Leitura pop obscura: porto seguro na internet
 
 
 
 
 
Guilherme Sagas (Guilherme Augusto Silva na certidão de nascimento), 20, sofre do mal que acomete as pessoas do signo de Aquário. Suas mentes viajam para lugares tão longínquos - impossíveis de serem imaginados pelos outros seres humanos 'normais' -, numa velocidade tão superior à da luz, que eles acabam sendo incompreendidos na encarnação que tiveram para aproveitar a vida terrena. Encurralados pelo serviço de poda obrigatório de boas e revolucionárias idéias realizado pela sociedade, eles acabam deixando no mundo peças de arte marcadas pelo signo da melancolia.
"Tinha que ser assim. Esse caminho dark sempre me atraiu. Além de tudo estava na adolescência, o período cheio de hormônios, altos e baixos, toda aquela coisa de aceitação, de fazer parte de tribos e grupos, me deixava meio deprimido".
É bem esse o sentimento que desperta a leitura de Prelúdios, a primeira empreitada literária oficial de Guilherme, uma coletânea de seus contos disponível na íntegra para leitura somente na internet, no endereço www.preludios.tk. Webdesigner formado, Guilherme ainda mantém na rede um blog que acabou servindo de laboratório para a elaboração de Prelúdios, com o bônus de testar a receptividade com as amostras do trabalho que ele disponibilizava. Dono ainda de um senso de humor jornalístico infalível (também como bom aquariano ele sabe enfrentar as adversidades da vida todo espirituoso), deixa escapar de propósito para o mundo conferir o resultado de sua marcante experiência, apesar da pouca idade, e que antes só poucos privilegiados mais próximos podiam conferir.
"O primeiro conto que escrevi foi Ao Fim do Crepúsculo, que relembrava alguns meses de insônia e a agonia pela qual passei durante aqueles dias. Foi doloroso escrever, mas no final eu me senti tão aliviado e as pessoas gostavam tanto que continuei", explica. Mas não vem sendo essa a passagem de Prelúdios mais comentada, e sim Olhos Felinos, por ter tomado uma conotação diferente, ou não, quando amigos de Guilherme o leram e relacionaram com um momento pessoal que ele vivia. Sobre a forte influência da realidade em sua obra, diz que "as personagens são sempre uma parte do autor, e isso não há como negar. Eu costumava dizer que escrevia para exorcizar certas coisas de mim, e acho que é assim que acontece. Mas as histórias não são declaradamente auto-biográficas não".
Mas não é só com o sarcasmo anteriormente citado que Guilherme pretende bater de frente com o mundo. Em outro conto, 'Seca', ainda que pintado em tons de fotografia de cinema milionário, a violência escapa da coleira, pula por cima do portão e morde o leitor. Usufruir com maestria das locações é outro de seus trunfos, o que reforça a idéia cinematográfica ao ler Prelúdios. "As locações são tão importantes quanto as personagens. Antes de escrever visualizo tudo. O processo é muito cinematográfico e não consegui esconder isso na hora de expressá-lo em palavras. Nada foi intencional, as coisas surgiram no decorrer do projeto".
Guilherme não se arrepende de ter escrito em prosa, apesar de um lirismo descarado azarar a poesia em Prelúdios. Ele torce o nariz para o excesso de doçura da poesia, em suas próprias palavras, mas admite estar se enveredando por novos caminhos do mundo dos versos. Prelúdios ainda é uma curiosa mistura do estilo épico de Tolkien com toda uma urbanidade à lá Machado de Assis. Até porque o mundo por si só, e ainda mais sem nenhuma fantasia, é triste demais. No livro por exemplo, uma estudante universitária quase cai em uma arapuca que a transformaria numa horrenda estátua de bronze! Mas nem Tolkien nem Machado. "O caminho é esse mesmo... Temas épicos e ambientação urbana. Antes de escrever 'Rumo' [um dos contos de Prelúdios] li Clarice Lispector, que me inspirou muito".
Outra constante é o conflito entre personagens cujas idades são dispares. Como bom adolescente que é, Guilherme parece gostar de conservar um rancor infantil contra a autoridade paternal. Até como alguns adultos o fazem. "Entretanto gosto muito de escrever sobre velhinhas, não sei porquê".
Tudo em Prelúdios parece levar à morte, mas é uma outra sensação pior e mais latente que Guilherme diz ter feito uso. "A morte não é O grande medo, pelo menos não a minha. Talvez a morte dos que estão à minha volta seja um grande medo, porque SOLIDÃO é uma coisa que me assusta muito."
Para o futuro ele promete projetos menos obscuros. Melhor assim, já que não terá a preocupação de exorcizar os demônios no 'segundo livro', fazendo uma alusão ao mundo da música. Já o fez no debute.
 
23/06/2004
 
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