Poppycorn ENTREVISTA Beto Cupertino (Violins)
Por: Jairo de Souza, José Franco
 
 
A impossibilidade de distancias geográficas já foi muito bem analisada no impecável "As Invasões Barbáras", por isso quando um dos articulistas do Poppy indicou a pauta de entrevistar a banda goiana Violins não haveria motivo algum para a recusa, aliás, já há algum tempo o Poppy precisava dedicar maior espaço para a banda que lançou este ano o devastador e belo "Tribunal Surdo" – o disco do ano.
O bate-papo, via e-mail, transcorreu no melhor clima possível e por mais que o peso das perguntas e de algumas respostas simbolizassem o contrário, leitor não se deixe enganar pelas curvas que as palavras fazem. Curvas essas que levaram o Ministério Publico a receber uma denuncia contra a banda devido às letras fortes presentes no novo lançamento que segundo Beto Cupertino (vocalista e principal letrista) ainda possui muita "violência, preconceito, guerra, loucura, intolerância". Fé, novo disco, exposição, shows, internet e meios digitais foram outros temas.
Quando se tem total noção de controle da situação o que resta são palavras lúcidas, isentas de interesse e concessões, assim como luz no meio do caminho e mais uma vez quanta esperança, porque por mais que os discos sejam pesados, no final eles são necessários e nos fazem mais vivos.
A entrevista descontraída só pecou por um motivo: a ausência física da banda acompanhada de um show – segue abaixo. No final o leitor encontra link para a resenha e o Mojo Book da banda.
 
Poppy: Como é o processo de composição das músicas da banda? Por se tratar de temas sempre atuais e fortes vocês pesquisam algo relacionado ou a idéia vem livre de amarras?
Beto: A idéia vem livre mesmo. Há músicas em que só sei do que vão falar depois que escrevo a primeira frase. Muitas coisas vão saindo naturalmente, outras são pensadas. Não há uma fórmula. Eu escrevo as músicas e mostro pro resto da banda e, se eles aprovam, a gente a constrói como banda.
 
Poppy: Esse "Tribunal Surdo" é o terceiro CD da banda em português (N: o EP "Wake Up And Dream" era cantado em inglês), em algum momento vocês pensaram em retomar a língua inglesa ou por necessidade de serem entendidos nunca visualizaram essa possibilidade? E foi esse o motivo de mudarem para o português?
Beto: Nunca vislumbramos voltar. Cantar em português faz parte de uma interação maior com as pessoas que ouvem as músicas. Acho que a banda se aproxima mais do público assim.
 
Poppy: O novo CD está aparentemente mais pesado, mas se observado bem de perto é possível constatar ele mais cru do que realmente pesado. É isso mesmo?
Beto: Acho que sim. A idéia toda da concepção do disco, da produção, foi deixá-lo cru, soando visceral, por causa das histórias que ele conta. O peso, penso eu, está mais nas letras do que nas guitarras, embora as guitarras também soem barulhentas às vezes. Acho que as duas partes se completam. As guitarras são barulhentas porque as letras também são.
 
Poppy: Existe em curso uma trilogia que poderia receber alguma nomenclatura, já que "Grandes Infiéis" versa sobre mentiras e traições, este "Tribunal Surdo" sobre fé, insanidade, agressões e tantos outros sentimentos feios – aliás, nome da resenha que será publicada pelo Poppy – e aparentemente "Redenção dos Porcos" trata de religião? Qual seria a idéia desta, possível, trilogia?
Beto: Provalvelmente o caminho desde o início da marginalidade, passando pelos crimes e chegando até a salvação ou condenação, e mesmo se nisso existe algum sentido.
 
Poppy: Não é possível falar de "Tribunal Surdo" sem citar "Grupo de Extermínio de Aberrações" sua relevância vem também na constatação de que o tema – gays, putas, excesso policial – ainda é cadente e atual, mesmo já tendo sido noticiado os recentes fatos. O que a banda tentou levantar com essa música? Algum tipo de discussão, aflorar a constatação do preconceito dentro de cada ouvinte? Registrar a existência desses grupos, encarregados de exterminar a "raça ruim"?
Beto: A intenção foi tratar do tema do preconceito sem que a letra fosse um clichê batido. Então resolvi dar voz a quem é o verdadeiro delinqüente, no caso, o grupo de extermínio. Acho que jogando isso na cara do ouvinte naturalmente incita-se a reflexão e a própria denúncia das coisas que lá estão relatadas. Apenas procurei com ela que isso fosse feito de uma forma diferente, até porque o disco narra histórias fictícias e a liberdade para criar esse tipo de figura me pareceu bem interessante e objetiva.
 
Poppy: Recentemente você, Beto, escreveu na comunidade da banda no Orkut um recado informando que a banda havia sido denunciada para o Ministério Público pelas letras contidas em "Tribunal Surdo". Como a banda e você, compositor das letras, receberam a notícia e como está o processo?
Beto: Não há ainda um processo. Para isso é necessário que o MP, que recebeu a denúncia, resolva que ela tem cabimento ou não. Se eles fizerem um pouquinho só de pesquisa, verão que não tem. Em todo caso, a denúncia foi feita por uma pessoa que viu a letra na internet, não procurou ouvir o disco, ler o encarte, entender o contexto em que ela foi inserida e, assim, passou longe de entender o seu real objetivo.
 
Poppy: Muitas canções da banda trabalham com o tema religião, em algum momento da sua vida você sentiu a necessidade de colocar a fé em prova? E se de alguma forma isso influenciou sua forma de compor?
Beto: Na verdade, para mim particularmente, colocar a fé em prova é o dia a dia. Eu tenho fé numa série de coisas e em outras não. O tema da religião para mim é fascinante porque ele gira sobre o sentido essencial do mundo. Se há um Deus, tudo tem explicação. Se não há, nós temos de inventar um sentido. Eu acho as duas alternativas muito interessantes, mas nunca consegui me fixar em uma delas. Eu não sou ateu, no entanto tenho muita dificuldade em aceitar um deus moral, que dita mandamentos e reprime nossos desejos. Tenho muita dificuldade em aceitar que o mundo foi feito assim cheio de armadilhas só para que a gente sofra se debatendo com nossos próprios impulsos. É uma brincadeira de mal gosto, se for assim. Mas eu não descarto a possibilidade de que seja. Eu acho tudo possível, daí eu ter dito que minha fé está em prova todo dia. Se é que a gente pode chamar isso de fé. É muito mais uma busca. Quando eu morrer, será interessante saber a reposta.
 
Poppy: É perceptível um atrito/respeito entre os personagens das canções e o Criador. Esse conflito vem da necessidade da banda não dizer amém a tudo que é sagrado na religião ou de questionar o pré-estabelecido?
Beto: Esse conflito é o conflito que descrevi acima. É uma indagação de vida que se faz a um possível criador. José Saramago disse certa vez que se Deus existisse ele teria dado algum sinal para que ele acreditasse. Mas pode ser que ele não tenha se aberto a esse sinal. E pode ser que realmente ele esteja certo. Se preciso fazer um esforço para revelar o criador, isso pode ser apenas um teste, ou pode ser um esforço que no fim é puramente humano, uma criação somente humana. Mas eu respeito muito a busca e mesmo quem encontra esse sinal, porque eu sei o peso que tem essa resposta para a vida das pessoas que realmente tem dentro de si um grande senso de humanidade. A religião se torna prejudicial, para mim, quando ela leva ao fanatismo, porque é uma doença como qualquer outra, e que leva à morte.
 
Poppy: A banda já possui um publico admirado e a crítica sempre de bons olhos para com os trabalhos lançados, mas por que ainda assim é afeita a exposição? Não há clipes, material de divulgação, o site – mesmo que atual – ainda debilitado... Por que a idéia da TV Violins não teve seqüência?
Beto: A TV Violins é um projeto que está só hibernando. Nós não o matamos ainda. Creio que falta só um pouco de tempo de todos os envolvidos para que a gente volte a fazer alguns vídeos e divulgar para as pessoas. Nós não temos nada contra exposição, estamos aí para que as pessoas ouçam as músicas. Apenas não somos muito interessados em clipes. Preferimos investir em discos e deixar que as pessoas façam suas próprias imagens sobre as músicas. Acho que a música é suficiente, não é sempre necessário ter um vídeo com imagem para que se divulgue músicas. A música é auto-suficiente.
 
Poppy: Percebe-se que o veículo onde é mais prático e de maior resultado consultar a banda e suas novidades é no Orkut. Como a banda vê as novas tecnologias, tanto para contato quanto para a distribuição de novos trabalhos?
Beto: A internet é um instrumento fundamental, isso não é mais novidade, é lugar-comum. Sem internet, a gente seria uma banda totalmente desconhecida.
 
Poppy: Em algumas pesquisas na própria comunidade no Orkut a questão da localização da banda mostra a diversidade de fãs em todo o território, por que mesmo assim a banda excursiona tão pouco?
Beto: Porque nós temos trabalhos regulares durante a semana e não podemos ficar uma semana viajando para tocar. Apesar de parecer negativo esse fato, eu o considero essencial, justamente porque nossos empregos nos dão dinheiro para viver e nós não precisamos ficar procurando que a banda faça isso desesperadamente. A música fica livre.
 
Poppy: Quando aconteceu à saída do Leo e logo depois de seu irmão o que passou em primeiro momento pela cabeça dos integrantes? E por que voltar pouco tempo depois?
Beto: Foi um momento de muita tristeza, sem dúvida. Afinal, a gente passou cinco anos juntos, é como um relacionamento. Ainda hoje sinto muita saudade da presença do Léo nos ensaios, nos shows, e mesmo para sair com a gente para qualquer lugar. É difícil. O Pierre tinha se decidido a parar de tocar, mas assim que ficou consciente do que seria o significado disso para a vida, resolveu voltar atrás. É o velho clichê do quando se perde é que se dimensiona a importância. Ainda bem que tem importância para ele e a gente pôde continuar.
 
Poppy: O interessante projeto Mojo Books (onde a idéia principal e converter as músicas de um disco em um mini-livro) irá publicar no próximo dia 19 a versão para o disco de vocês "Grandes Infiéis". Você que recebeu uma cópia do material o que achou? E se pudesse qual disco transformaria em Mojo Book?
Beto: Achei massa e fiquei honrado com a homenagem. É um disco pelo qual tenho muito carinho mesmo. Que disco eu transformaria em Mojo Book? Putz, não sei, cara. Não sei mesmo. Há muitos discos que eu sou fã, essa pergunta eu não sei responder.
 
Poppy: Aliás, se o Violins fosse um livro, qual seria?
Beto: Qualquer livro, desde que esteja aberto.
 
Poppy: Como você colocaria o "Tribunal Surdo" na discografia da banda? Um disco de transição, de afirmação de um estilo, apenas mais um, mas com suas metas a cumprir...
Beto: É um disco que busca um novo norte liricamente. E que deve ser fechado nesse ideal. O próximo não será mais assim. É um disco que tinha de acontecer para a gente para que a gente pudesse abrir nossos horizontes como banda e para mim como letrista e compositor. Eu nunca começo a fazer um disco pensando em fazer 'apenas mais um'. Podem até ser para outras pessoas, mas para mim todos eles são muito especiais.
 
Poppy: Falando sobre o futuro: como está a fase de produção e gravação das demos do novo CD "Redenção dos Porcos" e sobre o que ele vai tratar, qual seu principal tema?
Beto: O principal tema é espiritualidade, vida e morte. Nós estamos gravando as demos e em algum período desse segundo semestre devemos gravar o disco propriamente.
 
Poppy: No decorrer de 2006, a banda colocou 4 demos para download e assimilação dos ouvintes, essa forma de trabalho vai ser uma constante nos futuros trabalhos da banda? Como vocês vêem as novas tecnologias para aquisição ou divulgação de novos trabalhos e projetos?
Beto: Vamos ver se faremos isso também com o próximo disco. Talvez a gente coloque todo ele na internet. Ainda não pensamos sobre isso, na verdade. Acho válido quando uma banda coloca todo um disco para que seja baixado gratuitamente. Nós não podemos fazer isso ainda porque a Monstro investe na prensagem e não seria justo que nós fizéssemos isso com eles.
 
Poppy: Ao final de "Manicômio", você sussurra "Tomem Cuidado". Isso parece muito irônico, já que a banda trabalhou temas tão pesados durante todo o CD, de certa forma esse fato foi proposital? Ou a idéia da banda era mesmo deixar um alerta para depois de toda a devastação e tormenta ouvida?
Beto: Quando vocês ouvirem o próximo disco, essa pergunta será respondida. rs
 
Poppy: Dificilmente a banda trabalha temas relacionados a política, você não acha que é hora de alguma manifestação aparecer nas suas letras, já que muito do que a banda analisa existe apenas pela ausência de uma fiscalização nos nossos eleitos?
Beto: Tribunal Surdo é um disco que fala de violência, preconceito, guerra, loucura, intolerância. Tudo isso é política. Nós temos mania de colocar a culpa por tudo nos políticos que nos representam. Mas esquecemos disso: eles foram eleitos por nós para nos representar. A culpa então é, em grande parte, nossa, porque somos nós que os colocamos lá sem nem saber quem são. E isso não é porque os políticos não nos dão educação. As pessoas que foram educadas em escolas caras também não têm a mínima decência política. Somos nós que usamos do jeitinho brasileiro, somos representantes de toda sorte de canalhice. A classe política é só o brasileiro normal. Quando eu falo sobre a ignorância que há em todo o Tribunal Surdo, eu estou sendo estritamente político.
 
02/09/2007
 
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