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Neste novo ano, volto a escrever sobre Vinícius, propiciado por questões do ano findo que agora aparece surrealmente perdido num espaço-tempo longínquo. Mas volto a falar de Vinícius como algo assim: atemporal.
Já havia dedicado um artigo aos 23 anos da morte do poeta de Moraes e agora volto para lembrar os 90 anos de seu nascimento, completados em outubro de 2003 – lembrança justificada pelo álbum que, como uma grata surpresa de Natal, chegou às minhas mãos na virada do ano.
Vinícius 90 anos é composto por dois discos, conta com a produção de Gilda Mattoso – última mulher do poeta, com interpretações respeitáveis de belos nomes da MPB além de depoimentos e de Vinícius recitando poesia, no melhor estilo Vinícius-de-ser. Se o aniversário é de Vinícius, o presente é para os fãs.
A sensibilidade da produção revela as sutilezas do poeta. Além das canções já tradicionais, que integrariam qualquer coletânea, Gilda procurou selecionar gravações que trazem identificações diretas e imediatas com o estilo próprio de Vinícius. Nas canções interpretadas por ele e Toquinho, Gilda procurou as melhores versões (boa parte delas do álbum O Poeta e o Violão) que pudessem contribuir para a concretização de um trabalho incrivelmente homogêneo e rico; múltiplo como Vinícius. As interpretações (realizadas por Maria Bethânia, Alaíde Costa, Maysa, Agostinho dos Santos, Geraldo Vandré e Ana Lúcia), conservam por todo tempo a ligação umbilical entre Vinícius e o samba, entre Vinícius e a noite, entre Vinícius e sua vida. Uma surpresa muita bem vinda e esperada. Eu, que sempre tive restrições contra as regravações de Vinícius, fui prazerosamente desmentido, emudecido. Geralmente, o que se encontra em suas regravações é um total divórcio entre sua poesia e a interpretação realizada. Quando muito, Vinícius faz background nas músicas, fazendo com que as regravações não lembrem, sequer de longe, o poeta, jogando seu espólio numa total banalidade, o que faz grande injustiça. Neste álbum, ocorre o contrário: os artistas “convidados”, embora imprimam um estilo próprio (e não poderia assim deixar de ser) mesclam suas interpretações sem violentar a sutil e sensível poesia de Vinícius. Desta forma, Gilda conseguiu não criar sobressaltos no álbum, mantendo uma linha homogênea, mesmo contando com vários artistas.
O álbum traz ainda depoimentos de Chico Buarque, Calazans Netto, Tom Jobim e uma indizível análise estética de Vinícius por Drummond. Além disso, o poeta recita “O Haver”, tendo Edu Lobo ao fundo, em solo de voz e violão – faixa que destaco; conversa com Toquinho nas faixas e expõe-se, sempre muito à vontade.
Sinto falta apenas de Baden e Carlinhos Lyra, representados apenas por faixas que consagram uns de seus grandes sucessos em parceria com o poetinha, como Samba da Benção, sensivelmente colocado após a faixa em que Calazans dá seu depoimento e Marcha de Quarta-feira de Cinzas, ambas interpretadas com parceria de Toquinho, que ainda guarda uma faixa instrumental para o final do segundo CD – Tristeza.
Poderia acrescentar mais comentários à cada faixa individualmente, mas quaisquer palavras aqui se fazem desnecessárias. Deixo-as para o poeta, para seus amigos, para Gilda, que nos presenteia com um álbum para se ouvir baixinho, para se sentir saudades sem ter conhecido, sem ser contemporâneo. Enfim, Vinícius é atemporal, viverá para sempre. Está dada a resposta à pergunta de Drummond, pelos novos e velhos tempos. Nosso agradecimento à Gilda Mattoso. 17/01/2004
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