Generosidade cultural
Por: Júlio Ibelli
 
 
"A gente é a prova de que o manguebeat não morreu". Felipe, vocalista da banda recifense Mombojó, mal sabia que com essa declaração alimentava um apartheid na noite de São Paulo. Enquanto ele e seus companheiros de banda subiam ao palco do Urbano Club para receber aplausos, grande parte dos estabelecimentos comerciais daquela nobre área da zona sul, deveriam estar infestados de outros pernambucanos e migrantes de outros estados da nação com baixa instrução sendo mal remunerados.
Segundo Felipe, "a galera ainda está colhendo o fruto das coisas que eles [Chico Science e os outros fundadores do manguebeat] criaram". Era impossível gravar um cd em Recife há 10 anos atrás e graças ao movimento, hoje existem pessoas vivendo de música por lá. Contribuição talvez maior do que a poética, a "onda" de Chico "era fazer movimentar a cidade". Ele e Fred Zero Quatro podem ser considerados então, como Mandelas da música pop nordestina moderna.
O incômodo por serem taxados como mais uma voz do movimento mangue não existe para o Mombojó. "Nada mais natural" diz o baixista Samuel, já que fazem parte da ainda borbulhante cena e dispensam a carteirinha de sócio. "Não tem que ter tambor, né?", emenda o baterista Vicente. Mais que movimento, um inconsciente coletivo, partículas do mangue sendo levadas pelo vento para dentro da cabeça das pessoas.
Cinco dos sete integrantes do Mombojó (o flautista Rafa não estava presente e Marcelo Campelo se recuperava de um acidente de carro em Recife) chegaram para conversar depois de serem acordados por Luciano, 'paizão' que os acompanhou durante a tour que a banda fez pelo sul do país. Quem não estaria cansado depois de uma maratona que incluiu o Abril Pro Rock e apresentações além de São Paulo, no Rio de Janeiro, em Florianópolis e na mesma noite que Pixies no Curitiba Pop Festival? Perdoados.
Além de o confundirem com João Gordo, os meninos do Mombojó (suas idades variam entre 17 e 22 anos) admitiram ter colocado tachinhas na cadeira de Frank Black (ou Frank 'Fede', como o chamaram) em represaria ao forte esquema de segurança que garantiu a privacidade de sua banda, o Pixies, e afastou qualquer tipo de curioso. Já no Abril Pro Rock, o Mombojó foi um dos responsáveis pelo maior registro de público na noite de domingo do festival, onde tocaram ao lado de uma tríade pernambucana que eles não cansam de citar: Suvaca di Prata, Mula Manca e a Triste Figura e A Roda.
Podem ter sido os festivais um dos fatores para o sucesso da banda. Quando tocaram no Abril Pro Rock em 2002, a música "A Missa", ainda em versão demo, foi selecionada para a coletânea do festival. No ano seguinte o Mombojó entrou em estúdio, e graças à Lei de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Recife foram prensadas duas mil cópias do disco de estréia, nadadenovo. Daí todas as faixas do cd foram parar no site oficial do grupo, para serem baixadas, numa atitude que muitas bandas ainda preferem não tomar partido segundo Luciano, que ainda prega generosidade a propriedade intelectual. Duas músicas para serem remixadas e uma faixa ao vivo ainda estão prometidas para serem disponibilizadas no site, o www.mombojo.com.br.
Encartado na Outracoisa, a revista do Lobão, nadadenovo chegou no Brasil todo este ano. Mas que som é esse que o Mombojó faz? Receita da própria banda, é só misturar a 'coisa cru MPB' dos Los Hermanos, Roberto Carlos e a bossa de João Gilberto, um pouco de Bonsucesso Samba Clube e DJ Dolores, Radiohead e Stereolab: "A gente fica escutando o dia inteiro e acaba saindo um pouquinho", explica Vicente. Assustados com os nomes a que foram comparados pela locutora de uma rádio que visitaram, e dos quais nunca tinham ouvido falar antes, foi o som do grupo paulistano de rap Facção Central que fez a cabeça dos garotos recentemente. Graças ao motorista da van que os trouxe de Curitiba a São Paulo, e que tinha o cd do Facção tocando no player.
Iniciados em música naquele fase da adolescência em que costuma se dar o 'estalo' (ou não, já que Rafa começou a tocar flauta aos 4 anos) e coisas passam a ser absorvidas com mais facilidade, o Mombojó quer mesmo aproveitar os dois anos que, segundo Samuel, ainda restam para trabalhar o nadadenovo. Declaram ter música para mais dois discos mas que não é uma preocupação da banda lançar um novo álbum, pelo menos por enquanto. A ordem ainda é curtir a visibilidade na mídia que nenhuma outra banda independente conseguiu na história, palavras de Luciano.
Para o futuro mesmo, encerrando o bate-papo regado à altas doses de descontração, eles brincam prometendo lançar um álbum eletrônico, dando início ao 'nú-mangue'. "Esperamos vida longa para essa história. Muito bom falar que você é salvador, difícil é manter isso". De que história é essa que Felipe está falando? É só não perder um show da banda quando ela passar pela sua cidade (atenção Recife, Fortaleza e Belo Horizonte), e deixar-se acreditar, apesar da pouca idade dos rapazes, no som nada 'teen spirit' que sai de suas cabeças e instrumentos.
03/06/2004
 
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