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Quando ouvi o disco solo de Guilherme Granado, Bodes e Elefantes(Submarine Records), confesso que algo lá no fundo da minha lembrança me levou ao trabalho do músico/performer/videomaker Brian Eno. Nos anos 70 o músico inglês fez um disco intitulado “Music for Films” onde compôs uma série de pequenas trilhas para filmes possíveis. Na verdade eram só “climas” musicais, mas acabou que muitos diretores terminaram por usar algumas composições em obras suas, como o inquieto Derek Jarman, no estranho filme “Sebastiénne”. Eno foi um precursor do que aconteceu com Moby recentemente, que teve seu CD Play “chupado” por muitos artistas da imagem em movimento, especialmente os da publicidade.
Pausa!
O que tem a ver este relato com o trabalho de Granado? Tecnicamente nada, ou subjetivamente tudo. Ao ouvir o disco deste artista, já com experiência musical no grupo Hurtmold, senti um “climão” de apelo visual intenso. Talvez por minha atuação nas artes plásticas, percebi descrições sonoras perfeitamente imagéticas no seu trabalho. “Cada cabeça uma sentença”, já diziam meus pais para determinar que no terreno pessoal pisamos nós. Mas gostei de ouvir o disco desta forma, e as 13 faixas que compõem o trabalho terminam por nos levar a um passeio por aquilo que melhor define este estilo de início de século: o “não-estilo”.
Tocando uma infinidade de instrumentos eletrônicos ou acústicos, Granado não consegue determinar as fronteiras de sua música, e acho que nem quer fazer isto. O que vale é a surpresa dos limites borrados que prenunciam cenários diversos para o usufruto de quem o ouve. Há um discurso de polifonias e ritmos que tecem uma trama intrincada que pedem um grande despojamento nosso. Sem este libertário pensamento fica difícil mergulhar nesta trilha que a cada momento nos leva a uma nova paisagem, seja ela musical ou visual, só para ser coerente com meu raciocínio no início do texto.
Se a modernidade pede uma liquidez no pensamento, não será a música que exigirá definições muito precisas. Se procurarmos os estilos escondidos nas músicas deste CD podemos até nos deparamos com uma frase jazzística, um maracatu ou um dub conversando - quase que lisergicamente - com um ou outro ritmo. O que faz esta viagem ser interessante é o fato de que, de um bom músico, usufruímos o seu talento. E Granado é talentoso.
As 13 faixas, mixadas domesticamente pelo artista e por Gustavo Abreu, são todas de sua autoria, menos a que dá título ao disco, que conta com a parceria de Akim. O bom resultado do trabalho de estúdio ajuda no impacto que as faixas causam no ouvinte: a inteligente combinação dos apelos acústicos e dos eletrônicos parece gerar outra música, que acontece no meio destas duas. Destaque para alguma? Não sei, já que todas possuem uma ótima qualidade atestada pela continuidade das faixas que podem (e devem) ser ouvidas ininterruptamente. Esta fórmula ajuda no fluxo dos direcionamentos que as “trilhas mentais” sugerem. Posso parecer contraditório (e estou sendo), mas tudo é tão coeso que creio que deixar o CD player na opção “aleatório” pode gerar outras leituras tão ou mais interessantes. Isto não é pouco. A sobrevivência de uma obra às audições a que se submete é o que instala o critério de qualidade. Granado se deixa ouvir de múltiplas maneiras sem perder a força. Parabéns para nós com mais esta excelente chegada ao mercado fonográfico.
www.submarinerecords.net 13/01/2008
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