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Faixa 1 - Introdução (02:01 min)
Em 1997, Caetano Veloso bem que tentou. O disco até ganhou o Grammy no ano seguinte (sempre na categoria World Music), mas quem disse que isso é sinônimo de excelência? Na década de 70, várias bandas de rock progressivo tentaram. Algumas podem até ter conseguido, mas aqueles solos intermináveis de dez minutos tiram todo o mérito delas (como o Yes, o Pink Floyd ou o Rush). Entretanto, poucas bandas na história fizeram um disco que se parecesse com um livro. Que tivesse, ao invés de faixas, capítulos. Que ao invés de simples compositores, tivesse autênticos autores. Cujas letras, melodias e arranjos fossem coerentes, ainda que mantendo uma diversidade, com uma idéia central. E principalmente, que não se tornassem chato por isso.
Jeff Tweedy e sua banda, o Wilco, conseguiram este feito com Yankee Hotel Foxtrot. O álbum foi lançado em 2002, após a gravadora Reprise tê-lo recusado quando este lhe foi entregue e após o contrato da banda ter sido quebrado por isso. Foi preciso um novo contrato com outra gravadora, a Nonesuch (cujo casting inclui desde o próprio Caetano até gente como Joni Mitchell, Astor Piazzolla e o Buena Vista Social Club) ter sido firmado para que o lançamento do disco, vários meses depois das gravações, ocorresse no ano que passou.
Yankee Hotel Foxtrot entrou direto nas listas de melhores discos do ano. Não só em 2002 quanto em 2001 também, já que ao ver sua "master piece" recusada, Jeff Tweedy a disponibilizou inteira no site da banda (www.wilcoweb.com) em streaming, o que fez com que a página tivesse mais três milhões de acessos só em setembro de 2001 e também com que os mp3 caissem na rede pouco depois. Já cheio de história para contar, o Wilco não pode reclamar do caminho penoso que passou, pois seu "livro" é um sucesso. E a Nonesuch agora também pode se auto-denominar editora.
Faixa 2 - Título em Ondas Curtas (02:15 min)
 As similaridades do quinto álbum do Wilco com um livro real são inúmeras. A primeira é o título, um quebra-cabeças que pede para ser decifrado. A surpresa quando se realiza este feito com o significado das palavras "Yankee Hotel Foxtrot" é entender o tom ora melancólico, ora irônico - mas sempre cheio de cinismo - mostrado em toda as "faixas". Quem já teve algum contato com aeroportos, sabe que nos diálogos entre pilotos e torre, entre operadores e vendedores e etc., as letras do alfabeto são substituidas por palavras. Isso acontece para evitar a confusão entre uma letra e outra, que pode prejudicar desde um passageiro que anotou a identificação de seu bilhete de forma errada na hora da compra até um piloto que definiu uma rota diferente por engano ao receber um comando da torre. Por isso, o "A" é chamado de Alpha, o "B" de Bravo, o "C" de Charlie, o "D" de Delta. Esse tipo de alfabeto, chamado fonético, é de uso comum - além dos aeroportos - em vários tipos de comunicação por rádio. Descobre-se assim que YHF (ou "Yankee", "Hotel" e "Foxtrot") é uma estação de rádio militar israelense, utilizada pelo serviço de inteligência daquele país.
O que tem isso a ver com o Wilco? Jeff Tweedy diria: tudo! O lider da banda é rádio-amador fanático e disse, em uma entrevista realizada na promoção do album anterior da banda (Summerteeth), que possuia um set com quatro CD's contendo nada além de transmissões de rádio de agências de inteligência do mundo inteiro que foram interceptadas. Como o próprio Tweedy explicou: "eu consegui essa gravação contendo nada além de código Morse no ano passado [2001] e eu juro por Deus que eu as ouvi mais que qualquer outro disco". Sendo assim, nada melhor que um disco da banda que remetesse ao mundo da rádio-comunicação. E como diria Marcelo Costa em sua resenha - uma das primeiras a serem escritas - sobre o álbum (www.screamyell.hpg.com.br/secoes/wilcofoxtrot.html), Tweedy disserta sobre a comunicação nos relacionamentos se baseando na metáfora entre esta, sempre ruidosa, sujeita a interferências desconhecidas, feita quase em códigos, e as comunicações via rádio. O título enigmático chama atenção para esta metáfora quando aparece, repetidas vezes, em uma distorcida voz feminina, semelhante à utilizada na rádio YHF israelense.
Faixa 3 - Enredo em Onze Capítulos (07:03 min)
Embora mantendo a comunicação nos relacionamentos como tema central, o Wilco não se mostra repetitivo no disco. As músicas tem clima variado, que vão desde de a arrastada Radio Cure até a rapidinha Heavy Metal Drummer, esta última inclusive gerando o primeiro single do disco. Os arranjos, pra lá de conceituais e avant-garde, fazem com que o "leitor", já na primeira faixa (I Am Trying To Break Your Heart) perceba que não se trata de um álbum comum de música pop. Ela começa arrastada com efeitos de teclado, sintetizadores, guitarra e uma bateria que lembra a de um desfile militar. Com um vocal triste e pesado, Jeff mostra que não entende e não se faz entender, pela pessoa a que se dirige. Primeiro ele pergunta "what was I thinking when I let go of you?" Então, afirma que isto não é uma piada e pergunta "what was I thinking when i said it didn't hurt?" A falta de entendimento continua até que ele conclua que "I am trying to break your heart".
A segunda faixa, cujo clima à la "Two Of Us" (dos Beatles) é completamente diferente da primeira, tem o sugestivo nome de Kamera (com K mesmo). Aqui vemos Tweedy dizer que precisa de uma câmera para se lembrar de quais as mentiras que esconde e quais ecos que se repetem. Conclui que a memória se distorce e que precisa "phone to my family [to] tell them I'm lost on the sidewalk".
 Em Radio Cure, faixa seguinte, a letra pede animação ("cheer up / honey I hope you can"). Ironia pura que quase passa despercebida numa melodia arrastada e lenta, cheia de efeitos que lembram rádios fora de sintonia. No refrão, um piano faz parecer que Tweedy estava tomando whisky em um pub e já passava das quatro da manhã. Ele conclui: a distância não tem jeito de fazer o amor compreensível.
War On War segue animada, com dois violões em uma batida folk acompanhados de um piano. Um riff de guitarra com distorção faz lembrar um rádio quando se tenta sintonizar uma estação. É por causa de músicas como essa que Tweedy afirma que o Wilco tem similaridades com o Flaming Lips. A letra, triste porém esperançosa, diz que "you have to loose / you have to learn how to die / if you wanna wanna be alive". Para encerrar, perde-se a sintonia.
A quinta faixa do disco-livro (Jesus, Etc.) é a mais doce de todas. Com um arranjo de violinos e cravo enfeitando a faixa do início ao fim, ela se mostra a preferida da namorada deste colunista. A letra dá a impressão de que Tweedy terminava um relacionamento e se arrependia disto, dizendo "don't cry / you can rely on me honey / you can come back anytime you want". No final afirma, envolto aos violinos, que "our love / our love is all we have".
Em seguida, voltam-se os efeitos carregados e o teclado pesado para levar a belíssima e arrastada Ashes of American Flags. Um riff distante de guitarra enfeita a música que tem um arranjo nada dentro do padrão. A bateria e a percussão, lentas e inconstantes, fazem duo em um determinado momento com um violão triste. A letra é cheia de versos belos como "all my lies are always wishes / I know I would die if I could come back new", como "I wonder why we listen to poets / when nobody gives a fuck" e como "I want a good life / with a nose for things / a fresh wind and bright sky / to enjoy my suffering". Dá a impressão de que Tweedy tem a experiência de anos uma vida melancólica e sabe que as coisas simples, normalmente incompreendidas, é que valem a pena. Atenção para o final (último minuto da música), uma mistura de sons que lembram de longe o final de "A Day In The Life" dos Beatles (embora não seja um crescendo). Psicodélico até o último acorde.
De volta ao convencional (pero no mucho), Heavy Metal Drummer vem como vídeo extra no CD original, de um show gravado nos EUA. A letra, cínica e alegre, conta a história de uma garota que se apaixonou pelo baterista, em uma época inocente que dá saudades por tocar covers do Kiss, belos e chapados. Aliás, o baixo e bateria aparecem aqui mais que em qualquer outra do disco. Um tecladinho com efeito de espaço sideral ajuda no clima descontraído da música.
Na posição oito, estoura estridente um solo dissonante de guitarra com distorção no início de I Am The Man Who Loves You. Faz parecer o solo (desta vez não em backwards) de "I'm Only Sleeping". Violão e bateria compassados, um arranjo de metais no final deixam a música alegre e dançante. Parece que aqui a comunicação no relacionamento se estabelece de forma animada, já que "If I could, you know, I would just hold your hand and you'd understand: I am the man who loves you". Em outras palavras, "não precisa falar mais nada..."
Pot Kettle Back, que sucede I Am The Man Who Loves You, é uma das mais acústicas e belas do disco. A letra mostra um conflito pessoal num Tweedy que, quase aos sussurros, canta que "I myself have found a real rival in myself". Alguns efeitos só aparecem na metade da música e como perfeitamente descreve Marcelo Costa do Scream & Yell, "um quase break morrendo em efeitos no meio da canção é o perfeito resumo do álbum: 'Every song is a comeback / every moment's a little bit later'."
A penúltima música do álbum, Poor Places, é quase toda uma introdução. Com um violão e depois um piano, o Wilco remete ao R.E.M. de Automatic For The People. A letra é intimista e pessoal, quase uma auto-biografia desconexa. Tweedy canta que "someone ties a bow in my backyard to show me love / my voice is climbing walls smoking and I want love". Quase no final, com piano alto, a música explode no seu momento mais importante e empolgante, para que Tweedy diga que tudo não tem importância: "it makes no difference to me / when they cried all over overseas / when it's hot in the poor places tonight / I'm not going outside". Uma voz feninina bem distorcida repete "Yankee Hotel Foxtrot", no inicio distante em meio aos ruídos (de ondas de rádio?) e depois mais claramente, como um código lançado ao espaço.
Encerrando o livro, Reservations vem bem ao estilo de I Am Trying To Break Your Heart, lenta e embebida de efeitos. A letra praticamente chora, com Tweedy perguntando o que fazer para convencer (a garota) de que é de si próprio que ele não gosta. No refrão, ainda mais triste, ele diz "I've got reservations / about so many things / but not about you". E quem não ficou com "broken hearts" depois de quase três minutos - a música quase acaba alí -, com certeza poderá pensar melhor e se deixar despedaçar durante os últimos três minutos (a faixa toda tem quase sete), em que uma coda segue até morrer encerrando o álbum.
Faixa 4 - Final Coda (01:16 min)
 O interessante na análise das faixa é notar como o tema central do disco não se perde. Ainda que em algumas faixas a metáfora com rádio-comunicações seja feita através dos arranjos, com ruídos que lembram estações fora de sintonia, em outras ela é realizada através da letra, com histórias de relacionamentos onde a compreensão entre os pares é difícil e até distorcida. E em um momento ou outro, esse relacionamento nem é entre duas pessoas, mas intra-pessoal, em que Jeff Tweedy, que encontrou em si mesmo seu próprio rival, não consegue se compreender. Por isso, a comparação com capítulos de um livro, que embora possam falar de assuntos diferentes e com abordagens diferentes, mantém sempre o tema central. É como se Yankee Hotel Foxtrot tivesse um enredo que se desenvolve até o fim, por meio das letras, das melodias e dos arranjos.
O álbum-livro, que deveria ter orelha e índice onomástico, se mostra tão belo que fica difícil prever se a próxima construção do Wilco será tão bem feita. A metáfora entre as comunicações via rádio e a comunicação (sempre difícil) dos relacionamentos se mantém e se fecha cortando corações a cada minuto. E depois de toda a ironia que recheia cada uma das faixas deste que é o melhor álbum de 2002, a maior de todas as ironias é o motivo da gravadora Reprise ter recusado-o: eles queriam algo mais parecido com o que se ouve no rádio. 18/10/2003
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