Homers e Mucamas? Não!
 
 
Ai Sinhá... Não entendi nada do que disse, mas do jeito que falou parece tão lindo!
 
A ingênua e despretensiosa fala folhetinesca acima faz parte de um diálogo da novela Sinhá Moça, entre a mocinha branca e sua mucama. Apesar da singeleza da fala, podemos resumir nela a visão das empresas de comunicação com seu público.
Os meios de comunicação, transformados em corporações empresariais, objetivam o lucro, como qualquer ramo capitalista. Para isso não é importante para os mesmos a fidelidade do conteúdo, da informação, a conscientização do público. O importante é abusar nos efeitos tecnológicos, nos atrativos audiovisuais, proporcionando um encantamento sedativo nos telespectadores. É a realidade nua e crua dando lugar para o Show da vida, onde o Jornalismo é transformado em Shownarlismo. Puro entretenimento.
Com essa estranha ideologia somos bombardeados pelo tele-jornalismo de informações rasas, onde os buracos são preenchidos por tecnologia de ponta e sonoplastia envolvente num casamento perfeito a fim de hipnotizar o público, considerado pelos chefes de redação como Homer’s e mucamas.
Apesar de registrar a luta ideológica entre um senador americano e a rede de tevê CBS, liderada pelo repórter Edward R. Morrow, o filme Boa Noite e Boa Sorte é muito mais que um registro de uma fase da carreira profissional de Morrow. Com sua estética e linguagem objetiva, assemalha-se mais a um documentário do que a uma película, para criticar os bastidores do jornalismo.
Ao longo da narrativa as feridas de uma redação jornalística são cutucadas: a dependência de patrocínios (e conseqüente submissão aos patrocinadores), atritos ideológicos entre jornalistas e proprietários de jornais, desinteresses das empresas de comunicação em investir na informação, pressão externa de grupos políticos e governamentais.
A linha de pensamento é brilhantemente finalizada pelo discurso de Morrow, sentenciando que a televisão deve ser muito mais do que uma caixa de luz e fios com o objetivo de distrair e emburrecer as pessoas. A tevê deve evitar a idéia de que é feita para Homer’s e mucamas que se distraem com algo que não entendem. Infelizmente o pensamento de Edward R. Morrow não é compartilhado pelos empresários de comunicação, mas o aviso está dado.
06/04/2006
 
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Comentário dos leitores:

Gosto da forma como são colocados os fatos neste texto, e da ironica, satirização que ocorre em algums de seus trechos. quem escreveu esta de parabens.
Giliardy

Não sei se devo me alegrar ou entristecer ao ler a lucidez que você revela a respeito da completa apatia narcoléptica da mídia. Seja como for, seu texto é bem escrito. Apenas o começo está um pouco emperrado, pela repetição de alguns "para", e ainda revela traços da oralidade como no trecho: "podemos resumir nela...". Esse "nela" é o problema. Poderia se reformular a expressão com outra estrutura. Assim: "podemos, por meio dela, resumir a relação das empresas de comunicação com o público". Fora esses pequenos ajustes necessários, o texto é maduro e mostra consciência crítica associada a uma capacidade analítica.
Dinamara Garcia Rodrigues

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