|
Esta não é uma resenha de todos os shows da segunda noite (31 de outubro) do Tim Festival, que aconteceu em uma tenda gigante no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Enquanto a primeira banda, o Whilrwind Heat (indicação, quase exigência dos astros - e donos - da noite, o White Stripes) tocava, eu ainda estava do lado de fora, no Aterro do Flamengo, frente a praia, entregando panfletos da revista Mosh! junto de dois membros da não tão recém-lançada publicação, Vinícius Mitchell e Fábio Monstro. O contato com Fábio em certo momento das apresentações valeria a frase que marca os shows.
Resumindo, se o que você queria mesmo era conferir a seminal e inesquecível performance do Whilrwind Heat no Tim Stage (alguém?), não continue a ler.
 As leis podem ter mudado, impedindo o patrocínio de eventos culturais por marcas de cigarro, mas a vocação de trazer à tona atrações quase esquecidas foi o que sobrou de herança do Free Jaz para o Tim Festival. Segunda atração, os paulistas do Fellini subiram ao palco para confirmar tal vocação, cercados de expectativa (essa era definitivamente a noite da expectativa) desde o sumiço na década passada. Será que os 'tios' ainda davam conta do recado?
Foi uma grata surpresa e parte dessa expectativa foi atendida pelos aplausos da ainda pequena platéia que comparecia àquele início de maratona musical. Visionários, nunca um som dos anos 80 foi tão indicado para salvar as FM's da mesmice em que vivem. Indie na medida certa para as rádios pop-roqueiras. Ainda assim o Fellini não conseguiu preparar terreno para o tamanho das surpresas que estariam por vir.
Pouco tempo depois o Super Furry Animals entrava em cena com muita distorção e um barulho e peso ensurdecedores, um choque para os que comentavam da platéia sobre a calma que o grupo emanava do último disco, Phantom Power.
Pitadas generosas de música eletrônica e o vocalista Gruff Rhys que apareceu de repente frente ao palco e de seu pianinho eletrônico, usando um capacete gigante de um daqueles personagens de seriados super-sentai japoneses, como Changeman, Flashman e Power Rangers (este último metzo-americano). Nada mais techno, retrô, década de 80 e trash: os indies estavam em polvorosa, indo à loucura, com uma coceira fenomenal no cérebro. Mas se o que o povo gosta mesmo é de 'roque', o SFA não deixava ninguém insatisfeito, mesmo. 
Sobrou tempo até de entrar na moda e virar ativista. Comoção geral quando as fotos do presidente americano e do primeiro ministro inglês iam aparecendo alternadas entre a frase, 'todos os governos são mentirosos e assassinos'. E não era o fim.
Quando todos já davam por encerrada a apresentação do grupo, depois que seus integrantes deixaram o palco e apenas um computador ficou ligado tocando timbres eletrônicos, eis que para o delírio coletivo o Super Furry Animals retorna com todos vestindo as mesmas roupas de pé-grande, 'cães neandertais galeses' ou seja lá do que for, em que aparecem no videoclipe da música Golden Retriever. Os peludões decretaram o fim do show com o som mais pauleira que o festival já deve ter presenciado em seus três dias.
Eis a máxima de Fábio: 'o SFA é uma daquelas bandas de que você pode até não gostar, mas de que você irá se lembrar pela vida inteira'. Não devo ter sido fiel com as palavras que ele usou, mas o sentido da declaração foi exatamente esse.
A rápida passagem de uma banda para outra fazia com que o público não mantivesse a atenção muito longe. Mesmo assim se havia atraso, bem pequeno, era um divertimento a parte ficar admirando os famosos que perambulavam pela tenda. John do Pato Fú estava atrás de Vinícius na fila do bar. Rafael Losso, o todo-estranho vj da MTV, se locomovia meio trôpego com um copo de cerveja na mão. Até o baterista daquela banda que quase não existe mais estava lá. Como é o nome da banda mesmo? Há, Raimundos. Também dizem que Daniela Mercury conferia os shows e que um dos frontman da próxima banda a tocar estava à paisana bem próximo.
A expectativa era maior ainda para com o Rapture, vindos da fértil cena recente nova-iorquina, responsáveis por uma mistura entre rock e efeitos eletrônicos das mais questionadas. O papa Lúcio Ribeiro chegou a classificar o álbum de estréia do grupo, 'Echoes', como 'inconstante'.
'Agora é a hora da verdade', era o que se ouvia vindo do público. Foi a primeira vez na noite em que a aglomeração perto do palco cresceu e os primeiros empurra-empurra começaram. Bem pudera, já estava bem próximo o momento de ver Jack e Meg em carne e osso em um palco brasileiro. Quem apostou nos fãs de White Stripes contra a curiosidade em cima do Rapture acabou perdendo dinheiro.
Quando Gabriel começou a dançar com o saxofone em mãos e os primeiros acordes de teclado começaram a soar, a coisa ficou perigosa. Depois que o também guitarrista Luke começou a soltar sua voz incrível, aliado à uma batida funkeada contagiante e guitarras espertíssimas, o Rapture conquistou, melhor, hipnotizou a torcida e dali em diante já entrou no tapetão com o jogo ganho.
Imagine o vocalista do Vines cantando afinado, naqueles tons dos mais altos que só Mariah Carey consegue alcançar e você tem a voz de Luke, com uns trejeitos segurando a guitarra que, por Deus do céu, faziam-me acreditar que por volta de uma hora Kurt Cobain estava de novo entre nós.
Nem 'Fell In Love With A Girl', muito menos 'Seven Nation Army', a cada momento do show do Rapture ficava mais claro mesmo que o hit do festival era indiscutivelmente 'House Of Jealous Lovers'. Quando Luke abriu a boca pra cantar, 'house of...', com o riff inconfundível de guitarra acompanhando, o Tim Stage veio abaixo, um dia antes das apresentações de Peaches e Tati Quebra-Barraco, por mais incrível que isso possa aparecer.
 Com músicas de introduções parecidas, o que fez muita gente acreditar que o início de 'House' foi tocado por diversas vezes, mas com desdobramentos imprevisíveis, e com uma presença de palco que nada reflete a mórbida capa de 'Echoes', muito pelo contrário, o show do Rapture entra para a história do Tim Festival como um clássico. Inconstante? Show mais redondo do que este é impossível. O que viesse agora era lucro, e assim foi com o White Stripes.
Eram dezenas de pessoas com o nome do último álbum da dupla de Detroit, 'Elephant', estampado na camiseta. O teto da tenda era branco, e o chão, carpetado, vermelho. As duas cores viviam juntas em harmonia pelo Tim Stage: no uniforme dos funcionários do evento, nas meias bem longas de uma fã e alguém ainda duvida de que aquele logotipo do festival não foi feito sob medida para a sua maior atração?
O número de pessoas se acotovelando cresceu em frente ao palco depois do Rapture. Pessoas vinham do fundo, se espremendo para conseguir um lugar cada vez mais perto de Jack e sua irmã, Meg. Nos intervalos as pessoas costumavam sentar no chão, aguardando a próxima atração. Antes do White Stripes foram poucos os que ousaram não ficar de pé, atentas à qualquer branquelo(a) que entrasse vestido de vermelho e branco no palco.
 Entraram primeiro outros branquelos, os holdies da banda, vestidos à caráter: de terno, chapéu e sapato preto, com uma gravata vermelha destoando. Atraso, novo clima de expectativa criado. Entrou por último, depois de toda aparelhagem sonora, um pequeno ventilador estrategicamente posicionado atrás da bateria. A garota que bate com mãos de fada as baquetas nos bumbos, provocando o mesmo som de uma colisão de meteoro, entrou logo em seguida ao lado de seu irmão.
Jack se parece em muito fisicamente com Michael Jackson, por causa da cor branca como neve da pele e dos cabelos escorridos na frente do rosto. Mas quando resolve debulhar uma guitarra, há amigo, é como se Jimi Hendrix tivesse baixado no corpo daquele branco magrelo. Que dedo quebrado que nada! Jack White é tão bom guitarrista que só mesmo ele deve ter notado alguma imperfeição no que por ventura tocou de errado. Pra galera era um show à parte ficar admirando o cara se contorcendo todo, com uma cara de dor desgraçada em solos fenomenais.
O ventilador atrás da bateria de Meg tinha todo um propósito. Não é o Rio de Janeiro que é quente demais para a banda, o aparelho na verdade fazia parte da encenação da toda performática Meg White. O show inteiro ela não parava de curvar o corpo, fazendo cena, cheia dos olhares para Jack. E balançava os ombros pra cima e pra baixo ligeiramente enquanto tentava, só tentava, se concentrar mais em tocar bateria do que em atuar. E voltava a curvar o corpo, às vezes levava os braço pro alto, baquetas nas mãos, e voltava a olhar toda torta pra Jack, balançava os ombrinhos...
Abriram com 'Black Math', porrada do último álbum, e depois tocaram 'Dead Lives And The Dirty Ground', uma das músicas que marca a dupla, do disco anterior, 'White Blood Cells'. Viriam ainda o single 'I Just Don't Know What Do With Myself', 'Hotel Yorba', 'Ball And Biscuit', 'In The Cold, Cold Night' e a surpresa, 'Fell In Love With A Girl', hit que lançou a banda, tocada em ritmo bem mais lento que o tradicional. Entre uma música e outra enfurecia a pertinência de Jack em ajustar os instrumentos em busca da perfeição. Fecharam no bis com 'Seven Nation Army', pra gozo geral (finalmente!) em uma noite repleta de prazeres dos mais diversos e estranhos: 'tios', 'peludões', 'encarnados', 'pseudo-atrizes'... 05/11/2003
|