A vida em modelos
 
Viver = Ter vida; estar com vida; existir; durar; passar à posteridade; gozar a vida, sabendo aproveitá-la. Pequeno dicionário da língua portuguesa, editora Gamma.
O que é a Vida? Essa é uma daquelas perguntas muito simples e muito difíceis de serem respondidas. É como perguntar: "o que é sentir?" ou "o que é tempo?". São coisas que nos acostumamos a imaginar, não sabemos seu real significado mas temos alguma experiência e, com isso, imaginamos o seu significado. Poucos são os que ainda gastam o seu tempo à procura de significado/sentido para essas palavras.
A que mais me intriga é "vida". Talvez pela quantidade de definições diferentes e até contraditórias que costumo ouvir, acho que essa é a mais teorizada e incompreendida de todas essas palavras. Mas minha atenção está mais voltada não no QUE a vida é e, sim, COMO a vida é. Não do que ela é formada, mas como ela se forma.
Eu já passei por dois pensamentos diferentes sobre esse tema. O primeiro deles mostra a vida como sendo uma grande bola. Nosso planeta é redondo, nós vivemos em ciclos constantes de segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, etc... Tudo parece se repetir e voltar sempre para o mesmo ponto de partida. Estamos sempre esperando que o ciclo presente acabe e que um novo se inicie. Não é raro as vezes que nos vemos repetindo atitutes que não mais queríamos repetir, mas somos incapazes de impedir sua repetição. Repetimos velhos erros, reconquistamos algo que perdemos para novamente perder e reconquistar, num ciclo infinito de repetições.
Essa é a idéia de vida que me lembra um pouco o ying-yang, equilíbrio. Nada é nunca e nada é para sempre. Quando estamos em uma fase muito feliz algo inevitavelmente acontece que nos deixa imediatamente para baixo. Começamos a ficar insatisfeitos com a vida e logo nos vemos prestes a realizar um pequeno desejo e tudo se torna novamente feliz.
Esse modelo foi imaginado quando eu ouvi uma amiga dizer, em um dia de grande felicidade: "Hoje eu estou começando a ficar com medo. O dia está tão bom que acho que algo de ruim pode acontecer". Horas mais tarde, a mesma amiga sofreu um acidente, nada muito grave, mas que me deixou uma impressão estranha de tudo isso. Esse não é um modelo pessimista da vida. Mas um modelo em que a única constância é a inconstância (como diria Gregório de Matos) e que a única advertência é não nos acostumarmos com a situação atual.
Mas, anos mais tarde, depois de conhecer alguns textos de filósofos e escritores, depois de ganhar um pouco mais de "vivência", percebi que o modelo passado não representava a realidade, já que ele possuía a noção de tempo como seu principal sustentáculo. E o que é o tempo senão uma grande ilusão?
O segundo modelo mostrava a vida como sendo uma grande linha ramificada com várias saídas e cada saída com novas saídas, como um grande rio que vai constantemente se dividindo, sempre seguindo uma direção qualquer mas nunca voltando à sua nascente.
Isso é mais razoável quando imaginamos que um dia nunca é igual ao outro e que seguimos sempre em direção ao aperfeiçoamento, à evolução. Como a vida sendo um grande aprendizado para nos levar à perfeição. É quase a idéia do espiritismo e que, salvo toda a parte teológica, podemos ver claramente que pode funcionar. Repare que ontem você tinha um dia a menos de vida e que hoje você sabe coisas que não sabia ontem, nem que sejam coisas mínimas e aparentemente insignificantes. E não pense que os dias são ciclos, eles não são. Um dia não acaba para que outro comece. Tente ficar toda uma noite inteira acordado e você ficará assustado com a surpresa: não existe a separação de um dia para o outro. Os dois são ligados e fazem parte de um só dia. Toda essa noção de tempo serve somente para que possamos organizar nossa vida social, marcar nossos compromissos e em nada influencia para o nosso real viver.
É como passar o Ano Novo. Não existe diferença de um ano para o outro e as únicas coisas que acabam e recomeçam são nossos compromissos sociais: escola, trabalho, etc. Mas vivemos continuamente e progressivamente, independente da volta às aulas.
Eu considero esse modelo um pouco mais otimista que o anterior. Ele representa a vida como uma grande corrida com obstáculos. Os obstáculos são as nossas fases de tristeza que nos ajudam na ação de aprendizado (aperfeiçoamento, se preferirem) e os pedaços da pista entre um obstáculo e outro são nossos momentos de felicidade, nossos momentos de descanso para a próxima fase.
Atualmente, não considero nenhum desses modelos correto. Eu adotei um terceiro que representa minha visão atual da vida. Na verdade, é uma mescla dos dois anteriores e ainda está um pouco indefinido na minha cabeça, mas já tenho a sua base: seria representado por uma espiral onde o ponto central seria o nosso primeiro instante de existência. Logo depois começaríamos nossa corrida do aprendizado com ciclos constantes durante o percurso. Isso se daria até que a espiral se tornasse absurdamente grande e, assim, não mais teríamos a sensação de percorrer ciclos. Seria como percorrer a superfície da lua e da Terra. Ao percorrer a superfície da lua é fácil notar que o astro é redondo, já na Terra, a sensação de planalidade é muito maior. Ao atingir esse ponto, nos libertaríamos dessa idéia de ciclos, atingiríamos a tal perfeição.
Dessa forma, não temos um modelo tão estático como o primeiro nem tão "romântico" como o segundo. A mesclagem dos dois nos mostra que os problemas que estamos para enfrentar com o passar da vida vão aumentando (com o raio da espiral) assim como a nossa experiência para lidar com eles também aumenta (com o comprimento já percorrido). Imagine que uma criança tem os seus próprios problemas, problemas pequenos como a sua experiência de vida, e eles vão aumentando da mesma forma que a sua capacidade de controle. Pessoas que não conseguem acompanhar a espiral e se soltam da gravidade (atração do ponto central) antes do tempo se perdem no espaço sem nenhuma preparação -- depressão e suicídio. Aconteceria como um carro saindo pela tangente numa curva.
Assim, é improvável que tenhamos conhecimento da nossa força interior, já que vamos sempre ganhando mais experiência e vamos passando por problemas difíceis que não imaginaríamos que seríamos capazes de passar. Sempre conseguimos continuar nosso caminho, sem perceber que enfretamos as situações de forma cada vez mais competente. Como diria Clarice Lispector, "eu sou mais forte que eu".
É claro que ainda há muita coisa para inserir nesse modelo, mas se colocarmos todos os pontos que definem nossa vida, não teríamos um desenho simples e, sim, um caos em forma de desenho. Não aceite esse modelo como a grande Verdade, nem eu sei se ele está correto. Ele apenas define o modo como vejo a vida hoje e isso pode facilmente mudar com o passar dos anos.
Para os que acharam o tema complexo demais ou não tiveram interesse algum no que leram, me desculpem, não era a minha intensão. Para os que ainda gastam o seu tempo à procura de algum significado para a sua vida e acharam a discussão razoável, podem me escrever que terei grande prazer ler a sua opinião...
20/10/2003
 
Voltar

Comentário dos leitores:

Nenhum comentário foi feito, seja o primeiro a comentar.

>> Clique aqui para enviar seu comentário!



    ATUALIZAÇÕES
17/06 Van Damme, a redenção [JCVD]
17/06 Katie Melua [Katie Melua - The Katie Melua Collection]
28/05 Canto de casa para todos os pretos [Lívia Lucas - Canto de Casa]
28/05 Da Lama ao Caos. [Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos]
17/04 Meio que tardio [Guns and Roses – Chinese Democracy]
DO MESMO AUTOR
   LEIA TAMBÉM
01/03/2006 Clube do Bolinha [Terra Fria]
18/12/2003 Onde gastei meu dinheiro???
02/04/2005 Mais uma obri-prima da literatura portenha [O Túnel (Ernesto Sábato)]
30/11/2003 Os grandes na primeira divisão
23/09/2004 Qual a maior loucura que você já fez? [Um Show de Vizinha]