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 Muito mal divulgado como um mix de aventura e romance durante descobrimento da América, O Novo Mundo chega a cinemas comerciais sem estar muito preparado para isso. Trata-se de Terrence Malick, que da última vez nos presenteou com o interessante “filme de guerra” Além da Linha Vermelha com seu estilo singular, estilo poético-sensorial repetido aqui, nesta refrescante releitura da história de Pocahontas.
Malick filma um roteiro que ele concluiu no fim dos anos 70, informação que O Novo Mundo parece conseguir um jeito de transferir por meio de seu visual nature. Se forçado um pouco, daria até para, quem sabe, montar paralelo com linha hippie. Enquanto trabalha com poucas palavras e muitos sentidos, Malick, auxiliado por fotografia sobrenatural de Emmanuel Lubezki (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça), tira o máximo estético da naturalidade ambiental que preenche enquadramentos poderosos, coisa do perfeccionismo deste cineasta um tanto enigmático. O cinema de Malick parece ser um desses em que é possível apreciar com os cinco sentidos, visão talvez privilegiada.
 Chegando ao novo mundo, futuramente América, ingleses entram em contato com nativos do local. Entre os visitantes, Capitão Smith, que se encanta por uma nativa em especial depois que é capturado e passa considerável período socializando-se com seu povo. Smith, interpretado com respeito por Colin Farrell, nos é apresentado como espécie de pequeno rebelde da tripulação, mas, por uma boa construção de personagem, não do tipo clichê. É por ele que o espectador será guiado durante a primeira metade de filme, indiscutivelmente a melhor, com Malick muito interessado no que esse choque e atração entre dois lados tão díspares podem resultar, alterar. Ver Smith convivendo com cultura indígena tem algo de doce e harmonioso nas cenas captadas por Malick, Farrell à vontade como nunca antes visto.
Filme tem vários crescendos, quase sempre acompanhados pela trilha de James Horner – em um de seus melhores trabalhos. Em alguns momentos soa como reverência histórica, ou como lágrima conseqüente, como se Malick tomasse para si parte das dores e alegrias de certos acontecimentos, utilizando, para isso, história pré-concebida. Pocahontas, que nunca é chamada assim, teve recente versão Disney, e agora encara o que deve ser sua leitura mais madura, sóbria e inspirada. Q´Orianka Kilcher, em seu primeiro papel de destaque, surge na tela apresentando beleza exótica na personagem que, claro, redireciona o foco de O Novo Mundo. Atuação da moça me agradou, embora a personagem não fuja muito do padrão “nativo adotado por colonizadores”, apesar do filme ser muito feliz ao preferir via de mão dupla na abordagem do fascínio por aquilo que é desconhecido, pelos novos mundos - e de forma muito interessante Pocahontas passa por tal experiência tanto íntima América nativa, quanto na Inglaterra.
 Ainda no elenco, participações um tanto breves de Christopher Plummer, sempre presença, e Christian Bale, nosso Batman atual, aqui tomando parte dos rumos finais do filme. Bale é ator dos mais fascinantes, deixa sua marca com poucos momentos cedidos e, de fato, eleva a parte mais sem gás de O Novo Mundo, muito embora a montagem absurda de boa, trabalhando em pequenos hiatos (o tempo do filme salta constantemente, sempre pra frente), também não deixe a última meia-hora deixar de brilhar, apesar de transformar-se num exercício mais convencional do que a bela obra irretocável que vinha se apresentando até então. Não convencional como 1942, de Ridley Scott, mas a postura adquirida parece lembrar algo já cansado, impressão que o desfecho definitivo tenta, com sucesso, eliminar, de forma que não dá vontade de sair enquanto os créditos sobem na tela ao som da... existência.
 Os filmes de Malick têm certa pretensão graciosa, coisa incomum, uma vez que pretensões geralmente são carregadas, pesadas. Malick filma pouco, é perfeccionista, fotografou O Novo Mundo em 65mm, mas tem essa irresistível felicidade na hora de filmar, esse gosto raro pelas imagens, por sua vez igualmente apaixonadas por ele, ao que parece. É pra ver e entrar em transe.
Filme visto nos Cinemas Severiano Ribeiro
Cines Flamboyant, Abril/2006 - Goiânia, GO 22/04/2006
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