O melhor filme brasileiro dos últimos anos
 
 
O ano em que meus pais saíram de férias é o filme que estava faltando no cinema nacional e a tal comissão que escolhe o representante brasileiro na briga por uma indicação ao Oscar Estrangeiro deve ficar de olhos abertos. Afinal, o segundo longa (o anterior foi Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme) na carreira do diretor Cao Hamburguer (que dividiu o roteiro com Cláudio Galperin, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert) consegue transitar com extrema leveza entre o drama e a comédia de costumes, focando sua narrativa em eventos marcantes da recente história brasileira – a ditadura e o tri mundial no México - e dirigindo com competência o elenco mirim, herança dos anos em que esteve à frente da série infantil.
Sabe aquele jargão: “futebol, religião e política não se discutem?”. Pois é, o filme aborda todos esses assuntos sem tomar partido, soar chato ou panfletário. Não é um longa-metragem exatamente sobre nenhum desses temas e apesar do grande número de crianças, também não é infantil. E ainda assim agrada marmanjos e pequeninos. Há quem venha o comparando ao cinema feito na Argentina nos últimos tempos. Pode ser, pois as crianças lembram de certo modo a turminha de Buenos Aires 300 KM e a mistura dos assuntos citados acima com a simplicidade de conversas do cotidiano, possui um quê de Juan José Campanella (O Filho da Noiva e Clube da Lua).
A trama se passa em 1970, auge do regime militar e ano de Copa do Mundo. O povo vê com desconfiança a seleção dirigida por Zagallo (“Pelé e Tostão não podem jogar juntos”, dizia-se a época) e estudantes sofrem com a perseguição de soldados. Mauro tem 12 anos, gosta de jogar botão e sabe que ser goleiro é a posição mais solitária de um time. Ele vê seus pais, militantes contra a ditadura, partirem de férias (na verdade uma fuga) e vai morar com o avô (Paulo Autran, em pequena ponta), no Bom Retiro, em São Paulo. O que ninguém esperava é que o avô morresse no mesmo dia e é então que o menino, assim como um arqueiro, se vê sozinho. Sua nova residência é um prédio habitado basicamente por judeus, só que Mauro é um gói e tem de lidar, além da diferença religiosa, com o conflito de gerações, já que seu primeiro contato no novo local é com Shlomo (Germano Haiut), um senhor judeu ferrenho. O garoto então resolve passar os dias ao telefone, esperando, pois seu pai prometeu voltar antes da Copa.
Em parte, Cao Hamburguer levou um trecho de sua própria vida para a tela, pois assistiu a prisão do pai judeu e da mãe católica pela ditadura e atuou como goleiro na infância. E o que impressiona é que o diretor conseguiu, através de todas essas referências, criar uma obra sensível, redonda, e com momentos geniais. Não precisou cair no clichê de cenas de tortura para mostrar o clima de insegurança da sociedade (o momento em que os soldados perseguem estudantes dá o recado sem apelação e a cena em que vemos Mauro comemorar um gol do Brasil no apartamento com janela fechada, sem se ouvir o som do grito é esplêndida). E ainda recriou com precisão absoluta - na ambientação, figurino e diálogos – aquele período. Há momentos engraçados, como os meninos desembolsando uma grana para Hanna (espécie par romântico de Mauro) a fim de ver mulheres se trocando pelo buraco da parede da loja onde a mãe da menina trabalha (alusão a Era Uma Vez na América, de Sérgio Leone), e os comunistas que tentam torcer contra o Brasil (e que logo depois vibram com os gols de Pelé e companhia). E outros instantes são de extrema sensibilidade, ao retratar a maneira como o protagonista olha a garota bonita do bairro, e quando Hanna diz que ela tem idade pra ser mãe dele, numa clara manifestação ingênua de ciúme.
Contou para o sucesso da obra a escolha do elenco, desde os novatos Michel Joelsas (Mauro) e Daniela Piepszyk (Hanna), aos mais experientes e conhecidos como Simone Spoladore, Caio Blat e Paulo Autran. A verdade é que O ano em que meus pais saíram de férias é o melhor lançamento em muito tempo da nossa sétima arte e tem tudo para continuar fazendo bonito. Já são algumas semanas de exibição nas salas do país e só elogios por parte da crítica. O nome do trabalho era pra ter sido Vida de Goleiro (o desejo do que Mauro quer ser quando crescer), mas sabiamente, foi mudado, dando um tom universal ao título. Depois de alguns escorregões após ter optado por trambolhos como Orfeu e Olga para tentar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a tal comissão julgadora parece ter se redimido optando pelo ótimo Cinema, Aspirinas e Urubus. E se a justiça continuar sendo feita; esse tem tudo para ser o representante brasileiro em 2008. Mas independente de premiações que possam acontecer ou não, esse é um filme que precisa ser conferido, seja você caro leitor, judeu, católico, idoso, criança, vidrado ou não em futebol, homem ou mulher. Emocionante de dar lágrimas nos olhos.
24/11/2006
 
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Comentário dos leitores:

Gostei muito do filme. Estava esperando uma super produção, cheia de firulas e acabei me decepcionando positivamente. Tudo isso porque o filme é simples, poético e muito bem interpretado. Não sei se é o melhor filme brasileiro dos últimos tempo, mas um dos melhores do ano, com certeza.
Diego Palmieri

"O Ano em que meus pais saíram de férias" é realmente uma bela obra cinematográfica. Parabéns a André Azenha pela ótima resenha crítica. Concordo inteiramente com ele. Este filme é, sem sombra de dúvidas, um dos mais expressivos e importantes da história recente da sétima arte brasileira. Tenha sido por méritos próprios ou talvez pela baixa prolificidade da nossa indústria, o fato é que este filme realmente chamou a minha atenção.
Hugo Calazans

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