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No começo do mês de junho, foi estranho assistir pela TV o velório do ex-presidente americano Ronald Reagan. Nunca a história parecia ter ressuscitado tantos fantasmas ao mesmo tempo. Mikhail Gorbatchov lado a lado com Margaret Thatcher, ouvindo um discurso de George Bush Pai, cercados por um monte de figuras nem tão fascinantes da fascinante época da Guerra Fria. Pouco tempo antes, durante um show em Dublin, Morrissey afirmava, ao informar sobre a morte do velho caubói, que quem deveria ter realmente morrido era o Bush Filho, e levou o público à loucura. Não demorou muito para ecoarem as vociferações republicanas lá do outro lado do Atlântico.
 Morrissey não deixa de ser ele próprio uma figura tão emblemática quanto os políticos supracitados, e quase tão fantasmagórico, depois de tanto tempo longe dos holofotes (mas não dos nossos ouvidos). E reaparecer assim tão contundente, depois de sete anos sendo feito de bobo pelas gravadoras, é surpreendente. Principalmente porque ele não está só melhor do que há sete anos – está melhor do que há 14 anos também, e não fica devendo em nada ao Moz de 21 anos atrás. Ele está de volta, e no momento certo.
Talvez seja arroubo momentâneo, mas esse “You Are The Quarry” deve ser sim o melhor disco que Moz lançou em sua carreira solo. 12 canções pop inspiradas, feitas com esmero para atordoar o coração dos milhões de fãs espalhados pelo mundo, novamente.
Moz é a caça, como afirma o título do álbum, mas não se entrega facilmente. Sabe se defender muito bem dos ataques feitos por todos os lados. As duas primeiras faixas são duas pancadas daquelas bem dadas, primeiro no totalitarismo conversador que toma conta dos EUA (em “America Is Not The World”), e depois naqueles ingleses que subverteram seu patriotismo (na perfeita “Irish Blood, English Heart”). Menos político do que Michael Moore, menos exótico do que o System Of A Down, Morrissey não precisa de mais tempo para deixar o seu recado, endereçado aos detestáveis políticos ingleses e americanos de hoje, incrivelmente piores do que aqueles que o atormentavam nos anos 80.
 Por isso, daqui em diante o que o álbum apresenta é aquilo que todos os fãs sempre adoraram (e que sempre fez os detratores se contorcerem de nojo): de coração totalmente aberto, o lamento daquele que não consegue ser amado, que despeja sua baixa auto-estima e mesmo assim nos seduz, por escancarar os sofrimentos mais esquecíveis.
Enfim, é a velha fórmula dos últimos 20 anos, mas está longe disso ser depreciativo. Moz continua acenando para velhas lembranças (a classuda “Come Back To Camden”), flertando com figuras masculinas fortes (a irresistível “First Of The Gang To Die”), e pedindo para ser tomado nos braços e ser amado (as lindas “The World Is Full Of Crashing Bores” e “Let Me Kiss You”). Ainda dá uma resposta amargurada à “Friday I’m In Love“ do The Cure na excelente “I Have Forgiven Jesus”. As batidas à la Dido não comprometem (ainda bem, “I’m Not Sorry” é ótima), e embora na própria “I’m Not Sorry” ele pareça assumir sua esquisita homossexualidade, não é preciso ser gay para se identificar com cada palavra.
 Mas, como se não bastassem todos esses altos, o disco se encerra com uma preciosidade, talvez uma das melhores músicas da vida do Moz: em “You Know I Couldn’t Last”, ele parece enfim encarnar o gangster da capa do CD, e com sua metralhadora de tambor começa a atirar versos fantásticos, contra a imprensa, as gravadoras, os astros pop, os ídolos desses astros, e principalmente, contra os ex-companheiros de Smiths, que continuam numa pendenga judicial imoral exigindo seus royalties. Em quase 6 minutos, uma introdução marcante, um refrão mais ainda, e a levada épica deveriam ser capazes de remover qualquer sordidez da mente.
Felicidade é pouco para descrever a sensação de se ver um ídolo de volta em tão boa forma, ainda mais em um mundo tão sem graça como esse em que estamos hoje em dia. Nada de nostalgia. Quem precisa de Keane com o rei da amargura de volta ao trono? 09/08/2004
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