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À Luciana, que viu o conto na mesa do bar.
Era uma noite de sábado e de vez em quando caía uma chuvinha fina. Finíssima. Do tipo de nem chega a molhar, e que parece só servir para lembrar que a chuva é um fenômeno sempre possível no Recife, onde a umidade afoga o ar que se respira com um peso à primeira vista intolerável.
Havíamos chegado, meu amigo e eu, há mais ou menos uma hora. Já era a terceira cerveja que papeávamos, e estávamos na Rua da Moeda, à busca de alguma coisa minimamente interessante que justificasse a noite, ou rendesse uma boa conversa descarada na mesa do bar.
 Levantei da mesa e dei quatro passos até o pobre balcão acinzentado do boteco em que tínhamos entrado como prevenção à promissora chuva. Um lugar para o qual se poderia usar o adjetivo precário. As paredes cobertas de azulejos envelhecidos (porém não velhos) e o chão de cimento eram, pra dizer a verdade, o único charme do lugar. Não. Estou errado. O charme mesmo eram as três portas altíssimas (seis, que se abriam em par) que davam para a Rua, cheia de gente e com cheiro de tudo que é ilícito ou insalubre. Fascinante.
Mal cheguei ao balcão e pedi a quarta cerveja, tirei do bolso um cigarro, e ia acendê-lo quando, no indefectível movimento de olhar lateralmente para posicionar o cigarro e o isqueiro, percebi o perfil dela. Vi seu cabelo escuro e levemente ondulado. Já ia tragar e arrastar a garrafa para a mesa quando, meio que por acidente, esbarrei com o olhar dela.
Nem me pergunte qual a cor dos olhos, eu não sei. Deviam ser desse tom de nada ou simplesmente castanhos. Não reparei; ou não consigo lembrar, talvez porque nunca me esqueci daquele olhar. Só depois notei que ela estava acompanhada, de marido ou namorado, e que estavam de mãos dadas e às vezes se abraçavam. Que me importava? Passei a noite olhando para ela. Foram outras quatro cervejas bebidas aos seus olhos, à sua boca, ao osso exposto em seu decote, coberto por uma pele irresistível, que eu queria beijar, lamber, cheirar, arranhar e, confesso com certa vergonha, comer.
No entanto, se fosse só isso, eu não estaria aqui contando o episódio. Desses desejos instantâneos e facilmente explicáveis estamos todos cheios. A atração pelo cheiro, pelo gosto, a celebração epifânica do que ainda nos resta de natural, de animal. Olha-se, atrai-se, caça-se e celebra-se o êxito antes de se dormir para acordar e esperar tudo de novo. É simples assim.
Mas daquela vez, embora a atração fosse a mesma, idênticos os rituais do sacrifício, singular foi o resultado. Eu a cobicei, essa é a palavra. Sem dó nem piedade, e nem inveja, do pobre imbecil que a tinha em seus braços. Eu a tive louca, atirada, apaixonada, sedutora e seduzida, por quase quarenta minutos. Porque seu olhar encontrou o meu, e da primeira vez já deixou claro que se entregava ao jogo. Posso jurar que conheço, nas armadilhas de minha lembrança, cada pintinha de suas costas e cada cílio. Nos olhares que ela me deu estavam todos esses detalhes de delícia, todos esses segredos imaginados invioláveis.
 Nem lhe rocei a pele, e ela acabou indo embora com o carinha.
Meu amigo e eu ainda demos voltas pelos bares daquelas ruas, mas já sem esperanças, porque eu sabia bem que ela já havia abandonado o Reino da Noite.
Na sexta-feira seguinte, lá estava eu. Sozinho, fui buscá-la, e a procurei em todos os bares daquela Rua, mas nada. Dela, nem a sombra, nem o pó. Por isso voltei lá no outro dia, acompanhado pela quase certeza que a encontraria no mesmo sábado, no mesmo lugar, porque lá ela voltaria ao meu olhar. Dela também ninguém soube nem viu.
E foi assim que passei a freqüentar, todas as noites de todos os sábados, esse mesmo bar envenenado, onde agora já tenho mesa própria e onde os meus amigos sabem que sempre podem me ver quando querem minha companhia, porque sei — com a mesma inabalável certeza que sei do gosto de consolo desta cerveja — que ela um belo dia vai entrar por esses pares de portas. Acompanhada ou não, ela há de me dar a mão mais uma vez, ao menos para que dela eu saiba o nome.
E eu só me dei conta do meu vício louco de buscá-la em vão quando Orson Welles me explicou em filme o que é o amor, e o quanto se dá e se guarda num olhar que a memória fotográfica da ilusão nos presenteia. 04/01/2004
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