Argentino canta a solidão em belo álbum para corações sensíveis
Por: André Azenha
 
 
A foto no encarte dá a dica: o disco La Futura Mirada Del Ex Tenista é um álbum de trovador, daqueles que cantam a desolação, reflexões, o sentimento à flor da pele, amores e sensações, e principalmente, a vida. O argentino Sebastian Kramer levou algum tempo para colocar na praça esse seu trabalho, após ter feito parte da banda Jaime Sin Tierra, ele aparece com uma obra redonda, intimista, bem produzida, bonita, e na sua maior parte, triste.
São nove canções que remetem ao rock inglês; e que além de contarem com letras na língua espanhola, fogem do estereótipo “rock com influências latinas”. Aqui o negócio é outro. Há ecos do rock feito na terra da Rainha, facetas beatlenescas, Teenage Fanclub, alguns momentos que remetem a três trovadores talentosos: das antigas, Nick Cave e o falecido Eliott Smith, e da atualidade, Ryan Adams; e outros instantes que lembram The Cure e My Bloody Valentine. A melancolia é contida, não há choradeiras ou a tentativa de se tornar um mártir. Pelo contrário, a tristeza é cantada em melodias quase que alegres, por mais paradoxal que possa parecer.
O álbum foi concebido aos poucos. Gravado em Barcelona entre outubro de 2003 e dezembro de 2004; os baixos, baterias e vozes foram registrados em Buenos Aires, entre dezembro de 2004 e fevereiro de 2005. A produção e masterização ficaram a cargo de Juan Stewart.
E é muito provável que esse tempo razoável para o término do disco tenha influenciado na maneira como as canções foram finalizadas. A voz do músico surge contida e soterrada em meio ao instrumental. A primeira canção, Invierno, é uma balada cuja guitarra distorcida surge em um bom dedilhado, parente próximo do britpop e que fala de reflexão: ”Tantas coisas que quisera entender, mas por algo sempre escapam”. Logo em seguida vem Claro, que tem levada pop-rock com melodia grudenta, mas que segue a linha de interpretação do autor, mostrando talento como letrista. ”O peso acumulado não me deixa avançar”, canta ele.
A terceira é a faixa-título, em homenagem a Richie Tenembaum, uma linda e intensa balada, também reflexiva e triste, que comenta os medos que a noite trás. Perdóm é praticamente uma poesia musicada que canta a solidão: ”Me banho no mesmo rio / Perto do mar aberto / Pensando nas recordações / Tropeço nos sentimentos”. Para não dizer que o rapaz esqueceu suas origens, as letras trazem uma certa herança do sangue latino. O também portenho Fito Paez é o que aparece primeiro à mente. A voz suave é herdeira de Spinneta, um dos grandes músicos da história do rock argentino.
Elefantes e Lo Difícil também são baladas com belos dedilhados, e por mais que possam soar repetitivas, são lindas e ótimas para serem ouvidas em momentos solitários, como aqueles em que é possível se perceber trancado no quarto, repensando o dia, a semana, atitudes e erros. A primeira diz: ”Horas que se transformam em instantes / Perdidos desde ontem”; e a segunda começa assim: Falta pouco para chegar / Deixamos o silêncio em nosso lugar”.
Seguem-se Silencio (Caminhando nos jardins / Observando os demais / Me concentro no silêncio / Para saber a verdade), a mais acelerada do CD e que dá vontade de cantar junto; e Quedo (Não encontro palavras / Para minhas idéias / E assim chega o silêncio). Aliás, o silêncio é tema recorrente de Kramer, e nenhuma palavra poderia retratar melhor o clima intimista do CD. Ele reaparece no gran finale Miedo (Hoje só o silêncio me acompanha), que encerra esse trabalho que merece ser conferido, principalmente para aqueles de coração sensível, tristes ou felizes, que fazem dos momentos mais simples da vida, pequenas e intensas poesias.
La Futura Mirada Del Ex Tenista nada deixa a desejar para obras tupiniquins e serve de prova que é uma grande bobagem ter algum preconceito em relação à (boa) música pop cantada em espanhol. É também um trabalho feito com carinho, com belíssimo encarte e ótimo trabalho gráfico de Sebastián Litmanovich. Já os competentes músicos (e ex-companheiros) Juan Stewart (baixo) Javier Diz (bateria) e Lucas Cordiviola (também baterista) deram uma força no ótimo acabamento instrumental. As nove canções podem ser encontradas no site www.sebastiankramer.com.ar e quem ficar a fim do CD vai ter que importar. Então fica a dica desse artista talentoso e a torcida para que esse disco seja lançado no Brasil.
 
22/04/2006
 
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