Bug na Matrix
 
 
Da primeira vez as regras começaram a ser quebradas. Uma 'anomalia' chamada Neo, codinome do hacker Thomas Anderson, era a única chance de salvação para uma humanidade escravizada pelas próprias máquinas que criou, em Matrix, de 1999. Quatro anos depois e com uns 100 milhões de dólares a mais no orçamento, os irmãos mais notórios do momento, os Wachowski, Andy e Larry, transformam 2003 no ano em que suas contas bancárias contabilizarão bilhões, lançando duas seqüências cinematográficas num curto espaço de seis meses, Reloaded e Revolutions, mais um game interligado à trama e cujo release dizia ser revolucionário, mas que muita gente por ai já andou chamando de meia-boca; e pra terminar, o que parece ser a melhor parte da tão comentada 'invasão', uma série de curtas de animação com os mais cultuados artistas do oriente, Animatrix, que preenche as muitas lacunas deixadas pelo enredo mirabolante.
Os dois irmãos diretores que mais parecem Kevin Smith e um Stan Lee ainda adolescente, fizeram da pílula vermelha um doce de criança. E parecem estar procurando alucinadamente pela balinha azul dentro do pacote. Qualquer um faria o mesmo sob a batuta de um 'paizão' como Joel Silver, o produtor que nos 'presenteou' com clássicas cini-séries noventistas como Duro de Matar e Máquina Mortífera. Protegido das críticas pelos muros altos de alguma mansão sua em Hollywood na época do primeiro filme, repercussão negativa essa que acabou não acontecendo, o figurão Silver agora surge do limbo para fazer elogios rasgados à trilogia e aos Wachowski. Alguém ainda duvida da grande jogada de marketing que é não colocar os irmãos na mira dos holofotes? Seria chocante para toda uma geração expor provavelmente dois dos exemplares mais curiosos da raça nerd que este planeta já produziu. Publicidade barata essa que tomou conta também das bancas de todo o mundo neste mês de maio: não há uma revista relevante sequer onde Carrie-Anne Moss, Lawrence Fishburne e Keanu Reeves não estejam lá plantados na capa usando óculos escuros e roupas de couro.
Mas vamos à Reloaded, episódio da saga que estreou esta semana no Brasil. As máquinas descobrem finalmente o último reduto de humanos que ainda não está sob seu controle. Os fiéis defensores dessa cidade incrustada próximo ao núcleo terrestre, terão que tentar destruir tais máquinas usando da realidade virtual que elas mesmas criaram para aprisionar as mentes humanas. Trata-se de uma sucessão incontrolável de upgrades dos conceitos estabelecidos na primeira história. Os mais fanáticos com certeza ficarão sem dormir por algumas noites, ainda mais depois de constatar que o processador da Matrix tem barba...
A maioria dos novos personagens, apresentados em grande estilo nos cartazes promocionais, não passam de meros coadjuvantes, deixando as inevitáveis perguntas para serem respondidas ou não, somente quando o terceiro filme estrear no final do ano. Uma análise rápida e superficial de Reloaded poderia muito bem compará-lo com As Duas Torres, continuação de outra saga cinematográfica moderna, a de Senhor dos Anéis: apenas uma epopéia violenta para dar passagem do começo para o encerramento da história.
A seqüência da auto-estrada marca o filme, bem pudera, visto a quantidade de dinheiro gasto para que fosse realizada. Influência de outros filmes que também já tiveram o dedo de Joel Silver, com perseguições automobilísticas e carros explodindo? Quem sabe. Muita atenção para o fantástico ângulo de câmera que mostra Morpheus e um agente prontos para a ação em cima de um caminhão em alta velocidade. Tira muito mais o fôlego do que o quebra-pau entre Neo e uma centena de agentes Smith, prometida como novo marco na história do cinema. É possível notar com clareza a utilização indiscriminada de dublês criados no computador, inclusive o próprio Neo virou um personagem igual aos de Final Fantasy. Dezenas de agentes Smith infernizando a vida de todo mundo? Pois é, nem a Matrix está livre do spam.
Não espere por diálogos muito compreensíveis, mas sim por longos papos filosóficos meio difíceis de serem captados, assim, logo de primeira. Sim, algumas coisas não mudaram. Cenas como a de uma Trinity furiosa, apontando um tremendo de um trabuco em direção à fuça da deliciosa e sarcástica personagem vivida por Mônica Bellucci, depois desta ter feito uma indecente proposta à parceira de Neo, são mais corriqueiras e divertem.
A trilha sonora ajuda e muito nas cenas de ação desnecessárias, como aquela que antecede a conversa entre Neo e o Oráculo. Os irmãos Wachowski parecem ter bebido na fonte de um tal de George Lucas também: Zion, o oásis humano em uma Terra em trevas, mais parece uma Coruscant qualquer. O que os jedis e outros personagens da saga de Guerras nas Estrelas não fazem, é se divertir como fazem os habitantes de Zion!
Apesar daquelas partes difíceis de engolir, ainda acaba valendo bastante à pena. É pipoca, é Hollywood, diversão garantida, motivo suficiente para deixar formadores de opinião como Ana Maria Bahiana e Sérgio Dávilla, ou até mesmo este humilde que vos escreve, em cima do muro. Portanto aconchegue-se na poltrona para ser plugado novamente: uma experiência um pouco desconfortável mas que vale uma vida, ou alguns bits de memória.
21/10/2003
 
Voltar

Comentário dos leitores:

Nenhum comentário foi feito, seja o primeiro a comentar.

>> Clique aqui para enviar seu comentário!



    ATUALIZAÇÕES
17/06 Van Damme, a redenção [JCVD]
17/06 Katie Melua [Katie Melua - The Katie Melua Collection]
28/05 Canto de casa para todos os pretos [Lívia Lucas - Canto de Casa]
28/05 Da Lama ao Caos. [Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos]
17/04 Meio que tardio [Guns and Roses – Chinese Democracy]
DO MESMO AUTOR
   LEIA TAMBÉM
14/09/2005 Matrix, clones, uma ilha e uma caverna
15/11/2003 Inevitável [Matrix Revolutions]
18/11/2003 Matrix: A estória que não soube ser contada [Matrix]
21/10/2003 Revolução recarregada [Matrix Reloaded]
06/11/2003 Aperte Reset para sair da Matrix [Matrix Revolutions]