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"Eu tenho uma causa/ minhas metas definiram palavras de ordem e opiniões políticas/ e cada palavra é verdadeira." Discursos como esse soariam inócuos nos dias de hoje, não fossem alheias às leis da lógica as forças que movem ideologias e princípios. Vindos do estado que elegeu o governador mais truculento de todos os tempos, e que ainda assim é menos trapalhão que seu superior na Casa Branca, os californianos do Rx Bandits se arriscam numa batalha já perdida: provocar e acordar o jovem americano médio para a mediocridade dos falcões do poder, e desmontar as engrenagens das quais eles se utilizam para seus fins sórdidos. Punk.
 Só que, quando complementando os versos iniciais acima, Matt Embree diz que "eu tenho minha amada com as pernas pra cima/ meus dedos no interruptor" (na balançada "On a Lonely Screen"), a arma para a libertação é, em um discurso um pouco hippie & um tanto rastafari, o amor, recorrente e utópico como ele só. Normalmente, qualquer disco que tentasse equilibrar na balança panfletagem política e mensagens de paz e amor cairia na vala comum da falsidade ou da breguice, mas o caso aqui é outro: faz tempo que nada nem ninguém soa tão verdadeiro quanto o Rx Bandits.
"...And The Battle Begun" dá prosseguimento à explosão criativa disparada em 2001, quando "Progress" injetou sangue punk em uma simplória banda de ska-punk californiana, (quase uma) daquelas que tocariam em bailes adolescentes nos filmes da Sessão da Tarde. Com "The Resignation", de 2003, alçaram o posto de banda extremamente subestimada e sub-ouvida, fazendo mágica a partir de uma mistura de punk, ska, rock, reggae e jazz, e arrebatando na sua jam session criativa e ensolarada, de letras inteligentes e inquietantes.
É impossível definir que estilo é esse: o neologismo "ska progressivo" soa muito pretensioso, embora esteja presente aqui a mesma inventividade de um Gentle Giant ou qualquer outro nome que tenha aproximado o jazz do rock progressivo há umas três décadas atrás. Quem sabe, se o Gentle Giant tivesse surgido na Jamaica... Mas ainda existem as mudanças de andamento, as passagens, e o já citado sabor de jam, embora em doses menores do que no disco anterior. Inclassificável.
Em compensação, a excelência técnica dos integrantes da banda é tão absurda que justifica a total disparidade em relação a belezuras como Streetlight Manifesto, que continuam skaziando do jeito de sempre ("1980" que o diga). O polvo Chris Tsagakis dá vida a uma bateria incrível, que cimenta as linhas tesudas das guitarras de Steve Choi e Matt Embree. Dando o diferencial, o saxofone jazzy de Steve Borth amacia a quase virtuose dos outros integrantes (o que vai fazer falta, já que ele saiu da banda pouco após o lançamento desse álbum.)
 Toda essa inquietude musical pode assustar: ao dar play no álbum, você se depara com uma harmonia vocal que parece ter sido enviada dos céus por Marvin Gaye; logo em seguida, na fantástica faixa-título, um crescendo da bateria, torneada por barulhinhos intrigantes, deixa Matt cantar como se fosse algum ídolo alternativo desesperado pela falta do que crer, até que o saxofone joga um clima de esperança a partir do momento em que a palavra "amor" entra em jogo, o que se repete várias vezes ao decorrer da empreitada. "Todos esses planos perfeitos para a paz/ enquanto o poder do amor for maior que o amor pelo poder/ nunca, nunca darão certo" - são versos tão tocantes que dá vontade de sair mudando o mundo, junto com a meia dúzia de ouvintes que não se intimidaram com a avalanche sonora - avalanche que, apesar de tudo, não tira o "grude" das faixas, coisa que o Mars Volta (única banda contemporânea que pode ser associada no quesito "progressividade") dificilmente consegue em seus barulhentos devaneios.
Atirando contra a indústria de medicamentos ("In Her Drawer"), a indústria da beleza ("To Our Unborn Daughters"), ou a transformação da mulher-carne em mulher-objeto ("Apparition"), os tiros são sempre certeiros. (Tenho certeza de que a mulher, tão desejada e cantada durante todo o trabalho, não é ninguém menos que a Liberdade, "escondida sob sussurros.") Já contra os donos do poder (carinhosamente apelidados de Sr. Intocável e Sr. Entusiasmo em "A Mouth Full Of Hollow Threats?", aquela dos versos do poder do amor), o discurso às vezes esbarra no lugar-comum, embora nunca passe perto de nenhuma chatice polítiqueira. Os algozes têm até direito de resposta em "Tainted Wheat", onde se regozijam ao mostrar como controlam cada passo das vidas americanas (isso não quer dizer que as palavras não se apliquem também por essas bandas...)
RxB no seu habitat natural
Assim como acontece com algumas pérolas setentistas do rock progressivo, corre o risco do Rx Bandits ser cultuado daqui a uns 30 anos pela sua musicalidade sem igual. Só que, assim como aconteceu com algumas pérolas do flower power, corre o risco de daqui a 30 anos a política dos EUA estar do mesmo jeito e todo aquele papo ter sido em vão. Mas não se pode ganhar todas as batalhas, enfim. 06/12/2006
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