Rogério Skylab
Por: Jairo de Souza, Pablo Lima
 
 
Pense em um nome da cena underground carioca. Certamente um dos primeiros nomes que virá à sua cabeça será o nome de Rogério Skylab. Se não for, saiba que você está totalmente desinformado.
Incompreendido, estranho, doentio, engraçado, o certo é que Rogério já se prepara para a gravação de Skylab IV e possui um público fiel ansioso por novas músicas.
Se você ainda não conhece Rogério Skylab, não perca a chance e confira o bate-papo que o PoppyCorn teve com o músico.
 
PoppyCorn --> Ainda resta alguma influência punk da época do Setembro Negro no seu trabalho?
Skylab: : Claro. O movimento PUNK sempre foi uma grande referência para mim. E isso porque somos filhos do tempo. Se eu viesse numa geração posterior, provavelmente o Hip-Hop é que seria o meu grande referencial.Cada artista/banda traz dentro de si as suas marcas, por mais que eles possam se expandir, mudar, receber novas influências... cada um deles é filho de seu tempo e isso é irremediável.
 
--> O seu público é bastante específico, mas várias de suas suas canções são bastante conhecidas.
Skylab: : Em verdade, o meu público não é tão específico assim e nem quero que ele seja. Outro dia eu fui abordado na rua por uma guarda municipal. Pensei que ia ser preso (eu tenho sempre essa paranóia). Não. Foi apenas pra ele elogiar o meu trabalho e pedir pra que eu cantasse um trechinho de MATADOR DE PASSARINHO. Logo eu que estudei FREUD, LACAN, NIETZSCHE, DELEUZE, ali, em frente ao RIO SUL, cantando à capela MATADOR DE PASSARINHO para um guarda municipal. Ele ficou extasiado e eu também.
 
--> Você já tocou alguma vez para um público que não fosse o seu?
Skylab: : Já. Contei isso no Programa do Jô. Foi numa churrascaria do Leblon – “BÚFALO GRILL” que já não existe mais. Estava em início de carreira e queria mostrar meu trabalho pra todo mundo. O dono do pedaço não conhecia o meu trabalho e sugeriu que eu cantasse a nível de experiência após um show do GARGANTA PROFUNDA. E assim foi. A burguesia do Leblon estava lá e o show do GARGANTA era técnico, recheado de velhas canções da MPB, um show de bem cantar. Tudo que eu não sou. E não deu outra. Enquanto eles comiam o manja dos deuses, eu cantava: “Com um alicate eu retorcia os seus mamilos tão delicados...”. Recebi um bife na cara.
 
--> Você já teve algum problema com a "vítima" do "esfaqueamento" em "Matadouro das Almas"?
Skylab: : Não. Todas gostam de ser esfaqueadas. Ultimamente tem havido até briga: quando eu canto “MATADOURO DAS ALMAS”, elas vêm pra primeira fila e suplicam o esfaqueamento. Claro que a escolha se dá ao acaso. Mas os homens estão fora dessa parada. Tem que ser mulher e bonitinha. A faca inclusive, uma pura tramontina, já foi roubada. Passa a ser fetiche.
 
--> Você ainda se indispõe com aqueles que não consideram o lado lírico do seu trabalho?
Skylab: : Não, eu não me indisponho com ninguém. Já teve show que eu fiz num “buraco” do Rio de Janeiro, que neguinho ficou me zoando o tempo todo: me xingando, me chamando de CAOLHA,,, enquanto isso o show rolava como se nada estivesse acontecendo. Cada um recebe o meu trabalho como bem o desejar.
 
--> Como você encara a parcela de seu público que o acompanha somente pela faceta "engraçada" de suas músicas?
Skylab: : É o seguinte: a partir do momento que eu solto o meu trabalho, eu não tenho mais controle sobre ele. Lembra do MAMONAS: em momento algums no início de sua carreira, houve a intenção de atingir o público infantil. A coisa aconteceu sem o controle deles e aí, eles que não são bobo nem nada, seguiram a trilha. Portanto, cada um entende o trabalho como bem o desejar, ninguém pode ter a pretensão de controlar a recepção dos ouvintes. Quem quiser me achar “engraçadinho”...
 
--> Você já teve algum problema com a sua música? Alguma dificuldade em fazer shows, por exemplo?
Skylab: : Ainda não. Receio que o meu próximo cd – “Skylab: IV” venha me causar alguns transtornos. Cheguei inclusive a pensar muito seriamente em cortar algumas faixas. Passei noites sem dormir pensando: corto ou não corto. Se você pensar bem, já o “Skylab: III” eu tive motivos de sobra pra me preocupar. Até agora não me deu problema nenhum, graças a Deus. Mas eu não posso recuar numa hora dessas, saca? A essência do Skylab: é essa. Cortar faixas por receio de alguma coisa, seria como cortar um braço meu. Eu tenho que ir ao inferno se for preciso... mas eu não posso cortar a minha essência.
 
--> Qual a importância do projeto Tributo ao Inédito para a cena musical carioca, e para a sua carreira?
Skylab: : Pra cena do Rio de Janeiro, o Tributo é muito importante porque infelizmente aqui as bandas são muito desunidas. Se você pensar no cenário de algumas cidades como Recife, Brasília, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Espírito Santo... você vai entender porque eu digo isso, Nessas cidades as bandas são corporativistas. Aqui não. Aqui elas competem tanto entre si, que a conseqüência acaba sendo negativa pra todos nós: por exemplo, vai ter um festival agora em CURITIBA e nenhuma banda carioca foi convidada. Isso é triste.
 
--> Qual a maior conquista da sua carreira até o momento? Até onde você pretende chegar?
Skylab: : Sinceramente, a maior conquista da minha carreira até o momento é continuar fazendo o meu trabalho. Você não imagina quantos ficaram no meio do caminho... quantos abandonaram o barco... quantas bandas legais... ETIÓPIA, por exemplo, era uma banda da década de 80, CONGO também, DOGS IN ORBIT, PICASSOS FALSOS, ÁGUA BRAVA, GANGRENA GASOSA, SUTIÃ XIITA... E quando você me pergunta até onde eu pretendo chegar, sinceramente, eu não me vejo estourando em rádio, tv... claro que se isso acontecesse seria super legal, mas eu me vejo mesmo seguindo pacientemente o meu roteiro: lançando no próximo ano o Skylab: V, depois o Skylab: VI, depois o VII, regravando também o meu primeiro disco “FORA DA GREI” e quem sabe, gravando um disco junto, pra fechar a tampa, com o ZUMBI DO MATO. Esse é o meu roteiro, caso não haja nenhum acidente de percurso. Todo o meu trabalho foi forjado fora do circuito oficial, acho que vai continuar assim: é uma questão de identidade. O máximo que eu pretendo chegar, e acho que isso é perfeitamente exeqüível, é ter uma obra construída.
 
--> Você se considera um artista cult?
Skylab: : Artista cult? Não sei o que é isso.
 
--> Uma vez o Du Peixe, vocalista da Nação Zumbi, disse que, mesmo se existisse jabá, a Nação Zumbi não faria sucesso pois, na opinião dele, eles não fazem o tipo de música que o povo gostaria de ouvir. Você acha que ainda não faz o devido sucesso porque não tem espaço ou porque não faz a música que o povão gostaria de ouvir?
Skylab: : Discordo do Du Peixe. Juntamente com o Chico Science eles construíram um trabalho de sucesso. Quando a gente fala em sucesso, a gente tem que relativisar o termo: o sucesso do Caetano é diferente da Ivete Sangalo, que por sua vez é diferente do Jorge Mautner, que por sua vez é diferente do Tim Maia que por sua vez é diferente do Bezerra da Silva que por sua vez é diferente do Marcelo D2 e por aí vai. Sucesso não está necessariamente ligado a povão. Será que eu não faço sucesso dentro de uma cena underground carioca?
 
--> Musicalmente, o Rio foi famoso pelo seu samba e depois pela bossa nova. Hoje é mais conhecido pelo funk da favela. O que você acha disso?
Skylab: : Samba. Bossa-nova, Funk... eu gosto de tudo isso e a minha música é bêbada de tudo isso.
 
--> Como você vê o cenário musical do Rio hoje? Novas bandas, espaço, público, etc
Skylab: : O cenário carioca é pululante, talvez um dos mais fortes no país. Falta é um festival realmente representativo, do mesmo porte de um Abril Pro Rock, que possa dar voz a todas essas vozes. Os festivais que ora acontecem são muito segmentados e o festival que eu penso é mais amplo, com patrocínio de prefeitura e grandes empresas. Tenho encontrado também pelo caminho, produtores que ganham dinheiro com festivais e pagam miséria, quando pagam, para as bandas. Isso é triste também. Claro que para uma banda que esteja começando, tudo é lucro. Não é o meu caso e esse é o motivo pelo qual tenho feito tão poucos shows.
 
--> O que você faria se encontrasse a voz que anuncia as estações de metrô no Rio?
Skylab: : Eu nunca vou encontrar pessoalmente a voz do METRÔ porque a essência dessa voz é a invisibilidade. Na “MICOFÍSICA DO PODER”, Michel Foucault relata a estrutura arquitetônica de uma penitenciária: existe a torre de onde os presos podem ser observados embaixo, justamente para dar ao preso a sensação de que está sendo observado. Esse olho invisível faz parte da modernidade.
 
--> Qual o último disco que você escutou e gostou? E qual você não gostou?
Skylab: : Último disco que ouvi e gostei: The Hives. Último disco que ouvi e não gostei: MORENO+2 (Moreno Veloso, Domenico e Kassim) e PAPO MACACO (David Moraes).
 
--> Show Inesquecível?
Skylab: : NIRVANA na Apoteose e SONIC YOUTH no Lolapalosa.
 
--> Pop é sinônimo de quê?
Skylab: : POP é sinônimo de música pop que é antônimo de pop art e rock and roll.
 
--> Rock é sinônimo de quê?
Skylab: : ROCK é tudo, tudo é rock e nem há condição de não ser (assim falava Caetano em Doces Bárbaros).
 
--> Diga 5 discos que não saem do seu aparelho de som.
Skylab: : Smashing Pumpkins (Mellon Collie and The Infinite Sadness); Cake (Fashion Nugget); Radiohead (Kid A); Daminhão Experiença (Bomba Atômica); Pixies (Surfer Rosa).
 
--> Qual a grande promessa do momento? E qual a grande decepção?
Skylab: : A grande promessa do momento: THE STROKES (aguardo ansiosamente o segundo disco) e GABRIEL MUZAK (produziu um disco maravilhoso e estará presente em várias faixas do Skylab: IV). A grande decepção: LOS HERMANOS (BLOCO DO EU SOZINHO) apesar de ser insensado por uma criticazinha nacional, pra quem ouviu o anterior, o BLOCO é sentimentalóide e sem força.
21/10/2003
 
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