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Os Olhos do Cão Azul; os olhos intimidadores de Demian no romance de Herman Hesse; os olhos cortados por Luís Buñuel no filme o Cão Andaluz; De Olhos Bem Fechados; os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu: não é somente a literatura e o cinema que são fartos de referências ao órgão humano. Saltam aos olhos as referências aos mesmos no mundo da música.
Estas vão bem além de ‘Far away eyes’, dos Rolling Stones, ou de ‘In My Eyes’ do Rage Against The Machine. Virou até nome de banda: ‘Bright Eyes’.
Vejamos a situação com os olhos clínicos. Os olhos podem ser ciganos (‘Gypsy Eyes’ de Jimi Hendrix), verdes (‘Green Eyes Lady’ do Thinking Fellers Unions ou ‘Green Eyes”’ do Coldplay), castanhos (‘Brown Eyes Girl”’, de Van Morrison), azuis (‘Pale blue eyes’ do Velvet Underground ou ‘Judy Blue Eyes’ da banda Crosby, Stills, Nash and Young), selvagens (‘Wild Eyes Boy From Freecloud’, de David Bowie), misteriosos (‘The Misty eyes’, dos Maybess, que devem ver o assunto com bons olhos, pois escreveram também ‘The Mirror Of Your Eyes’), japoneses (‘Tokyo Eyes’, do Sonic Youth), angélicos (Wynton Marsalis, ‘Angel Eyes’) ou estelares (Charlie parker & the all-stars, Star Eyes).
Mas fique de olho: os olhos podem enganar (‘Real Eyes, realize, Real Lies’ do Machine Heads). Podem ainda ter um fantasma atrás deles (‘Ghost behind my eyes, de Ozzy Osbourne) ou uma agulha neles (Beta Band, Needles in my Eyes) – esta segunda hipótese é, certamente, pra quem tem olho gordo. Para aqueles que não pregam o olho, resta a noite, que tem mil olhos (John Coltrane, “the night has a thousand eyes’) ou podem abri-los (‘The night has opened my eyes’ dos smiths). Billie Holiday nos mostra que então lá estão os olhos (Them there are eyes) enquanto Herbie Hancock interpreta o olho do furacão (Eye Of The Hurricane). Nos EUA, o convívio entre os rappers nunca foi harmonioso, ocorrendo inclusive vários assasinatos graças à rivalidade entre os grupos. É olho por olho, dente por dente.

Entre nós, brasileiros, os compositores também não fecharam os olhos ao tema. Temos os olhos apaixonados de Cartola (Fita Os Meus Olhos), Vinícius de Moraes (Pela Luz dos Olhos Teus, com música de Tom Jobim), Lenine (Dois Olhos Negros), além da mulata dos olhos de jabuticaba de Mano Décio. Mas como nem tudo é festa, há também aqueles da separação: Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, e Água e Azeite na Menina dos Meus Olhos (Monsueto). Há o alerta de Gilberto Gil, que se não for um bom ministro vai para o olho da rua (Abra o olho). Há ainda os olhos paranóicos e neuróticos de Tom Zé (‘Todos Os Olhos’, do álbum de mesmo nome). O compositor também colocou este olho mesmo que você, malicioso leitor, está pensando, na capa de seu disco Todos Olhos, e só revelou o mistério décadas depois do lançamento do vinil.
Sem os olhos, não teríamos também as lágrimas que dão o título da música de Tom Jobim (‘Tears’), sem dúvida um compositor cuja qualidade cresceu a olhos vistos.
E por último, mas não menos importante, há de se dizer: os cds estão custando os olhos da cara. Agora que já fiz meu protesto, dá-me licença o leitor, pois tenho de devorar um olho-de-sogra. 21/10/2003
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