Herman Hesse e O Lobo da Estepe – Só para loucos
 
 
 
 
 
Nascido em 2 de julho de 1877, na cidade de Calw, na Alemanha, morto em 9 de agosto de 1962, na Suíça, Hermann Hesse é um dos escritores prediletos do público brasileiro. Vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1946, sua extraordinária popularidade explica-se pelo fato de suas obras manterem uma constante relação com os acontecimentos decisivos de nosso tempo, como mantiveram com os acontecimentos da época em que foram escritas. Além disso, é impressionante a capacidade do autor alemão, da mesma geração de André Gide, Marcel Proust, Thomas Mann, James Joyce, T.S, Elliot, de cativar o leitor, de fazê-lo identificar-se profundamente com seus personagens.
Inspiração surrealista pela valorização do sonho e da fantasia, influências herdadas da psicanálise de Carl Jung e Freud, influências da filosofia oriental, teor autobiográfico, são alguns traços comuns das obras de Hesse. Crítico do militarismo alemão, do nacional-socialismo e da guerra, Hesse preocupa-se também com as grandes questões sociais e políticas de seu tempo. Em seus livros está sempre presente o sonho da conjugação entre a tradição da Ásia e da Europa ou a de realizar a síntese entre o apolíneo e o dionisíaco, profetizada por Nietzsche. Deste pensador Hesse herda a idéia de que a vontade de poder, expressa na luta entre valores antagônicos, é que torna a realidade social, política e econômica compreensível. É desta noção que advém as histórias de ambivalência e de tensão humanas que marcam sua obra.
O Lobo da Estepe, escrito em 1927, é o romance fundamental de Hesse. É o ponto de convergência de todos os temas de sua obra; marca a ruptura entre a consciência exasperada pela superação de idéias antagônicas e a paz, a serenidade que o autor finalmente encontra em sua vida pessoal, cristalizada no Jogo das Contas de Vidro.
Em O Lobo da Estepe, a meu ver o melhor dos livros de Hesse e indiscutivelmente um dos romances mais representativos do século XX, nos é contada a história de Harry Haller, um outsider, um misantropo de cinqüenta anos, alcoólatra e intelectualizado, angustiado e que não vê saída para sua tormentosa condição, autodenominando-se “lobo da estepe”. Mas alguns incidentes inesperados e fantásticos o conduzem lenta porém decisivamente ao despertar de seu longo sono: conhece Hermínia, Maria e o músico Pablo. E então a história se desenvolve, guiando-nos num êxtase febril ao seu surpreendente desenlace final.
Cabe aqui uma análise ousada. Hermann Hesse usa para a construção de seus personagens, que não são “pessoas”, mas “estereótipos” ou “conceitos”, o método dos “tipos ideais”, elaborado pelo sociólogo alemão Max Weber. De acordo com este método, retira-se da diversidade infinita da vida social os elementos essenciais, de maneira a conduzir o cientista na infinitude do real, servindo como um instrumento para guiá-lo numa realidade complexa. Desta maneira, o lobo da estepe é um tipo ideal, bem como são tipos ideais Hermínia, Pablo e Maria. Hesse deixa explícita tal noção no Tratado do Lobo da Estepe, terceira parte do livro: “O lobo da estepe tem um destino nem singular nem raro”, é uma “violentação do real em favor de uma explicação plausível” porque “todas as tentativas de tornar as coisas compreensíveis se fazem por meio de teorias, de mitologias, de mentiras” assim sendo “o lobo da estepe também é uma ficção”.
Hermann Hesse procurou, através de uma fórmula generalizadora, de uma forma análoga à sociologia e à história, construir conceitos-tipo, distanciando-se da realidade para compreender os fenômenos racionais, místicos, proféticos, espirituais e afetivos. O Tratado do Lobo da Estepe é bastante esclarecedor neste sentido. E não é apenas no Lobo da Estepe que isto ocorreu: no Jogo das Contas de Vidro, José Servo representa o tipo ideal “santo” enquanto Plínio representa o tipo ideal “libertino”.
Da compreensão de como Hesse concebeu seus personagens acabamos por aceitar que questões muito discutidas como “Harry cometeu assassinato ou não”, “o teatro mágico existiu ou não”, “os acontecimentos ao final da história são verdadeiros ou não” são absolutamente irrelevantes. O que importa são as reflexões filosóficas, os questionamentos políticos e, dentro disso, a afirmação de um mundo de fé, sereno, multipersonalístico, no qual o humor é bebida indispensável. O Lobo da Estepe, como Hesse escreveu posteriormente, é sua obra mais violentamente incompreendida. Apesar de tratar de enfermidade e de crise, o que temos aqui é uma história de redenção.
 
21/10/2003
 
Voltar

Comentário dos leitores:

Adorei a matéria. Faço filosofia e faz uns dois anos descobri Hesse. Agora estou fazendo um trabalho aonde tentarei unir em uma "ética da liberdade" Hesse e Nietzsche. Até S.
S. Brasil

Boa tarde. Muito interessante. Gostaria de saber onde encontrar o livro em referencia? Atenciosamente. Robson - karroby@ibest.com.br
ROBSON DE CARVALHO

Tive o enorme prazer de conhecer Hermam Hesse com meus 16 anos hoje estou com 25 e afirmo-lhe que nunca mais fui o mesmo minha visao sobre o mundo parece ter entrado em uma fase de transmutaçao, após a leitura de Hesse conheci vários eus que até então eu desconhecia, quando li Lobo da estepe parece que estava lendo minha própria vida, me identifiquei muito com a história mas aconselho para quem nunca leu que se prepare antes pois é como Hesse mesmo diz "SÓ PARA LOUCOS" se alguem quiser falar comigo é so enviar um mai-l que responderei muito legal o site parabéns. Ricardo pires
RICARDO PIRES

Belíssima matéria. Após ler "O lobo da estepe", fui atrás de conhecer a obra completa de Hesse. Um abraço, parabéns e Saludos. Maria José Limeira.
Maria José Limeira

adorei,há 30 anos li varios livros de h.h é como se o tempo voltse,vou preciso vtar a ler:h.h e gibran.amei,amei, amei.mta paz.
alcina albuquerque

Belíssima análise.tomei conhecimento do livro em questão,ao assistir uma entrevista concedida pela Clarice Lispector ,em 1977, a tv cultura ,na qual ela cita O Lobo da Estepe.fique curioso e fui a procura do autor e sua obra.estou lendo o lobo da estepe e,confesso estar deslunbrado com a escrita de Herman Hesse
Newton

Li hermann hesse ,faz uns 15 anos, estou aqui de novo procurando o livro "o lobo da estepe",pois marcou demais minha vida ... sabe muito esse esse cara. Félix hidalgo
Felix Tadeu Hidalgo Peres

adorei saber sobre o Herman Hess li a muitos anos atrás e foi marcante pra mim,gostaria de saber também sobre Robert Crocker escritor alemão e professor de arquitetura na australia.
adrina simões

Conheci Hermann Hesse pela minha profunda inclinação pelo paradoxo que é a alma humana! Suas obras revelam a angustiante desarmonia que é a existência.
Patrícia Dantas

Terminei de ler o "Lobo da Estepe" e a sensação que tive foi a de estar testemunhando, numa visão panorâmica, a própria sociedade capitalista, neoliberal e pós-moderna, com sua complexa malha de valores e comportamentos que aprisionam, sufocam e condicionam o homem, tirando-o, sob a premissa da liberdade, sua própria liberdade e arbítrio. Nesse livro pode-se perceber os conflitos de uma época pós-guerra, com uma Europa mergulhada numa crise e abraçando o niilismo, resultado e fruto do imperialismo e das disputas que delinearam o mundo no último século. Todavia, a linguagem é atual, e as críticas que podem ser vistas no livro relacionam-se e dizem respeito ao homem contemporâneo, um verdadeiro exilado à procura do seu "eu" interior, fragmentado em múltiplos personagens que é obrigado a representar, como Harry em seu "Teatro Mágico", em que se via ao mesmo tempo como vítima e vilão de si mesmo, herói e bandido, sagrado e profano, comedido e louco...um Harry que ora atira furiosamente em automóveis, símbolo da modernidade, e que ora compartilha os doces e oníricos aromas dos campos de sua infância e juventude, comprazendo-se generosamente com os prazeres dos sentidos. Esse livro, bem como outras obras de Hesse, tais como "Debaixo das rodas" e o "Livro das Fábulas" constituem uma verdadeira denúncia do homem e sua idissioncrasias, suas complexidades existenciais e a sensibilidade da vida frente ao jogo de valores que caracterizam os fatos e as relações sócio-econômicas, ético-religiosas e culturais na civilização hodierna, obsecada por um "modus vivendis" hedonista, dominado pela ânsia de ter em detrimento do ser, a dor do existir e fazer parte do mundo em todas as suas representações e as ambiguidades daqueles que se propõem padrões mais altos que não se sustentam quando rendidos pela realidade que a todos atinge e envolve com seus braços inexoráveis. É uma obra que vale a pena ser lida, mas que requer nervos de aço e uma consciência "firme", pois é um potente bisturi capaz de dissecar a alma humana e despí-la de sua hipocrisia e encenações.
Ueslei Nunes

Li este livro e assim como o personagem/autor fui envolvido por esta vida Niilista, o livro e empolgante.Maravilhoso!
Albérico campos

>> Clique aqui para enviar seu comentário!



    ATUALIZAÇÕES
17/06 Van Damme, a redenção [JCVD]
17/06 Katie Melua [Katie Melua - The Katie Melua Collection]
28/05 Canto de casa para todos os pretos [Lívia Lucas - Canto de Casa]
28/05 Da Lama ao Caos. [Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos]
17/04 Meio que tardio [Guns and Roses – Chinese Democracy]
DO MESMO AUTOR
   LEIA TAMBÉM
04/05/2007 Suco de ritmos made in Nederland [Zuco 103 - Tales of High Fever]
21/04/2006 Colcha de Retalhos [Colcha de Retalhos (Conto)]
30/06/2005 Velhos amigos [Cachorro Grande - Pista Livre]
19/07/2004 O doce legado da tristeza [Avec Tristesse - How Innocence Dies]
30/04/2006 Advogado do Diabo versão ESPN-cassino [Tudo por Dinheiro]