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Já foram inúmeras as peças que retrataram de alguma maneira a vida e/ou a obra do escritor português Fernando Pessoa. E várias foram as que ficaram no lugar comum, na criação de cenas em que o autor se relaciona com seus heterônimos (personalidades literárias). Talvez isso tenha acontecido justamente pelo fato das criações do lusitano, serem tão singulares, complexas, mas ao mesmo tempo simples; espécies de reflexos do leitor/expectador, causando grande identificação. Por isso mesmo, entende-se a repetição de idéias na hora de passar para o palco as palavras do poeta. E nesse contexto, eis que em 1999 surgiu o espetáculo O Fingidor, escrito e dirigido por Samir Yazbek (vencedor do prêmio Shell de melhor autor).
A trama é a seguinte. Em 1935, em sua última semana de vida, o poeta (muitíssimo bem interpretado por Hélio Cícero) enfrenta problemas de saúde, parece um pouco entediado com o que o cerca, e se recusa a seguir os conselhos da irmã para enfrentar os problemas. Como solução, ele decide se disfarçar de um novo heterônimo, e se candidata a uma vaga de datilógrafo de um respeitado crítico literário, que prepara uma conferência sobre quem? Isso mesmo, Fernando Pessoa.
 A partir daí o que se segue são confusões, instantes de lirismo e poesia (ora declamadas, ora faladas ou berradas) e nos momentos de crise o personagem central se vê cercado de três de seus heterônimos (como se fossem almas penadas), que ao mesmo tempo servem de confidentes e amigos, como também de “advogados do diabo”. Entre as outras figuras estão: o tal crítico (sujeito um pouco arrogante, mas de bom coração), sua criada, o primo dessa criada que possui talento para escrever e se torna fã do autor, e o editor de uma revista conceituada. Todos têm seus momentos engraçados, e surgem muito bem na apresentação.
Mas além de ser uma ótima comédia, O Fingidor manda seus recados. E o principal deles é quando Madeira, a figura criada por Pessoa que ganha a vaga de datilógrafo, passa a escrever na casa do patrão. Em certo momento, o dono da casa, admirador confesso do escritor, lê as tais quadras e trata com grande indiferença, chegando a fazer críticas duras a seu empregado, aconselhando-o a desistir de escrever. Mal sabia ele de quem se tratava. Algum tempo depois, o primo da criada (ela que serve de par romântico quase que platônico de Fernando), lê as mesmas linhas e comenta na hora com admiração: “isso é Fernando Pessoa”. Fica clara a mensagem de que às vezes (ou sempre), muito além do conhecimento intelectual, é preciso certa sensibilidade para conhecer a alma de um poeta, um gênio. Em cima disso, a questão sobre se vida e obra de alguém devem ser tratadas separadamente aparece mais de uma vez no palco. A lição: a obra nada mais é do que um retrato artístico de seu autor. Entre diálogos divertidíssimos alguém diz: “todo mundo sabe que na literatura portuguesa é um querendo passar a perna no outro”. Será que era assim mesmo? Bom, isso deve ter estimulado os escritores da época e dado fruto aos gênios da terra de Cabral e que influenciaram a nossa literatura.
Completando, o cenário de Marisa Rebolo é simples e eficiente, que ao lado do jogo de luzes, causa um efeito perfeito para as aparições das três outras “almas” de Fernando; e o figurino de Helena Toscano segue à risca as vestimentas daqueles tempos.
Entre outros prêmios que a obra acumulou, estão: em 2002, representou o Brasil no XXV Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), em Portugal; em 2004, a Editora Ática distribuiu a peça para 475.000 alunos da rede pública de ensino; em dezembro de 2005, em sua edição de número 100, a Revista Bravo colocou a peça em 16º lugar entre os 100 melhores espetáculos de teatro e dança dos últimos 8 anos. Em 2006, a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo lançará O Fingidor e outros dois textos do autor: A Terra Prometida e A Entrevista.
Então fica a dica. Se O Fingidor (que ainda tem no elenco Álvaro Motta, Douglas Simon, Edgar Castro, Eduardo Semerjian, Marcelo Diaz e Mariana Muniz) passar pela sua cidade, não perca tempo. É uma ótima oportunidade de dar umas boas risadas, um ótimo passatempo e acima de tudo, uma porta de entrada para o maravilhoso universo desse lendário escritor da língua portuguesa.
Peça conferida no teatro do Sesc de Santos no dia 27/05/2006. 30/05/2006
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