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 Remando com sucesso contra a maré que pretende transformar a web em um grande supermercado de música, a gravadora Trama fez o lançamento oficial de um dos seus braços na internet, o site Trama Virtual: www.tramavirtual.com.br. João Marcello Bôscoli (presidente da Trama) e Carlos Eduardo Miranda (renomado produtor a serviço da gravadora) foram submetidos à uma bateria de entrevistas com a imprensa especializada em música - o PoppyCorn também conversou com os dois com exclusividade - onde explicaram como ainda em fase de experimentação, o Trama Virtual somou 1700 artistas e bandas e 5700 músicas para serem baixadas gratuitamente.
Mais do que uma oportunidade de divulgação para bandas que estão ou não iniciando carreira, o Trama Virtual acabou se transformando no banco de demos da gravadora. Agora toda vez que um artista pergunta como fazer para enviar uma demo à Trama, Miranda responde que é só fazer o cadastro no Trama Virtual. O portal apresenta possibilidades não só para a gravadora a qual ele pertence, mas também à todas as outras interessadas em trazer um artista que chamou a atenção para o seu cast, inclusive gravadoras internacionais (Bôscoli diz ter presenciado muitos artistas brasileiros serem lançados no exterior nos últimos 2 anos).
Esse é o jeito Trama de se fazer música, no qual a regra é atuar em frentes diferentes e abusar dos formatos, ainda que comece a ser criticado mais abertamente de pouco tempo pra cá. Bôscoli diz que as críticas negativas não atingem, já que um bom trabalho também pode ser medido pelo baixo número de comentários maldosos. Para continuar a entender a Trama, é só tomar nota de mais uma de suas iniciativas, que foi a de sortear prêmios para quem baixasse remixes de músicas de Fernanda Porto e Nação Zumbi do site oficial da gravadora, www.trama.com, isso enquanto as majors fonográficas processavam judicialmente alguns internautas que compartilhavam música na internet.
 "A Trama, veja bem, é uma gravadora que simplesmente está financiando a circulação livre de música no Brasil. E isso é de um mérito jamais visto talvez no mundo", é o que declara Eduardo Fernandes, ou Eduf, editor dos sites Fraude, Gonzo e da revista Radar Cultural. Seu primeiro livro chama-se O Prazer De Decepcionar. Ele mantém na Trama Virtual a página do seu projeto de one man band, o Peruano Saudita.
Idéia surgida em 2001, o Trama Virtual entrou no ar no final do ano seguinte, chefiado por Miranda. Originalmente dedicado à "coisas ultra-novas, pessoas que estão fazendo música dentro do seu quarto", hoje não são poucos os artistas conhecidos (como Júpiter Maçã, Replicantes e Wander Wildner) que não abrem mão de contar com o Trama Virtual como mais um meio de divulgação para o seu trabalho. Ainda estão lá aquelas bandas que tem um domínio próprio mas aproveitam a qualidade de hospedagem dos arquivos no portal; projetos paralelos, como os três que a banda de música eletrônica capixaba Zémaria mantém; e uma quantidade absurda de música experimental que pode revelar gênios do futuro, quem sabe.
A assiduidade do público português vem chamando a atenção de Miranda. Responsável por um boletim semanal no programa do jornalista lusitano Henrique Amaro, da rádio Antena 3, Miranda vem tomando contato com diversos interessados da terrinha em ingressar na Trama Virtual, que por enquanto é só para os brasileiros mesmo.
A reformulação do Trama Virtual não é definitiva, e sim contínua. É por isso que num suposto futuro, vai ser inevitável deixar de comercializar as MP3's do portal (já existem membros cobrando isso) se a comunidade decidir a favor da proposta. Mas Bôscoli e Miranda advertem: "É palavra de ordem na gravadora ouvir a comunidade, e não tomar medidas restritivas que possam afastar os membros".
A home do portal além dos destaques, traz um sistema de busca que visa facilitar a interação entre bandas de sonoridades semelhantes, mas que estão afastadas por milhas e milhas dentro do território nacional. Notícias de bandas, pessoas e lugares que não deixam a engrenagem da música independente parar de funcionar também aparecem logo de cara no site.
Bôscoli até aceita creditar o Trama Virtual como fomentador da cena independente, mas diz que se não fosse a movimentação do underground, surgida timidamente nos anos 80 para eclodir nos 90, o site não existiria. "Tem algo de muito especial acontecendo à margem dos olhos da grande mídia e do mainstream. E graças a Deus a gente está fazendo parte desse momento", diz Miranda. A Trama não pode confirmar o que está para acontecer, mas prevê algo grande, do qual quer continuar a incentivar.
 Antes mesmo de sua oficialização recente, ainda em estado laboratorial, a Trama Virtual produziu um fenômeno que varreu as noite paulistanas e também da baixada santista, o grupo de electro rock minimalista (e explosivo) Cansei de Ser Sexy, cujo baixista Adriano Cintra ainda é integrante de outra cultuada banda paulistana, o Thee Butchers Orchestra. Bôscoli entrega que ficou surpreso ao se deparar com notícias do grupo nas páginas de jornais em São Paulo.
Com a palavra, Luiza Sa, guitarrista da banda: "(...) Foi incrível que existiu uma repercussão muito maior do que esperávamos (não esperávamos muita coisa), mas a única coisa que fizemos (que quatrocentas mil outras bandas fazem) foi colocar uma música lá dentro (...) Se somos a maior revelacão do Trama Virtual isso pra nós é uma honra e uma alegria enorme". O Cansei de Ser Sexy ainda prepara um disco independente para ser lançado em julho deste ano.
 Também estão nos planos da gravadora lançar uma coletânea com artistas da Trama Virtual escolhidos a dedo por Miranda. Mas ele e Bôscoli procuram não fazer muito alarde sobre o assunto, já que qualquer um pode "queimar" um cd em casa com as músicas dos artistas favoritos do site. Prova de que mesmo conseguindo música pela internet, a vontade das pessoas em consumir bens físicos palpáveis não está sanada. Inspirado nas palavras de Falcão, qualquer um pode desafiar o mundo das grandes gravadoras sem sair de casa, com o MP3, que não é um fim, e sim apenas o começo. 25/05/2004
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