Picassos no século XXI
Por: Jairo de Souza
 
 
Durante a explosão do B-rock o que menos interessava para as bandas da época era misturar seu som com ritmos brasileiros. Um das pouquíssimas exceções eram os cariocas do Picassos Falsos, que vinham adiantar o que seria de praxe no rock dos anos 90. A banda gravou dois discos: o autoentitulado, de 1987, e o fundamental "Supercarioca", de 1988. Dois anos depois a banda se separava, antes de alcançar o sucesso devido.
Para sorte dos ouvintes de música, em 2001 o grupo formado por Humberto Effe (voz e violão), Gustavo Corsi (guitarras), Romanholli (baixo) e Abílio Rodrigues (bateria) resolveu retornar às atividades. O motivo da volta da banda é obscuro para os próprios integrantes: "Às vezes não existe um motivo para um grupo de pessoas se juntarem ou se separarem profissionalmente. É uma série de coisas que fazem isso acontecer, uma delas foi sempre o nosso contato pessoal continuar existindo e eu não ter parado de compor.", diz Humberto Effe, que sempre foi o principal compositor do grupo, chegando a lançar um disco solo em 1995. O resultado dessa volta já se materializou com o lançamento do cd "Novo Mundo", lançado pelo recém surgido selo Psicotronica.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Novo Mundo" chega num momento mais que propício do cenário brasileiro, com várias novas bandas unindo ritmos brasileiros em seus discos. Nesta onda, o mais visível é o ressurgimento do samba+rock com artistas como Numismata, Romulo Froés, Mombojó, China, Los Hermanos, etc. Para Humberto, contudo, os dois estilos nunca estiveram separados, como ele declara: "Considero Noel super rock'n'roll e mais, super punk também, Ismael Silva um blues man e Little Richards um pagodeiro. Tem o funk junto do samba. Tem o R&B de hoje nos EUA que estabele relações muito parecidas com as dos novos pagodeiros daqui, assim como as histórias dos primeiros sambistas são muito próximos das dos primeiros blues mans". E completa, "Hoje tudo isso está mais escrachado e fez o samba se estabelecer como algo que nunca deixou de ser moderno, porque a grande tradição não envelhece apenas se reestabelece de formas diferentes, a grande tradição não precisa ser neuroticamente preservada ela simplesmente caminha conosco".
Dessa forma, o Picassos deixa caminhar tradições musicais por todo o seu disco, misturando samba, xaxado, jazz, sambossa, blues, etc. Tudo de forma tão sutil que não nos dá aquela sensação de estar ouvindo uma coletânea de músicos brasileiros. Tudo soa simplesmente como Picassos Falsos. A mistura do grupo chega a ser tão sutil e conexa que mal percebemos a loucura que é misturar xaxado com riffs indies como na faixa "Presidente Vargas". E por mais que tenham dito que o Picassos se parece com o Los Hermanos, a diferença entre eles é muito grande. Enquanto o Los Hermanos é o grupo que consegue reunir os amantes de MPB e os indies mais carentes, esperançosos do sucesso de bandas brasileiras com som a la Weezer, o Picasso é rock, na essência da palavra. Talvez a parceira com o ex-Barão Dé Palmeira tenha contribuído com a "aura B-rock" de excelentes canções como "Até onde for seguir", "Eletricidade", "Novo Mundo" (talvez a mais bela do disco) e "O Filme".
Agora só basta fazer figa para que os Picassos tenham uma carreira mais duradoura. Porém, se depender de Humberto, é melhor ficar de mente aberta: Não pensamos nisso [numa volta definitiva] porque não estamos pensando em limitar nada, muito pelo contrário, temos e queremos fazer muito muito muito mais coisas ainda pela frente. Por enquanto as pretensões futuras é botar nosso show na estrada e tocar no Brasil inteiro. Queremos tirar essa carioquice, demasiada às vezes, sobre nós e nos tornarmos mais nacionais/internacionais, mais cosmopolitas fisicamente, já que é assim que nossa música se estabelece e aparece... É o que fazemos.
 
Obs: Enquanto o PoppyCorn conversava com os cariocas do Picassos Falsos, no Rio de Janeiro estava sendo exposto uma coleção de quadros falsos de Picasso. Isso que eu chamo de volta em grande estilo...
16/08/2004
 
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