Conto de fadas mortas
 
 
Guillermo del Toro, sempre de caso com o fantástico (Mutação, Blade 2), entrega-se de vez ao fantasioso neste O Labirinto do Fauno, mais até que em Hellboy. Decente projeto anterior, Hellboy é expresso por del Toro como o “projeto de seus sonhos” (ele é fanático por quadrinhos e pelo personagem), mas este aqui parece ser bem mais pessoal, autoral e dedicado.
Falado inteiramente em espanhol, O Labirinto do Fauno, situado pouco depois da revolução espanhola, encontra forte ligação com A Espinha do Diabo (também falado em espanhol), outro bom filme do cineasta e que também trata de repressão política, fascismo e seres sobrenaturais vistos por crianças – o fantasma de um garoto, no caso.
Guillermo ainda não me convenceu como grande diretor que muitos enxergam, embora agrade, mas é certo que já cravou suas marcas e desta vez parece dar a elas muito mais liberdade. É um filme absurdamente criativo em seu visual, estética da fantasia infantil mesclada a vasto cenário de horror real e, supomos, imaginário.
Enredo: pouco que sobrou dos revolucionários ainda luta pela causa, afastados nas montanhas, tendo em Vidal maior antagonista e personificação do mal uniformizado. Sergi Lopéz (Coisas Belas e Sujas, de Stephen Frears) interpreta essa figura representante do nazifascismo com o tesão que (pseudo?)caricaturas assim precisam para dar certo, e Vidal dá certo demais. Vilão que é, ilustra a maldade do real como militar impiedoso que é, e da fantasia da pequena Ofélia (Ivana Baquero, bem ok), como monstro que é.
Mãe de Ofélia é agora mulher de Vidal, de quem espera um filho, planejado herdar comando do pai. Vidal tem certeza de que será um menino. Ofélia, portanto, vai de carona pra casa do escroto, sem largar seus livrinhos de contos de fadas. No campo espaçoso que rodeia a casa, descobre labirinto com escada para um nível subterrâneo, já revelando preferências de del Toro. Lá encontra o Fauno, criatura fantástica responsável por dizer a Ofélia quem ela realmente é, e o que deve fazer para voltar ao seu lugar de direito, na verdade um pequeno trono nas dimensões fantasiosas.
Del Toro é bem explícito numa violência que se comunica estranha e agradavelmente com o tom de fábula dark. Bom, é uma fábula, mas com censura 16 anos, e talvez pudesse ser até mais, uma vez que mãos deformadas após sessão de tortura e rostos vitimados por afiadas brutalidades são coisinhas garantidas. Tem-se aqui conto de fadas onde justamente as fadas podem ser monstruosamente mortas por seres sem ossos e com olhos nas mãos (ver amostra no vídeo lá embaixo). Fadinhas mortas violentamente, tudo ali registradíssimo, então, é, deve ser uma “lullaby” meio cruel.
O ser mencionado acima (interpretado por Doug Jones, também intérprete do Fauno, e de Abesapien em Hellboy) é uma das melhores seqüências de imagens em muito tempo, de um jeito assustador e fascinante - é sexo com os olhos. Momentos como esse também me fizeram pensar em O Labirinto do Fauno como uma quase versão live action de A Viagem de Chihiro, obra-prima de Hayao Miyazaki, cena do sapo comportando-se como outro lembrete.
Dúvida sobre como ler o filme permanece até o fim e del Toro parece se certificar de que jamais será sanada. A história fantasiosa em primeiro plano ou a eletrocução anti-nazifascista que del Toro quer fazer (e faz), não sabemos exatamente para qual dos dois olhar primeiro, e isso age a favor do filme e do seu final, dos mais tristes. De qualquer modo, fica uma vontade de experimentar um pouco mais a imaginação de Ofélia e de del Toro, desafiar a distância de suas criatividades, e de como essas partes são tão melhores, apesar de dependentes da outra perspectiva.
Curiosamente, é o segundo autor moderno neste ano a usar uma cantiga/"cantiga" para, na verdade, ir mais além. O primeiro foi Shyamalan com Dama na Água, talvez um tiquinho melhor, pois O Labirinto do Fauno ainda conta com os mal-domados vícios irritantes de imagem/montagem de del Toro (se alguém quiser contar quantos cortes-cortinas ele faz, à vontade – são bem executados, mas ninguém precisa de dez deles só em um filme), que deixam algo de redundante se espalhar, apesar de termos aqui a provável melhor obra de del Toro. Quanto a isso, poucos parecem querer questionar.
 
Pequena amostra de criatura de O Labirinto do Fauno
 
Filme visto nos Cinemas Severiano Ribeiro
Cines Goiânia Shopping, Dezembro/2006 - Goiânia, GO
06/12/2006
 
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Comentário dos leitores:

Ainda não assisti ao filme, mas vi 'A Espinha do Diabo', e achei uma película primorosa. Gosto do modo como o Guillermo consegue entreter o espectador em sua narrativa, sempre brutal e tristíssima.
Shenmue_GdA

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