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‘Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda’. Á Dona Ângela, ‘debuxo singular, bela pintura’, que ‘em Anjo se mentia’, o poeta baiano Gregório de Matos dedicou três de seus sonetos. Dedicou também um à ‘discreta e formosíssima’ Maria dos Povos. Mas o poeta barroco não foi o primeiro. Nem o último. Carmem, de Prosper Merrimée; Naná, de Emile Zola; Madame Bovary, de Flaubert; Eugenia Grandet; de Balzac; Helena, de Machado de Assis; Iracema e Lucíola, de José Alencar. Grandes romances levaram como título um nome feminino.
E como não poderia ser diferente, foram muitos os músicos deste século que se foi a darem um nome feminino como título de suas canções. A lista começa, naturalmente, com a ópera Carmem, de Georges Bizet, inspirada no romance homônimo.
 No Brasil, nem as invejosas negam: ‘Gabriela’ é campeã de músicas com seu nome. Temos a Gabriela com cheiro de cravo e cor de canela, pimenta de cheiro, cebola em rodela de Tom Jobim; a Gabriela tão pura, tão linda e sincera, da singela canção de Jorge Ben; a Gabriela e a lagoa dela, de Elomar.
Chico Buarque foi outro que intitulou algumas de suas letras com nomes femininos. Escreveu ‘Cecília’ (Quantos artistas e grandes orquestras entoam baladas pra suas amadas/ como os invejo/como os admiro/ eu que te vejo e nem sempre respiro), ‘Lola’ (Sabia que você ia acontecer um dia/ e claro que já não me valeria nada) e com Caetano Veloso, o amor lésbico de ‘Bárbara’ (o meu destino é caminhar assim desesperada e nua/ sabendo que no fim da noite serei tua). Aliás, Caetano Veloso também escreveu ‘Lindonéia’.
Ângela não foi só homenageada por Gregório de Matos. Tom Jobim fez também uma música com este nome (por quê tão triste assim agora? E tudo quanto existe chora? Teu rosto na janela daquele avião...). Além de ‘Ângela’ e ´Gabriela’, o compositor escreveu ‘Ana Luíza’ (eu fiz esta canção pra você que pergunta/ precisa saber onde anda Luíza) e a tão famosa ‘Luíza’ (eu sou apenas um pobre amador apaixonado/ um aprendiz de teu amor). Como se não bastasse, também são dele “Bebel” e “Izabella”.
A lista não se esgota. ‘Beatriz’, (será que ela é moça, será que ela é triste?) é o título da música de Milton Nascimento, que escreveu a conhecidíssima ‘Maria, Maria’. ´Cristina’ é a mulher que Tim Maia vai ver, no seu caminho que é ida sem volta. ‘Izaura’ é aquela que se João Gilberto cair nos braços, não há despertador que o faça acordar. Há ainda ‘Madalena’ tão bem interpretada por Elis Regina.
 Nome de flor, nome de mulher. É o caso de ‘Rosa’, de Pixinguinha, e ‘Margarida’, de Patápio Silva.
´Liza’ e ´Jessica´ são as homenageadas pelo jazz, nas versões, respectivamente, de Charlie Parker e Herbie Hancock. Ambas são instrumentais, como é igualmente instrumental ‘Sarah” de David Bowie. Ainda do jazz, temos ‘Diane’ de Miles Davis, e ‘Clementine’ de Duke Ellington.
De referências ao belo sexo é farta a obra da banda norte-americana Pixies. O grupo compôs ‘Cecilia Ann’, ‘Ana’ e ´Alisson’. O amigo Jairo ‘Corleone’ também lembra que Leonard Cohen é outro intitulador de suas canções com nomes femininos, como é o caso de ‘Suzanne’ e ‘Nancy’.
É mesmo grande a lista das musas dos compositores. O que os teria levado a dar o nome próprio a tais letras? É um mistério... 21/10/2003
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