|
 Vamos combinar que Amor à Flor da Pele é um dos mais belos filmes que fala de sentimentos remoídos, perdidos e, enfim, complicados, como todos os sentimentos - eu tenho o DVD e o assisto toda vez que levo um pé na bunda, só pra cimentar minha fossa. Cineasta que entende do assunto, Wong Kar-Wai trabalha e retrabalha o tema em sua filmografia, tendo também Felizes Juntos e Amores Expressos como dois outros grandes exemplos.
Então aparece 2046, espécie de continuação peculiar de Amor à Flor da Pele. Uma puta decepção. Decepção lindíssima em fotografia e estilo, mas ainda decepção.
 Assisti a 2046 duas vezes e ainda não acredito direito que olho para o filme e só consigo pensar que Kar-Wai está ali apenas puxando um ferro. É um exercício que, por ser Kar-Wai, parece buscar contato próximo de sentimentos, mas aqui a impressão é de que nem seu diretor sabe exatamente que filme está fazendo.
Kar-Wai chega a lembrar um Truffaut quando seleciona suas musas da tela, como Gong Li, Zhang Ziyi, Faye Wong, Maggie Cheung (de Amor à Flor da Pele), todas lindas e ótimas, e faz ali um pequeno cafuné em cada uma, amando-as.
Tony Leung, frio como tem de ser, reprisa papel do escritor/jornalista que ele interpretou em Amor à Flor da Pele. Lá, o escritor se viu diante de um amor perdido, e aqui ele parece reciclar esse amor enquanto se relaciona com outras mulheres, que se hospedam no apartamento 2047, vizinho do 2046, onde personagem de Leung se encontra e também local-testemunha da relação vista em Amor à Flor da Pele.
“2046” também é o título do livro de ficção científica escrito pelo nosso protagonista, ainda em andamento. Assim como todo o filme, visão futurista é estilizada, e algo de estranho para quem acompanha a carreira de Kar-Wai, embora muito interessante em termos visuais. É possível chegar apenas de trem, e a cidade meio que parece representar um sentimento de nostalgia, lembranças, o escritor tentando, talvez, exorcizar o amor perdido via ficção (científica) literária, visitando futuro para reviver pontas do passado.
 Kar-Wai estréia em tela larga, traz a fotografia foderosa do Christopher Doyle ( Hero), divulga a beleza no grande scope com seus enquadramentos que colocam atores no canto do frame. Todavia, principais idéias de 2046 parecem ter sido muito bem massageadas em Amor à Flor da Pele, ganhando aqui apenas uma aura mais... istáile, extremamente pobre em desenvolvimento, apesar dos esforços. Kar-Wai, exemplo de delicadeza e formato suave, parece querer enfiar 2046 goela abaixo com toda sua vermelhidão, calor e aparente complexidade, como se o cineasta tivesse visualizado algo tão grande no seu processo autoral que foi incapaz de segurar. 30/04/2006
|