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Um menino doente, uma família liberal, uma tia rica e um mundo de religiões. Começa aí uma viagem buscando um entendimento e quem sabe até um sentido para a fé religiosa.
Na verdade, em “A Viagem de Théo” a autora francesa Catherine Clément, formada em filosofia e ciências humanas, utiliza uma história para contar outra. A viagem dos protagonistas do livro é a base para o real objetivo: falar sobre as religiões. Se o leitor tiver a sensação de que já viu isso em algum lugar é porque, provavelmente, já leu “O Mundo de Sofia”, que utiliza essa mesma linha, só que para falar de filosofia.
 O ponto de partida da história é a doença grave, desconhecida e provavelmente incurável do garoto Théo, filho de uma família francesa de classe média. Frente a essa situação difícil entra em cena sua tia Marthe, viúva rica que decide levar o rapaz para uma viagem nada comum. Eles visitarão os locais em que Théo possa ter contato com as principais crenças religiosas surgidas nos vários continentes.
Mas por que a religião? Antes de tudo porque o jovem Théo foi criado sem religião, seus pais resolveram que ele escolheria sua religião quando quisesse. Na verdade ele gosta muito de assuntos religiosos, sem escolher uma religião específica. O outro motivo é a busca por uma cura, ou pelo menos por despertar a fé de que a cura seria possível.
Théo e tia Marthe viajam a Jerusalém, ao Cairo, à Índia, ao Japão, ao Brasil e muitos outros lugares onde o garoto, um adolescente muito curioso, possa não apenas conhecer, mas também experimentar as religiões. Sempre tendo um “contato” em cada país visitado, tia Marthe tenta mostrar a Théo não apenas a religião, mas a cultura religiosa dos povos. A cada lugar visitado a autora nos mostra os fundamentos das religiões de uma forma simples e correta, e o que é mais interessante, sempre apresentando “prós e contras” que podemos apontar em cada uma delas. Com um conhecimento abrangente não apenas das religiões, mas também das sociedades, a autora nos mostra que a religião está, e sempre esteve, ligada a todos os aspectos de uma nação ou de um povo, até mesmo à política. 
Devemos notar que apenas o essencial ao entendimento e à experimentação da religião por Théo é colocado no livro. Não há um aprofundamento exagerado em qualquer uma das religiões, até porque, mesmo para um livro de mais de 600 páginas, isso se tornaria extremamente difícil e fora das pretensões.
Um dos pontos mais interessantes é a descrição das pessoas encontradas pelos protagonistas em cada país. A autora evita o estereótipo através do estereótipo. Os contatos de tia Marthe personificam corretamente a maioria de sua população, o que colabora para a exatidão das informações e evita os exageros. Se geralmente encontramos, nos livros e filmes, um Brasil que tem carnaval o ano inteiro e todo mundo só sabe jogar futebol e andar no meio da selva, aqui a coisa é bem diferente. Da agitação do Rio de Janeiro à simplicidade da feira de ervas e plantas de Belém do Pará (pasmem!), da arte barroca das cidades históricas do interior de Minas à culinária exótica da Bahia, os locais visitados no Brasil são citados com a simplicidade e a exatidão de quem provavelmente já esteve aqui. Há até certas surpresas agradáveis em relação ao Brasil.
 O livro é recheado de personagens interessantes, desde a família de Théo, com os problemas que toda família tem, até russos emotivos, sheiks muçulmanos, gurus indianos, pais-de-santo e muito mais. Além disso, ao final da viagem, a explicação de Théo para as religiões e para o que aprendeu talvez seja uma das melhores já encontradas na literatura. Na verdade, Théo e tia Marthe conhecem muito mais coisas do que apenas religião, aprendem sobre perspectivas de vida e de morte, e passam a compreender, através da cultura e da história dos povos, muitos acontecimentos do nosso tempo. 21/10/2003
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