Suco de ritmos made in Nederland
Por: Sílvio Góis
 
 
Uma apresentação superficial da banda Zuco 103 já desperta curiosidade: banda holandesa formada por baterista holandês (Stefan Kruger), tecladista alemão (Stefan Schmid) e vocalista brasileira (Lilian Vieira), cuja referência musical baseia-se em ritmos brasileiros, mesclados a estilos eletrônicos e afins. Por enquanto nada de muito diferente do modernoso Drum'n'Bossa de Fernanda Porto e Bebel Gilberto, que é sucesso indiscutível nos playlists de lojas chiques de interiores.
Logo na faixa inicial do álbum Tales of High Fever – originalmente lançado em 2002, agora, cinco anos depois, chegando oficialmente ao Brasil -, Treasure é um bom exemplo dessa sonoridade, provocada ao casar lounge music com MPB, recheada de batuques, violão e sintetizadores. Da mesma forma, a faixa Voltando reforça o estilo Drum’n’Bossa da banda a partir da tranqüila percussão e sons elétricos, somados a pitadas de jazz. Em ambas faixas, o vocal de Lílian dá o toque especial com seu timbre firme em letras singelas e alegres, exaltando o prazer de viver de música.
Com um pé na Drum‘n’Bossa e outro em batidas latinas, a faixa Peregrino narra a frustrada tentativa de um rapaz em “cair então no mundo”. Já em Brasil 2000 a latinidade vem em forma de uma salsa elétrica, para a letra indignada sobre as empresas de telefonia no Brasil, até chegar no refrão que o batuque latino cede lugar para uma bateria nervosa e guitarra apoiarem o desabafo: “Eu quero ligar / ah eu quero ligar / o orelhão não funciona / eu quero ligar / mas se tá faltando cabo? / quem é que vai instalar? / ah eu quero ligar!”
Mas nem só de influências de MPB e Bossa Nova vivem o Zuco. Uma pitada de baião surge, aos poucos, com o ritmo marcado pelo som do triângulo, no romântico samba Brief Passions, tornando-se mais forte na excelente Curso de Reclamação – Lição 1, onde trechos cantados em repente, acompanhados além do triângulo, pelo delicioso som da rabeca (uma espécie de ancestral do violino) vão marcando o animado xaxado-beat do trio holandês.
Do xaxado-beat, a banda arrisca uma divertida mistura de ritmos do candomblé com música eletrônica. Em Saci (Ghost Boy in the whirlwind), as batidas afros são acompanhadas pelo vocal que fica entre a cantoria e o discurso nas referências folclóricas e religiosas. Já em Morro Elétrico a batida afro transforma-se em um sambão eletrônico e agitado em homenagem às sambistas Clementina de Jesus e Ivone Lara.
Depois de tanto agito, energizado pela ultra-eletrônica Tão Lonely, os bpm’s são reduzidos na bilíngüe Get Urself 2gether e I Came, But..., além do simpático cover de Bebete Vambora, de Jorge Ben Jor, que recebeu um toque especial com a flauta transversal.
Apesar do atraso de cinco anos no lançamento oficial no Brasil, Tales of High Fever mostra-se completamente atual e com o frescor de novidade pela criativa mistura de ritmos e sonoridades que propõe, fugindo do lugar comum, misturando ritmos brasileiros num saboroso suco. Afinal, se não fosse a dificuldade de pronúncia dos colegas de Lilian com a língua portuguesa, seria esse o nome da banda.
 
Treasure:
 
04/05/2007
 
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