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Desolação, bêbados, delinqüentes belos, traidores, grupos de extermínio, seqüestros relâmpagos, atiradores de elite guiados pela fé, loucos... Essas imagens possivelmente formariam a parte visual do novo lançamento da banda goiana Violins, "Tribunal Surdo", melhor: não um lançamento, mas um soco no estômago.
Após a saída do importante guitarrista Léo Alcanfor e um breve distanciamento do baterista Pierre a banda anunciou seu fim. Passeatas virtuais utilizando a comunidade da banda no Orkut como principal veículo de divulgação fizeram com que a decisão fosse revertida em fôlego extra para que a banda anuncia-se a retomada da produção e gravação do novo disco, este que agora chega às prateleiras das boas lojas de discos. Acomodação é uma palavra que não faz parte do dia-a-dia da banda.
Após a breve pausa e algumas dúvidas, porque, diante delas, ou a gente reforça nossas convicções e responde ou então põe em cheque velhas verdades e vai buscar novas respostas. É isso o que a banda faz ao lançar o novo disco.
Tratar de temas delicados é marca na discografia da banda, nos dois primeiros CDs – o EP "Violins And Old Books" e o CD "Aurora Prisma" – isso já era perceptível, mas a grande afirmação desta opção veio com o já clássico "Grandes Infiéis" – não há no rock nacional um CD como esse – que já versava sobre mentiras e traições.
Se no CD anterior a grande maioria das canções condensava-se em relacionamentos, no novo lançamento à banda ousa não apenas em abolir grande parte das melodias e privilegiar os instrumentos com sonoridades mais cruas, mas principalmente por ampliar o escopo dos sentimentos humanos e mostra o quanto eles são feios: mesquinharia, sofrimento, ciúme, dor, covardia...
Já pelo nome o CD faz pensar no documentário "Justiça" de Maria Augusta Ramos, onde em seus meandros é possível observar e em muitos momentos constatar que ela não é para todos.
O ouvinte distraído vai sentir um choque ao acionar o play. Segundo Beto Cupertino (vocalista e principal compositor) a idéia era colocar lado a lado as distorções e a "sujeira" do instrumental a serviço das letras que servem de veículo para os temas pesados.
Na primeira música, "Delinqüentes Belos", a banda dá o recado "se ninguém vir eu nunca peço perdão". As guitarras são a tônica, não apenas desta música, mas de todo CD. Ao final a canção recebe uma pausa, mas não se iluda, logo após o que resta são pancadas: "Nós somos assassinos ébrios em frente seus filhos".
Relacionamentos em cacos são retratados de forma sublime em "Anti Herói – Parte 1" e "O Anti-Herói – Parte 2", na primeira de um fato corriqueiro nas grandes metrópoles à confissão de egoísmo e agressão. Guitarras e bateria pesada fazem sua parte, em seu final a canção pergunta: "Quanto tempo eu devo perseguir o bem/ Eu devo perseguir alguém outra vez/ Outra vez, outra vez". Já na segunda, violência e sexo mostram as ações do agressor: "E eu quero mais/ É te bater em paz/ Sem ouvir um choro/ Sem ouvir: 'socorro!'" esta soa menos pesada que a primeira, mas não é, o instrumental segue quase a mesma linha, mas os temas delicados ganham fôlego e mostra os atos do agressor: "E eu quero mais é te comer em paz/ Sem ouvir um gozo/ Sem ouvir socorro".
"Missão De Paz Na África" uma das melhores do CD segue a linha de tentar observar as várias formas de comportamento a dois. Enquanto uma pessoa quer salvar um mundo específico o outro vive em um abismo e não compreende ou talvez, pior, faz da sua não concordância de idéias ironia boba para discordar. Na massa de falsidade e discordância surgem segredos sujos "Quando o navio partiu/ Te levando pro mar/ Eu quis chorar de emoção/ Eu quis até te avisar/ Que eu amei sua irmã/ No banco do meu Passat", tudo é permeado por belas guitarras de sons pesados, não haveria trilha sonora melhor.
Assim como as imagens que saltam a mente ao pensarmos em um todo em "Tribunal Surdo" é possível também fazer analogias com a SS da Segunda Guerra mundial, as chacinas nas grandes metrópoles, o racismo, a exclusão social, o preconceito com os soros-positivos ao ouvir a magistral "Grupo de Extermínio de Aberrações". As guitarras em cadeia, a bateria pulsante, os vocais firmes servem de motor para a agressão que é a letra, quase um manifesto do mal: "Ei, amigão, amigão! Abaixa essa arma que é melhor para você / Nós somos o Grupo de Extermínio de Aberrações / E não viemos pra ofender / Viemos receber sem medo de pedir pra vocês / Qualquer quantia que se possa fornecer / E eu garanto que seus filhos agradecem por crescer / Sem ter que conviver com bichas e michês / E pretos na TV, discípulos de Che, Putas com HIV".
É possível, ainda, comparar a canção à obra "1984" de George Orwell e sua sociedade de controle. O grande irmão não está do nosso lado, Beto Cupertino e banda acendem a luz amarela ou em termos internacionais a luz laranja para o quanto os tempos contemporâneos são de intolerância. Tudo o que a banda tenta mostrar na canção no mundo real longe do botão play incrivelmente e de forma inaceitável se volta contra a própria. A canção já havia sido censurada em uma rádio em Goiânia, agora ganha contornos mais delicados: a banda foi denunciada ao Ministério Público pelo teor das letras presentes no disco e incitar logo aquilo que tentam questionar e alertar ( leia mais detalhes na entrevista com Beto Cupertino).
O questionamento da fé, a descrença no Criador e uma linha bem tênue entre crer e duvidar mais uma vez está presente nas canções da banda. "Piloto Russo Na Aldeia Suskir", "22" e "Saltos Ornamentais Árabes Para Treinamento De Atiradores Americanos" em algum momento tocam no sagrado para questioná-lo ou reafirmar sua existência. Seja apertando um gatilho ou guiando um grupo de atiradores (existiria aqui uma analogia na superfície das letras em mostrar o real poder da fé e seus meandros, comparando-a com uma arma, logo podendo resultar violência?), mas a grande simbologia da religião em "Tribunal Surdo" está presente na bela "Piloto Russo Na Aldeia Suskir", desde já uma das mais bonitas canções na discografia da banda. "Eu nem tenho um deus pra adorar/ como foi que eu me tornei deus aqui/ me diz que contradição", a fé assim como disse Beto Cupertino é colocada em prova no dia a dia, ela existe numa série de coisas e em outras não e há um peso enorme quando essa resposta vem à tona, assim como para o piloto ou a aldeia.
No Mojo Books recontando o disco "Grandes Infiéis" o personagem principal em certo momento questiona "A ironia vai nos salvar. A arte vai nos salvar - oras bolas, não é para isso que ela serve?" No momento da audição da pequena obra-prima "Manicômio", ultima canção do melhor CD do ano, essa frase salta ao pensamento. Após a devastação de sentimentos feios que permeiam o disco e radiografam o ser humano contemporâneo Beto e banda usam da sutil ironia ao sussurrar no final do disco, como ultimas palavras, "Tenham cuidado".
Por que não nos dar esse alerta antes? Para que nos fazer confrontar nosso pior eu nas letras das canções presentes no disco? Por que usar um louco/manicômio como veículo para essa informação? Quem seriam realmente os homens de branco?
Adaptando uma frase da jornalista Carla Rodrigues ao analisar a tese de mestrado do mestre Arthur Dapieve é possível encontrar uma luz para as perguntas acima: A boa filosofia se faz de perguntas para as quais não se encontra solução, qualidade presente no CD do Violins. Filosofia o leitor pode chamar de arte e como escreveu Nietzche "Ars Existit Ne Veritas Nos Destruat" ("A arte existe para que a verdade não nos destrua")
Violins faz arte simulada de verdade e verdade simulada de arte em "Tribunal Surdo".
Marimbondos cercam nossas cabeças!
É desconfortável ouvir "Tribunal Surdo", mas você só vai sentir isso se for pequeno assim como os personagens do disco. Há tempos a sociedade e o rock nacional precisavam de um disco como esse. Um soco na cara, uma porrada no estômago, o disco do ano. 02/09/2007
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