|
 Após anos exilada na Argélia, Mathilde retorna à França – trazendo na bagagem seus filhos Edouard e Fátima –, determinada a reaver sua parte da herança, em posse de seu irmão Adrien. Ao mesmo tempo em que reivindica seus bens, Mathilde aproveita para vingar-se dos maus-tratos recebidos outrora - partindo pelo preceito olho por olho, dente por dente – além de ressuscitar os incômodos fantasmas familiares, como a misteriosa morte de sua cunhada.
Apesar do enredo tenso, disposto a expor a ganância e a crueldade humana, Le Retour au Désert (O Retorno ao Deserto) aborda temas espinhosos com viés humorístico, porém sem cair no ridículo da parlapatice gratuita. A montagem baseada no texto de Bernard Marie Koltès, resultado de uma produção franco-brasileira – união entre Compagnie Dramatique Parnas e SESC São Paulo –, tem na direção Catherine Marnas, diretora francesa já habituada ao intercâmbio teatral, produzindo peças em países como México e China com artistas locais. 
No entanto, em Le Retour au Désert o intercâmbio cultural vai além da formação do elenco, composto por brasileiros e franceses. A língua torna-se a característica principal da montagem ao mesclar falas em francês (com direito a legendas sobre o palco) e português, aproveitando que os personagens principais são interpretados por duplas de atores, cada um de uma nacionalidade.
Tal recurso, longe de confundir o público, apesar do estranhamento inicial, realça a temática antinacionalista presente na peça sobre a invasão do estrangeiro ou propondo a quebra de barreiras a fim de perceber o mundo de formas distintas àquelas que estamos condicionados. 
O interesse pela pré-estréia mundial de Le Retour au Désert – ocorrido logo no início da 8ª edição do Festival Internacional de Teatro de Rio Preto – foi maximizado pela presença no elenco da atriz brasileira Sandra Corveloni, ganhadora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes em 2008. Acompanhada por Bénédict Simon, ambas interpretam Mathilde, num revezamento francês/português que alterna o desvario da Mathilde francesa com a amargura irônica da Mathilde brasileira. Esse contraste nas duplas também é reforçado pelo figurino, sendo que o elenco francês tem o visual suavizado pelos tons frios, realçando a dualidade onírico dos personagens.
Porém, mesmo com uma excelente direção, elenco afiado e cenário simples – que ora é o interior da casa, ora as muralhas do jardim – a montagem exige um pouco do espectador em algumas sequências ou monólogos. Com tempo estimado em 120 minutos, a encenação aproximou-se dos 150 minutos, testando a concentração de muitos que já lutavam contra o sono. 
Mas o teste de resistência vale a pena. Le Retour au Désert é uma tragicomédia francesa imperdível, com todo aquele saboroso jeitinho brasileiro definido brilhantemente por José Simão: “nóis sofre, mas nóis goza!”.
Fotos: Jorge Etecheber 19/07/2008
|