Onde o herói era você
 
Era domingo de manhã, pouco antes do almoço. Da cozinha vinham os aromas especiais da comida que era preparada sempre que os meus avós paternos vinham de praxe em visita à minha casa em finais de semana intercalados. Para comer principalmente, sem se esquecer da cesta depois, lógico. Jornal era obrigatório, e não só um: Folha e Estado de São Paulo. Meu pai procurando por um emprego melhor nos classificados, minha mãe dando uma rápida conferida no caderno feminino e eu como sempre a devorar o suplemento infantil.
Mas não era mais um domingo qualquer. A seção de cartas da Revista da Folha do dia 24 de agosto de 1995 (Gustavo Franco na capa, dizendo que o governo devia cobrar impostos de quem divulga 'besteiras econômicas') estava estranhamente... grande. Página inteira. Havia uma ilustração de um ursinho de pelúcia com contornos em rosa e outra dos Cavaleiros do Zodíaco, onde abaixo havia o seguinte texto:
O estudante Júlio César Mello, 11, escreve para anunciar a criação do fã-clube dos Cavaleiros do Zodíaco, desenho animado transmitido pela TV Manchete de segunda a sexta-feira, às 18h20. Endereço: (...). Júlio explica que, para os novos sócios ganharem carteirinha, jornalzinho quinzenal e pôster do cavaleiro de sua preferência devem mandar nome, idade, signo e R$ 3.
"Saiu! Saiu!". Eu gritava e pulava pela casa inteira. Antes quieto folheando o jornal, minha mãe tomou um tremendo susto quando irrompi sorrindo, aparelho nos dentes, de um dos inúmeros cômodos da gigantesca casa onde nós morávamos no Parque Edú Chaves, área periférica da zona norte de São Paulo. A primeira coisa que veio na cabeça dela era que algum dente meu havia caído, coisa da idade, quando desembestei a berrar que alguma coisa tinha saído.
Na verdade foi a primeira de duas cartas publicadas que eu tinha enviado, com a minha letra enorme, um garrancho na época, para três revistas distintas a fim de divulgar a criação do fã-clube. Olhando hoje eu detesto os acentos agudos que não existem de fato em 'Julio' e 'Cesar' e a falta do 'Ibelli' antes do 'Mello'. Mas na hora era a maior felicidade do mundo, meu coração parecia que ia sair pela boca, mostrava alucinadamente a página da revista pra todo mundo e percebia, ainda que pequena, certa preocupação misturada à euforia e admiração estampados nos olhos dos meus pais.
Não fazia muito tempo que eu tinha criado o 'fã-clube', mas o tempo que levou para que as pessoas tomassem conhecimento dele pareceu uma eternidade. Era o começo da revolução dos PC's no Brasil. A carteirinha de sócio era a única coisa feita no computador, no pré-histórico Paintbrush do Microsoft Windows 3.11 para Workgroups. Tudo muito rústico. O jornalzinho e o pôster não passavam de um amontoado de recortes da recém-nascida revista Herói (que devia faturar horrores com a febre), colados em uma folha de sulfite com a minha letra de forma, mais 'bonitinha' do que a de mão, no meio. Depois tudo era xerocado.
No dia seguinte, segunda-feira, os correios entraram em greve. Quando a entrega normalizou, Sabiá, o carteiro da minha rua, toca a campainha e entrega em minhas mãos, com minha mãe atônita a observar, um bolo com 20 envelopes de diversos tamanhos e cores. Foi mais um motivo para eu sair alucinado, gritando de felicidade pelo quintal, que era proporcional ao tamanho da casa. Sabiá virou amigo da família, passou a ganhar comissão todo mês para entregar as cartas direitinho, sem deixar faltar nenhuma, além de uma garrafa de vinho no Natal.
Somente um ou dois envelopes não vieram com a contribuição de 3 reais. A 'taxa de inscrição' chegava em dinheiro e até em cheque, o que é ilegal nesse sistema de postagem. Não me lembro de nada ter voltado por causa disso. Dava instruções aos sócios: 'dobre bem o dinheiro e esconda dentro da carta'. A média de correspondências durou por meses a fio, volume ininterrupto. Vinham principalmente de São Paulo e Curitiba, o que não excluía o resto do país, inteiro. Do exterior devem ter chegado no máximo umas duas, eu acho. Toda tarde era um calhamaço de papel jogado no quintal.
Eram na maioria das vezes crianças, da minha idade na época, que me escreviam. Percebia-se a influência dos pais na hora de redigir as cartinhas. Por muitas vezes, quando os pirralhos não tinham ainda idade suficiente pra empunhar um lápis, eram os pais quem assumiam o lugar de remetentes. Nada impedia os pedidos mais impossíveis apesar das restritas informações que foram solicitadas. Tinha muita gente que queria completar coleção de bonequinhos implorando a ajuda desse que vos escreve.
A casa sempre estava preparada, cheia de pôsteres na parede, para a visita dos sócios, que foram bem poucos a aparecer pessoalmente. A rotina mudou completamente. Minha mãe preparava o jantar, fumava, assistia a novela das 8 na seqüência do Jornal Nacional e preenchia à mão todas as informações de cada carteirinha de sócio. No dia seguinte meu pai as levava para plastificar. Passávamos madrugadas inteiras acordados, minhas tardes depois das aulas eram todas dedicadas à resposta das cartas recebidas. Havia sempre um estoque de envelopes, cola e selo. Já passavam de '200 sócios espalhados por todo território nacional', como eu me orgulhava de dizer.
A publicação oficial do clube, o imponente 'Jornal dos Cavaleiros do Zodíaco', que posteriormente ganhou o título feito em computador num precário software para confecção de banners, era fundamental no relacionamento com os associados. Eu tinha prática na confecção de jornais do tipo escolar. Minha carreira jornalística começara precocemente aos 7 anos quando eu editava um jornal com cópias feitas em papel carbono para distribuir aos meus tios nos fins de semana. O 'Jornal dos Cavaleiros' trazia o ranking dos personagens mais adorados, curiosidades, grandiosas reportagens, seção de cartas, previews dos desafios que seriam enfrentados pelos heróis nas próximas temporadas da série animada e os fantásticos desenhos enviados de Curitiba por uma das sócias mais atuantes, Marina Yumi Fujiname, da qual eu nunca vou esquecer.
A coisa cresceu. Um belo dia meu pai aparece com a idéia de um encontro de sócios, que poderia acontecer no mini-shopping onde ele trabalhava na época, cuidava da parte administrativa. Acabou acontecendo. No shopping tinha faixa pendurada anunciando o evento e a rádio interna lembrando da data. Carro de som na rua e anúncio no jornal do bairro.
Foi um sucesso. A Herói contribuiu com centenas de revistas para serem vendidas no evento. Alguns poucos sócios compareceram, é verdade, mas algumas dezenas de novas inscrições foram feitas. Houve sorteios de bonecos, roupas e bonés com os personagens estampados, que foram cedidos pelos lojistas do shopping. Os sócios ganhavam fichas para jogarem na área de fliperama. Talvez o único ponto negativo tenha sido quando uma legião de trombadinhas descobriu o lance do fliperama na faixa e invadiu o box onde acontecia o encontro.
Eu realmente não sei quanto tempo se passou até que tudo começasse a causar cansaço. Já não havia dinheiro para as obrigações do clube: eu gastava tudo com bonecos. Meus pais não conseguiam encontrar mais tempo e pararam de me ajudar quando eu deixei de arcar com as responsabilidades, temendo que boa parte da minha infância passasse se eu continuasse com aquilo. Minha primeira nota vermelha, o início da cobrança de uma mensalidade e a falta de retorno dos sócios enterraram de uma vez o Fã-Clube Cavaleiros do Zodíaco, FCCZ na sigla. Meu pai escreveu uma carta lindíssima anunciando o fim das atividades do fã-clube aos associados mais participantes e às novas cartas que chegassem dali em diante. E elas continuaram a chegar, por anos e mais anos depois.
Hoje, revirando a caixa com as cartas que valeram mais à pena ser guardadas, os originais do jornal e dos pôsteres, eu percebo que verdadeiros heróis mesmo (o slogan do clube era 'Onde o herói é você'), sem ter que lutar contra o cavaleiro de ouro mais poderoso, ou o novo deus maligno reencarnado, foram meus pais, que ousaram comprar a briga de um garoto de 11 anos, na difícil tarefa que é ser fanático.
21/10/2003
 
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Comentário dos leitores:

Por que você não continua fazendo as carteirinhas
Bruno

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