer a gente sorrir", pode ser incluído no contexto da banda que uma dessas premissas é fazer a gente dançar, se divertir e esquecer, mesmo que por alguns momentos, o mundo que nos cercam.
Não seria esse, afinal, um dos papéis principais do rock quando foi criado? Quando Elvis dançava a cintura era para divertir uma platéia que dentro da catarse também se divertiam. Quando lançou em 2004 o homônimo "Franz Ferdinand" e emplacou hits fáceis ("Jacqueline", "Take Me Out", "The Dark Of The Matinee", e "Michael") de acesso livre nas pistas, a banda fez atualizar a proposta de colocar os ouvintes para dançar.
Se há na banda a semelhança com tantas outras ou fragmentos, fazendo assim a junção de alguns estilos para culminar no som da banda, não é possível culpa-los por isso. Afinal, é isso o que tantas das outras citadas acima fazem: atualizam o som de suas referencias, seja U2, Radiohead, Clash, Jam, Cure, Talking Heads, Blur ou Joy Division, com isso pode-se presumir que elas estão a serviço do passado.
A afirmação acima pode soar simplista demais para uma nova leva de bandas interessantes, mas nada inovadoras, então não seria simplista, mas justa a classificação. Ainda mais se olharmos para o cenário nacional onde a cada momento surgem bandas das mais originais possíveis e quando não soam únicas, mostram-se conectadas com propostas diferentes das que vigoram na grande industria.
Digressões são necessárias quando uma grande maioria caminha em mesma direção sem ter um norte para fazer de porto. Em uma coluna recente o jornalista Arthur Dapieve lançou a instigante pergunta: o que vale mais na praça hoje em dia, velhas músicas de roupa nova ou novas músicas de roupa velha?
Roupas são mais um, entre tantos, artifícios usados por Alex Kapranos (guitarra e vocais), Bob Hardy (baixo), Nick McCarthy (guitarra, teclados e vocais) e Paul Thompson (bateria), assumindo assim um posicionamento igual a de tantas outras bandas que acreditam que o bom rock tem que acompanhar embalagem "clean." Às vezes dá saudades do velho rock, aquele sujo de jeans rasgado.
Não só de críticas negativas vive o chamado "novo rock". Strokes, The White Stripes, Doves, Futureheads, Bloc Party, Interpol, The Arcade Fire, Starsailor e também Franz Ferdinand possuem suas qualidades, em maior ou menor escala, mas possuem.
Como dito mais acima o Franz Ferdinand é a banda a serviço da festa e da diversão. Com "Do You Want To", presente no segundo CD da banda "You Could Have It So Much Better... With Franz Ferdinand" isso fica bem claro. Escolhida como primeiro single "Do You Want To" faz o papel que no disco anterior foi de "Take Me Out": chamar a atenção do grande público para as demais canções do CD, dançante e com guitarras furiosas é um ótimo cartão de visitas, mesmo que em uma segunda visita.
Seja nas guitarras distorcidas de abrem "The Fallen"; a levada gostosa de "Walk Away"; no vocal insano e guitarras iguais da rápida "Evil And A Heathen"; no ensaio instrumental antes do vocal em "I'm Your Villain" para depois estourar em riffs de guitarras e vocais mais aguçados ou em "Outsiders" que fecha o disco em grande estilo flertando muitas vezes até mesmo com a eletrônica, a banda tem o que dizer e tocar, mesmo que carregando na mochila os "defeitos" listados acima.
Antes que o leitor pense que o Franz Ferdinand fez um CD ruim - o que não é verdade - ou que a resenha escolheu frisar o que não concorda no novo trabalho da banda escocesa (de Glasgow), é preciso, novamente, recorrer a quem realmente entende do assunto: Roberto Maia.
Maia, radialista brilhante como poucos - o nosso John Pell; dono de uma coleção de mais de 20 mil discos; conhecedor maior de rock; tanto que recebeu o apelido de "homem-enciclopédia", certa vez disse que rock não deve ser levado a sério demais.
Leitor pegue sua edição de "You Could Have It So Much Better... With Franz Ferdinand" aperte o play e faça a festa porque o rock, nesse caso, é diversão.
 
24/10/2005
 
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