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Toda vez que vou falar sobre algum assunto que faz referência aos anos oitenta, adoto o seguinte clichê pessoal e defensivo: que apesar das fivelas, relógios coloridos e roupas florescentes, esses anos tiveram coisas legais como The Smiths. Já está ficando feio, porque estamos no século XXI e existe muito marmanjo por aí que não ouviu falar de The Smiths. Não vou ser didática, mesmo porque estou longe de ser uma especialista em rock’n’roll ou qualquer tipo de música. Mas como admiradora de um monte de coisas e como gosto de contar histórias, vou narrar uma para vocês e transformar um clichê em um juízo de fato.
Lado A
Faixa 1: Dois garotos de Manchester
Tudo começou numa época em que Compact Disc era coisa de Blade Runner, que existiam lado B e lado A e que gravar singles era uma coisa muito legal tanto para quem ouvia quanto para quem fazia música. Devia chover na chuvosa cidade de Manchester (Inglaterra, mesma dos Sex Pistols), quando Steven Patrick Morrisey, um poeta qualquer e presidente do fã clube local dos New York Dolls, conheceu Johnny Marr.
Não foi por acaso, um tal de Steve Pomfret, que queria montar uma banda, iluminado por forças ocultas ou por assimilação de talentos, levou Marr até a casa de Morrisey. Diz a lenda que os dois se entenderam de forma espantosa e que, diante de tanto cacife, Pomfret recuou. E Morrissey e Marr, modestos, acharam melhor compor músicas para oferecer a outros artistas. Mas tantas foram as idéias que eles logo desistiram disso por perceber que o material era bom demais para ser tocado por outros.
Surge assim, como aquela velha canção, quase sem querer, o desejo de montar uma nova banda. O passo seguinte era dar o nome para o grupo. Morrisey escreveu em um pedaço de papel alguns nomes como Smiths, Smithdom e Smiths Family e Marr definiu The Smiths. O nome é como uma espécie de sobrenome Silva no Brasil, o que fazia com que fosse perfeito para a proposta do grupo, que era fazer canções comuns, falando de pessoas comuns. Há quem diga que o nome foi escolhido por Morrissey para homenagear Patty Smith, de quem era fã. Mas eu acho que o mais provável tenha sido a união das duas razões.
Faixa 2: A formação
Marr já tinha debutado em outra banda como guitarrista, o que definia sua posição, Morrissey seria o vocalista, mas faltava ainda encontrar o baterista. Quem já aventurou neste sonho sabe como é difícil essa busca e, por isso mesmo, muitos passaram pelos testes até a escolha de Mike Joyce. O então baterista não hesitou em abandonar sua antiga banda e se colocar à disposição de Morrisey e Marr depois de ouvir uma gravação demo dos Smiths, ainda apenas com a dupla. Reza a lenda que Joyce estava doidão de cogumelos quando tocou What Difference Does It Makes no teste, fazendo realmente a diferença. Mas não quero entrar nesses méritos.
Já Andy Rourke entrou na banda literalmente sem querer, ou melhor, sem que Morrissey quisesse. O então vocalista queria colocar um conhecido dele, um tal de Dale. Mas Marr fez pressão, pois já tinha tocado com Rourke em outra banda e conhecia o talento do baixista, o que fez com que Rourke fosse o último a entrar para a banda.
Lado B
Faixa 1: O Começo
 Banda formada, hora de tocar. O primeiro show aconteceu em 4 de outubro de 1982 e, no ano seguinte com uma fita demo com Hand in Glove, eles começaram a bater na porta das gravadoras britânicas. Ninguém levou os caras à sério porque a música ia contra toda a ordem musical vigente. Só mesmo, a então novata Rough Trade, que tinha iniciado seus trabalhos como uma importadora de discos, que levou fé e sem saber fez um bom negócio. No ano de 83, a banda grava dois singles e This Charming Man, o terceiro lançamento, foi um sucesso, sendo o single mais vendido da então pequena gravadora.
Mas o primeiro disco só saiu mesmo em fevereiro de 84, chamava apenas Smiths e trazia as ontológicas Reel Around The Fountain, This Charming Man, Hand In Glove e What Difference Does It Make? No entanto, ao contrário do que se esperava, o disco não vendeu bem e a banda quase se desfez. Passada a decepção, eles gravaram mais um single, agora com Heaven Knows I´m Miserable Now no lado A e Suffer Little Children no B. E porque existem mais mistérios entre a mídia e o público do que julga nossa vã filosofia, foi justamente este lado B, que fez a banda cair nas graças da opinião pública.
Faixa 2: O sucesso
Animadinhos com os elogios, os meninos resolveram sair em uma mini-turnê européia e gravaram mais um single, com William It Was Really Nothing e a clássica How Soon is Now no lado B. Agora sim o grupo passa a ser considerado uma das sensações inglesas e também um dos mais promissores do novo cenário musical. Inclusive cometem a proeza de bancar mais um disco em menos de um ano. Ainda em 84 lançam a compilação Hatful of Hallow com as gravações que a banda fez para a BBC.
As letras de Morrisey começaram a causar furor até nos ingleses mais certinhos. E claro que com o sucesso, veio também a polêmica. Chegaram a dizer que eles incentivavam o abuso de crianças e assassinatos, e a bizarrice logo se transformou em cifras. No ano seguinte, 85, lançaram Meat Is Murder, cuja música título se transformou em uma ode ao vegetarianismo, que Morrisey era adepto.
No entanto, é também neste ano que os problemas começam. Os The Smiths sofrem sua primeira baixa, Andy Rourke resolve abandonar a banda. Mas ninguém supunha o começo do fim. Craig Gannon assume o posto e com a nova formação nasce Bigmouth Strikes Again que viria a ser o carro chefe da obra prima dos The Smiths, The Queen is Dead, em 86, no qual, misteriosamente, Gannon não aparece nos créditos.
Agora os The Smiths começavam a conquistar fãs por outros países. O hit The Boy With the Torn in His Side, que as más línguas brasileiras cismavam em traduzir como o "garoto que tinha a tora atrás", chegava às paradas internacionais. E os conteúdos das músicas deixavam de ser apenas a vida de pessoas comuns e passaram a ser, em sua maioria, críticas à realeza, ao governo de Margareth Tatcher e até à imprensa.
Smiths to Split
E é, neste ano, no auge do sucesso, que Johnny Marr sofre um grave acidente de carro, e eles são obrigados a dar um tempo. Mesmo assim lançam, graças a gravações feitas antes do acidente de Marr, mais um single, Ask, e gravam também o material para o primeiro disco ao vivo da carreira, Rank, que seria lançado alguns anos depois. Gannon é demitido da banda por problemas com heroína e Rourke, o bom filho, à casa torna. Mas, talvez, a Rainha tenha jogado uma praga nos garotos. E depois que Marr retorna às atividades da banda suas diferenças com Morrissey começam a ficar evidentemente insustentável.
Como se não bastassem os desentendimentos entre os dois gênios, havia um processo contra a Rough Trade, sua gravadora (lembram?) e Strangeways, Here We Come seria o último disco gravado por ela. Estavam também sem empresário e Morrissey tinha problemas graves com o fato de ter se tornado uma estrela. Outros problemas eram de ordem monetária. A divisão dos direitos autorais era feita de uma maneira não muito justa Andy Rourke e Mike Joyce ficavam apenas com 10%. O baixista e o baterista, então, entraram com um processo contra a dupla compositora e, em 88, o resultado foi favorável a Rourke e Joyce. Morrissey e Marr entraram com recurso, dizendo que os músicos sempre souberam qual seria a porcentagem que caberia a eles, mas em 98 a sentença final deu ganho de causa aos reclamantes, e a dupla chefe dos Smiths teve que acatar a decisão.
E por fim, a imprensa inglesa, que tinha uma rixa com a banda, consegue ser o pivô de seu fim. Depois de uma matéria falsa feita pelo New Musical Express, com o título, Smiths to Split, "Smiths prestes a acabar", Marr achou que a matéria era uma provocação feita por Morrissey e resolveu sair da banda. Sem o guitarrista, o grupo perdeu o sentido. Era o fim, antes mesmo da festa terminar.
Post Scriptum
Marr e Morrissey ainda estão vivos e, ao que tudo indica, vão muito bem, obrigado, com suas respectivas carreiras solo. Modestas em relação aos tempos dos The Smiths, porém, respeitáveis.
E quanto a mim, que brincava de elástico no primário quando tudo isso começou, resta colocar mais um nome na lista de shows que nunca verei. A julgar pela resposta categórica de Morrissey, ao ser perguntado sobre a possível volta da banda: “Isso não vai acontecer, nem em 1 milhão de anos. Tem que haver uma guerra nuclear, um terremoto, para os Smiths voltarem”. Marr é menos apaixonado: “Nunca me senti tentado. O melhor é deixar as coisas como estão. Não. Não gosto de andar para trás.” 08/03/2004
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