Violins ao vivo, sem palavras
Por: José Franco
 
 
Quando no 2º Festival Upload – na primeira edição a organização conseguiu escalar as excelentes The Maybees e Astromato - o vocalista da banda, ainda desconhecida, Violins And Old Book, que abria a noite para bandas já consideradas grandes como Cachorro Grande e Los Hermanos, avisou que na platéia estava a venda o EP da banda “Wake Up And Dream”, muitos adquiriram o EP que logo se esgotou, alguns destes são fãs até hoje, mesmo com a transição entre a língua americana e a língua pátria.
É muito bom ver o crescimento de uma banda. Se traçarmos uma linha evolutiva entre o primeiro EP, o primeiro disco em português “Aurora Prisma” e “Grandes Infiéis” lançado esse ano, será perceptível uma clara evolução. Enquanto “Wake Up And Dream” cantado em inglês emulava resquícios de Radiohead e o rock inglês, “Aurora Prisma” escolhia como esteio quase que o mesmo caminho, porém cantado em português rimava sofrimento e questionamentos com as belas melodias e quando as guitarras indicavam a direção era visto no horizonte algo de Muse, que no mais recente CD está mais clara.
A boa escolha às guitarras ao invés de harmonias mais trabalhadas – mesmo que essas ainda marquem presença no atual lançamento – faz com que os entusiastas no rock agradeçam à banda. Dentro da prolífica cena rock atual no país é possível dizer que o Violins é uma das antenas da raça – assim como escreveu o poeta Ezra Pound, e nos lembrou o jornalista Arthur Dapieve - senão uma parabólica.
Por tudo isso que quando uma mensagem na caixa postal avisava em letras garrafais “Violins em São Paulo dia 18 de novembro”, fez a teimosa esperança no rock dar sinal de vida mais uma vez. Para algumas pessoas esse estilo de música tem papeis totalmente diferentes, para o escritor Nick Horby ele serve para nos fazer felizes por estarmos vivos, já para o contemporâneo André Takeda – aliás, autor do release do CD anterior da banda – ele tem o papel de nos fazer sorrir, para outros tem que nos provar que ainda vale a pena seguir em frente e lutar pelos sonhos, mesmo que esses tenham se esquecido de seguir em frente.
Mas como medir a qualidade de um show de rock ou, ainda, como saber se esse foi realmente bom? Algumas ferramentas servem de bússola para que essa possível avaliação seja feita. È preciso ter um conhecimento pré-adquirido da banda, gostar da mesma a ponto de tirar a pessoa da tranqüilidade e conforto do seu lar para leva-la até o show, ter contato com recentes lançamentos e gostado, também, destes.
É preciso encadear esses questionamentos e idéias porque no esperado dia 18, a banda Violins que lançou até agora o segundo melhor CD nacional do ano, o excelente “Grandes Infiéis”, apresentou-se em São Paulo na minúscula Funhouse, e conseguiram acolher em seu show todos os pontos citados acima. Era conhecida do público presente e as novas músicas prometiam muito ao vivo.
Após uma discotecagem que apelava para o novo Franz Ferdinand e o primeiro Strokes, o sinal de OK com o polegar do guitarrista e do vocalista Beto Cupertino foram as bússolas para que a boa música mostrasse o porto seguro. Pela primeira vez na cidade desde o lançamento do excelente “Grandes Infiéis” o Violins abriu o show com as canções deste. Algumas canções ganham mais peso nas guitarras e porradas literais na bateria como “Hans”, “Il Maledito”, “Ensaio Sobre Poligamia”, “Matusalém”; outras como “Glória” e “Convênio” dão um passo a mais para tornar-se pop, essa última em particular, dentre as citadas, ganhou a platéia pelo refrão gostoso.
Sempre quando um fã vai ao show de uma banda leva guardado na cabeça a listinha que gostaria que fosse executada. Por isso, quando os primeiros acordes de “Nada Sério”, “S.O.S.” onde o piano antes do final da canção chamou merecida atenção e especialmente a balada do show “Vendedor de Rins” - onde cada verso, cada pausa era seguida e cantada por todos - soaram nas caixas acústicas a exaltação e alegria fazia-se perceptível em cada rosto. Todas, sem exceção, ficam belíssimas ao vivo, mesmo quando as guitarras ocupam o lugar dos metais que marcam presença no CD.
Ninguém seria ousado em imaginar um show melhor, entretanto quatro momentos ficarão marcados para os presentes no show: Beto anuncia uma música do CD anterior e faz uma versão sublime para a delicada “Qual A Criança?”, mesmo após anos – eles haviam tocado a música no festival citado no inicio do texto – a canção tornou-se mais bonita. Dois momentos podem ser entendidos como iguais, “Atriz” com guitarras no máximo, um vocal seguro e furioso e refrão como grito de guerra fizeram dessa a melhor canção do show, momento indescritível. O show se aproxima para a penúltima música, Beto anuncia mais uma canção do CD anterior, a listinha da cabeça por eliminação mostra que uma canção falta: “Deus Você” transforma-se em um hecatombe de guitarras e questionamentos, Beto e Léo elevam seus instrumentos ao extremo e a canção acaba.
A banda que a todo momento agradeceu aos fãs anuncia um tchau tímido e transforma a balada “Ok Ok” em hino. Os versos “A felicidade sempre ofende/ mas tristeza demais cansa” talvez não encontrassem morada naquela casa, na seqüência o que é quase imperceptível em disco poderia ser revide para os que sentiam-se felizes, mas não cabe aqui repetir palavras, a poesia de Beto e o ótimo instrumental da banda falam por si e, esperasse, por uma geração, “Grandes Infiéis” mostra isso.
Ao final do show uma menina definiu com as melhores palavras – aquelas que faltam aos que escrevem – o que havia sido a apresentação da banda: “Esse é daqueles shows que quem vê pela primeira vez fica fã.” É possível acrescentar: assim como aqueles que compraram o primeiro EP.
Talvez o maior medo de quem usa as palavras como meio de comunicação ou de contato é encontrar a tela em branco e não fazer esse estado mudar. Muitas vezes faltam palavras para transmitir um filme, livro, CD ou show visto, nessas horas a frase dita por Lou Reed “Falo por meio das minhas palavras”, faz com que quem escreve calar-se.
Pierre, Léo, Pedro, Diego e Beto fizeram um show antológico. Mas para eles, lamentamos, não há palavras. Ao menos não ainda. Há coisas que nos ajudam a viver.
 
05/12/2005
 
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Comentário dos leitores:

Júnior... Seu texto me fez reviver o momento mágico que foi esse show, que aliás você estava ao meu lado! Ficou... sublime! Parabéns! Fiquei feliz ao lembrar das tais "letras garrafais" que te enviei avisando do show! Espero enviar muitas outras vezes e-mails como esse! Beijos...
Carol Alquete

isso é porque vocês não viram o primeiro show que eu vi. No meio de um lago... foi incrivel, ainda eram Violins and Old Books.
Rodrigo

perfeito! acho q vc conseguiu descrever bem o q é violins... sem palavras, simplesmente! =D
vivis

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