Supertrunfo (antigo Maybees, atual Ludov)
Por: Jairo de Souza
 
 
Mais uma banda de qualidade surge no cenário brasileiro e já vem com promessa de sucesso. Se trata do Ludov, criado das cinzas do Supertrunfo e do elogiado Maybees.
Em uma das últimas entrevistas que a banda concedeu usando o nome de Supertrunfo, o guitarrita Mauro Motoki fala sobre a decisão de acabar com o Maybees, o estrelato que não veio, as dificuldades, e muito mais.
 
PoppyCorn --> Para começar, por que o Maybees acabou?
Mauro Motoki: Não houve um evento isolado que culminou com o fim do Maybees, mas podemos dizer que a filosofia de vida e a proposta artística que envolviam a banda se esgotaram, de certa forma. E também quisemos acabar com a banda antes que ela acabasse conosco, como músicos. Quisemos tirar um peso, tanto musical quanto prático, de nossos ombros, para podermos seguir novas trilhas, e fazer quaisquer novas composições com um pouco mais de paz. Sei que este peso só existia para nós, dentro da banda e do selo de que fazíamos parte, Polythene Pam, mas era incômodo.
 
--> Agora nasceu o Supertrunfo. Os músicos são os mesmos que formavam o Maybees?
Motoki: Sim.
 
--> Então, nos diga o que é o Supertrunfo.
Motoki: O Supertrunfo, sinceramente, ainda é transição. Nos últimos meses de Maybees, dentro da banda havia a sensação de que não éramos mais Maybees. Era diferente de sentir, por exemplo que havíamos mudado ingredientes do nosso som, ou de que éramos Maybees cantando algumas músicas novas em português. Maybees, quase que inexplicavelmente, começou a fazer parte de nosso passado recente. Então, o Maybees não morreu. Nós o assassinamos, mesmo que já estivesse definhando. E isso possibilitou que tenhamos, hoje, passados alguns meses, muito orgulho do que alcançamos, artísticamente mesmo, com a banda. Supertrunfo foi o jeito que descobrimos para resolvermos que ainda gostávamos de tocar uns com os outros, que queríamos todos sermos companheiros musicais uns dos outros. Uma espécie de projeto em torno do qual pudemos nos unir. Em breve, com as gravações que já se iniciaram, com a apresentação pública e oficial dessa nossa nova proposta, as coisas ficarão mais sólidas.
 
--> Vocês já eram conhecidos do público alternativo na época do Maybees. Você acha que com a nova banda vocês terão que começar a carreira novamente do zero, ou poderão aproveitar um pouco desse reconhecimento do Maybees?
Motoki: Não, com certeza do zero não começaremos. No mínimo já temos alguns quilômetros rodados de vivência em conjunto, como músicos. E o Maybees é realmente uma ótima referência para se ter no currículo, não? Se pudermos aproveitar esse reconhecimento, ótimo, mas as novas músicas também terão sua voz acima disso.
 
--> Quais as principais influências dos membros da banda e de que forma essas influências estão presentes nas músicas?
Motoki: É difícil determinar isso com precisão, Jairo. Quando começamos juntos, ainda antes de sermos Maybees, foi um gosto conjunto por Beatles, 10000 Maniacs, Blur, Pulp, Belly e outras bandas que nos uniu. Mas depois de sete anos, os gostos se expandiram, se colidiram, se misturaram... Eu, Habacuque e Edu gostamos muito de jazz, e também de Tom Jobim, além de rock... Vanessa é uma entusiasta fantástica de vocais femininos de toda espécie, de Annie Lennox a Marylin Monroe. Vlad também gosta de jazz, e de rock... Todos gostamos do pop inteligente. É fácil ser ou parecer inteligente na erudição, mas no pop é preciso o talento de um Brian Wilson ou de um Arnaldo Baptista. Quando arranjamos uma música juntos, é muito mais uma questão de como cada um está se sentindo naquele momento, naquele dia, ou naquela semana do que qual influência cada um colocará, assim, de maneira precisa. Mas uma coisa admirável, por exemplo, na Vanessa, é seu dom pop, é fazer chegar fácil aos ouvidos de quem escuta muitas coisinhas que foram colocadas na melodia ou na letra de maneira não tão fácil. Ou no Edu e Vlad, a cozinha, de trazer mais pulsação do que eu sou capaz compondo sozinho no piano ou no violão, por exemplo. Ou no Habacuque, de sempre enxergar um tanto de vanguarda no que parece fácil demais.
 
--> O Supertrunfo já está fazendo shows. Como está sendo a reação do público?
Motoki: Só fizemos show em SP ainda, e está maravilhosa a reação. Nos últimos shows já tinha gente cantando uma ou outra música nova! O público está bastante encorajador, está nos fazendo sentir muito bem com as novas músicas e a nova banda.
 
--> Por que uma banda tão elogiada como foi o Maybees não chegou a possuir um contrato com uma grande gravadora? Você acha que a cena pop underground está sendo subestimada pelas gravadoras?
Motoki: Eu não tenho explicação para a primeira pergunta. Não é o underground que está sendo subestimado, é toda capacidade musical brasileira. O underground no Brasil muitas vezes é forçado, não é uma opção. É feito por causa da exclusão de bandas boas e ruins, mas principalmente das boas, do cenário musical. Não se pode continuar recorrendo a fórmulas para lançar modismos, por parte das gravadoras. Nem recorrer à reação a isso, por parte da imprensa em geral, que é querer achar salvadores da pátria a cada mês. Música não é um fenômeno tão controlável, e se as gravadoras assumirem o risco, ao invés de tentar anulá-lo de maneira simplória, burra mesmo, as coisas talvez comecem a melhorar.
 
--> Por que vocês começaram a fazer música? Pelo glamour, pelo reconhecimento, ou foi sem querer mesmo?
Motoki: Não sei os outros, mas lá atrás, quando primeiro sentei num banquinho de órgão, foi por imposição paterna e materna. Mais tarde, quando resolvi aprender a tocar guitarra, deve ter sido pra tentar conseguir umas meninas - o que só viria a acontecer anos mais tarde. Hahaha. Mas como grupo foi por pura diversão mesmo. O reconhecimento que veio depois serviu como encorajamento, mas nunca foi um objetivo.
 
--> Por que você acha que existem tão poucas bandas brasileiras de sucesso com vocais femininos?
Motoki: Não sei. Atualmente não conheço muito as bandas de sucesso em geral, não sei quem faz sucesso ou o que é sucesso, se é vendagem ou reconhecimento da crítica ou alguma outra coisa, mas na história da música pop brasileira até que temos bastantes mulheres, ou estou enganado? Enfim, não sei.
 
--> O que você acha dessa nova onda de bandas que fazem um som retrô como Strokes, White Stripes, etc?
Motoki: Eu gosto muito de strokes, fui a um show deles num lugar minúsculo em Seattle no ano passado e foi um dos melhores que eu já vi. Não gosto de White Stripes, não vejo nada demais, e vejo de menos, talvez seja o baixo, que faz falta. Hahaha
 
--> Como você analisa o atual cenário musical para os conjuntos brasileiros de rock?
Motoki: Está difícil para quem quer seguir o caminho ideal, como nós, de compor o que está sentindo, querer gravar com uma qualidade legal, e mostrar para o público coisas novas e diferentes. Por outro lado, tem muita gente, mas muita mesmo, procurando alternativas para isso, e muita gente boa interessada em seguir o caminho ideal e não se deixar vencer por esquemas viciados. Então tudo o que podemos fazer é torcer para que juntos consigamos ir abrindo brechas e melhorando o cenário.
 
--> Quais as dificuldades para uma banda independente?
Motoki: Muitas. Distribuição, lugar legal com um som legal pra tocar, viajar fora do eixo Rio-SP ou das capitais.
 
--> Estrelato. Esse é o ponto?
Motoki: Não. Isso não existe. Para mim, estrelato é um termo extremamente pejorativo. É virar fresco, exigir e se focar em coisas fúteis e bestas como toalhinhas brancas. Agora, tornar sua música disponível da maneira mais abrangente possível para quem possa se interessar e gostar é muito bacana.
 
--> O Maybees pode voltar algum dia ou agora é só passado?
Motoki: Pelo que acreditamos, e pelo que está ao nosso alcance, é passado.
 
--> O que é pop?
Motoki: É o contrário de erudito, é se expressar sem se levar a sério demais.
 
--> Qual o último disco que você escutou e gostou? E qual você não gostou?
Motoki: Gostei do Moby, o antigo mesmo, Play. Não conhecia, Habacuque me mostrou e gostei. Não gostei do novo do Capital Inicial, mas esse eu nem ouvi.
 
--> Show inesquecível?
Motoki: Nirvana, no Hollywood Rock, porque deixou uma impressão interessante na parte adolescente do meu cérebro. Strokes, em um antro de pulgas em Seattle. E David Bowie, acho que num festival da Close-up, porque não conhecia direito e resolvi conhecer melhor, o que rendeu ótimos frutos para mim.
 
--> Rock é sinônimo de quê?
Motoki: Energia.
 
--> Diga 5 discos que não saem do seu aparelho de som.
Motoki: Algum dos Beatles, sempre tem algum dos Beatles. Strokes, uns mp3 ao vivo que gravei num CDR. Tom Jobim - Wave. Bjork - Homogenic. E ultimamente, Nina Persson - A Camp.
 
--> Qual a grande promessa do momento? E qual a grande decepção?
Motoki: Promessa eu não sei. Decepção são essas bandas todas proclamadas como novos Strokes. Hives, Vines, Hypes, Hippies, Yeah Yeahs. Coitadas, acho um saco esse negócio de nova onda, do que é legal agora, e o que vai ser legal amanhã. Legal tem que ser legal e pronto.
 
OBS: Atualmente os membros da banda decidiram que o conjunto deveria trocar de nome. Hoje eles atendem pelo nome de Ludov.
21/10/2003
 
Voltar

Comentário dos leitores:

Nenhum comentário foi feito, seja o primeiro a comentar.

>> Clique aqui para enviar seu comentário!



    ATUALIZAÇÕES
17/06 Van Damme, a redenção [JCVD]
17/06 Katie Melua [Katie Melua - The Katie Melua Collection]
28/05 Canto de casa para todos os pretos [Lívia Lucas - Canto de Casa]
28/05 Da Lama ao Caos. [Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos]
17/04 Meio que tardio [Guns and Roses – Chinese Democracy]
DO MESMO AUTOR
   LEIA TAMBÉM
28/07/2007 Filme do projeto escocês de Lars Von Trier surpreende com diretora novata [Marcas da Vida]
14/04/2005 Estimar para quê? [Como mimar seu cão (Rodrigo Capella)]
29/02/2004 Mestres e Comandantes [Mestre dos Mares]
20/08/2004 Os favoritos já começam a aparecer [32º Festival de Gramado (4º Dia)]
29/06/2004 Tribal Rock... com poesia gótica??? [Ragnarok - Lullaby]