Cobertor de orelha
Por: José Franco
 
 
Lá fora o termômetro marca 9º, o vento teima em bater nos vidros da janela, o inverno chegou.
Aqui dentro a temperatura está agradável, o som que sai do CD player ajuda a estabilizar a temperatura e em alguns momentos aumenta-lo.
Quando o Belle & Sebastian apareceu na imprensa brasileira e alguns jornalistas de confiança começaram a indicar a banda, órfãos de todas as idades bradaram aos quatro cantos (ora de seus solitários quartos, ora para o mundo): “Viva, a inocência voltou!”
Recheado de melancolia, poesia que falava de perto e uma boa pitada de melodias agradáveis a banda foi angariando uma legião de fãs. Por sorte nossa, brasileiros, eles até se apresentaram no país em 2002, onde fizeram um show aconchegante. Com o tempo outros caminhos surgiram e a banda de certa forma mudou, alguns momentos brilhantes, outros nem tanto.
Essa digressão ou introdução acima é para situar o leitor e familiariza-lo com uma banda que lembra a ilustração que acompanhava uma das primeiras reportagens sobre o Belle & Sebastian na imprensa nacional. Mas se nesta imagem uma menina chorava ao ler poesia, alguma imagem que acompanhe a banda Camera Obscura terá que trazer uma menina, talvez menino, em um parquinho de diversão, brincando no carrossel. Nada de tristeza, esta é a palavra de ordem.
Prova disso é “Let’s Get Out Of This Country”, uma das mais animadas músicas do novo trabalho. O que há de melhor nessa canção se estende ao CD de mesmo nome, a voz doce de Tracyanne Campbell (vocal e guitarra), a guitarra trabalhando pouco, a bateria cadenciada e um órgão contagiante.
Formada em 1996 na Escócia, a banda é composta além de Campbell, por Carey Lander (piano, órgão e vocal), Kenny Mckeeve (guitarra, bandolim, gaita e vocal), Gavin Dunbar (baixo), Lee Thomson (bateria) e Nigel Baillie (trompete e percussão).
As influências dos escoceses do Belle & Sebastian não param apenas no som que evoca anos 60 e inie-pop dos anos 90, mas também nas relações interpessoais: a vocalista Tracyanne Campbell já namorou Stuart Murdoch, e tanto ele quanto Richard Colburn, também componente do B&S, já colaboraram com a banda.
“Lloyd I’m Ready To Be Heartbroken” primeiro single – que traz como lado B “Phil And Don” e Roman Holiday” que merece destaque pelo alcance pop e melodia bem trabalhada, a guitarra percorre toda canção que poderia facilmente ser “lado A”- é dançante e traz um vocal com vitalidade, em seu inicio tem teclados e guitarras em sintonia; “Tears For Affairs” é para ouvir acompanhado, “Come Back Margaret” segue o mesmo caminho, mas amplia a ternura no vocal e a bateria é mais dançante.
A banda consegue mesclar em um mesmo CD músicas dançantes e grandes baladas. “Dory Previn” assim como “The False Contendor” são canções para se ouvir ao aconchego e companhia da pessoa amada em que se tem grande valor. Em ambas o vocal é quase falado, as guitarras aparecem pouco – em “Dory Previn” ainda há um solinho choroso -, assim como a bateria. “Country Mile” é aparentemente a mais delicada das canções, um piano e cordas acompanham o vocal, não há mais nada, apenas beleza.
Já “If Looks Could Kill” desde seu início diz a que veio: fazer dançar e celebrar a alegria! As guitarras ziguezagueiam a canção, a bateria pulsante marca ao fundo, às vezes os metais dizem um oi e vão embora, é impossível ficar parado, e os vocais em segundo plano nos obrigam a cantar juntos. “I Need All The Friends I Cant Get” assim como a canção anterior convida para dança, mas desta vez palminhas ao fundo indicam que a dança é de rosto colado.
“Razzle Dazzie Rose” tem início com bateria suave, dedilhada de guitarra e metal imponente, o vocal continua doce, a canção segue assim até o final onde os metais celebram a beleza e a ternura.
Mais uma vez é preciso dizer: ao som com Camera Obscura, um conjunto de cobertores ao sofá ou na cama, não há nada que aqueça mais no inverno que faz lá fora.
 
 
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Para o leitor que se interessou fica mais uma dica. Vale a pena ir atrás de duas canções da banda em CDs anteriores: “Pen And Notebook” e “Books Written For Girls”, a primeira do CD “Biggest Bluest Hi-Fi” de 2001, e a segundo presente em “Underachievers Please Try Harder” de 2004.
“Pen And Notebook” é uma obra-prima, a melhor canção da banda e “Books Written For Girls” não fica na sombra. Piano, guitarra, metais... o pop perfeito.
 
23/06/2006
 
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Comentário dos leitores:

Li a matéria e fui atrás dessa banda. Muito boa mesmo. A influência de B&S está lá, mas o som é um tanto mais alegre, não somente uma cópia. Chega a ser reconfortante ouvir o disco. Obrigado pela dica e parabéns pelo texto, está muito bom, sempre os leio. Pena é que seus textos andam escassos nas últimas edições desse site :'(
Sérgio Lopes Cunha

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