A Literatura de Jane Austen e Sua Influência no Cinema Moderno
 
 
A escritora britânica Jane Austen é a nova coqueluche hollywoodiana. Considerada como um dos maiores expoentes da literatura mundial, suas obras caíram nas graças de qualquer leitor que se aventurou por seu estilo único, pelo uso de uma sutil e irresistível ironia em cada linha de seus textos, que ia diretamente contra os padrões “morais” e as divisões sociais típicas da sociedade inglesa do século XVIII
Uma das coisas mais interessantes a se destacar a respeito de Jane Austen é que mesmo não tendo sido uma freqüentadora da alta sociedade da época, conseguiu retratar como ninguém todos os sentimentos, hábitos e intrigas dos ricos nobres de berço de forma extraordinariamente fiel, não poupando o leitor ou suavizando a verdade. Um pioneirismo literário significativo para uma mulher daquela época.
Seu estilo sereno, ousado para a época, sarcástico e real pode não combinar com a imagem de filha de um líder eclesiástico, criada de forma puritana e que quase não se separou da família ao longo de seus quarenta e um anos de vida. Mas isso não a impediu de estar à frente de seu tempo: nas obras de Jane Austen há intrigas, mentiras, traições, casamentos arranjados e forçados, razão, sensibilidade, orgulho, preconceito e todo o arcabouço emocional que tece a teia das relações sociais.
Este vasto mundo criado pela autora não pôde ser ignorado pelo cinema por muito tempo, cada vez mais carente de roteiros de qualidade. Logo vieram as adaptações e assim um público cada vez mais abrangente pode conhecê-la e admirá-la.
 
O Orgulho & Preconceito de Jane Austen Invadem as Telas
 
A primeira adaptação de uma obra austeniana baseou-se em Orgulho e Preconceito, um de seus grandes sucessos. Ambientado na Londres do século XIX, o livro nos conta a história de uma jovem inteligente e vivaz, mas de condição financeira precária, que se vê envolvida numa relação de amor e ódio com um rico e orgulhoso cavalheiro. Tendo Laurence Olivier e Greer Garson nos papéis principais, esse filme foi ganhador do Oscar de Melhor Direção de Arte em Preto e Branco em 1941.
A versão mais conhecida dessa obra ainda é a que foi feita no ano de 1995 pela BBC de Londres, estrelada por Colin Firth e Jennifer Ehle nos papéis principais. Essa minissérie para TV de seis episódios foi uma das melhores e mais conhecidas adaptações de uma obra austeniana, com o requinte do século XVIII aliado a uma intensa fidelidade ao original da autora. Possui uma marca tão profunda no inconsciente coletivo inglês, que a autora Helen Fielding, ao criar a divertida heroína moderna Bridget Jones, lhe deu como par perfeito um “Mr. Darcy” – coincidentemente vivido pelo mesmo Colin Firth.
Dez anos passaram-se até que Orgulho & Preconceito retornasse para o cinema e reacendesse o interesse do público pelas obras da escritora inglesa. Dirigido por Joe Wright, essa nova adaptação condensa o livro em pouco mais do que duas horas, o que para um fã mais ardoroso seria um sacrilégio, mas a película é um intenso deleite cinematográfico para os sentidos.
A tensão entre os personagens de Keira Knightly e Matthew McFadyen pode ser cortada com faca durante a trama: a ausência de contato físico, regra social da época, torna tudo mais bonito e mais sutil e ao invés de frustrar o telespectador, acostumado a cenas íntimas cada vez mais explícitas, nos brinda com o romantismo em sua forma mais pura.
 
A Razão e a Sensibilidade
 
No mesmo ano em que a BBC lançou sua minissérie, Hollywood preparava mais uma digressão pela sociedade rural do século XVIII de Jane Austen, pelas mãos de Emma Thompson e Ang Lee, no maravilhoso Razão e Sensibilidade. Tendo recebido sete indicações ao Oscar, ganhador da estatueta por melhor roteiro adaptado, vencedor do Globo de Ouro de melhor drama, do Urso de Ouro de Berlim e recebendo ainda doze indicações para o British Film Institute, Razão e Sensibilidade foi um dos filmes mais importantes do ano.
Não há como evitar as lágrimas durante a saga das irmãs Dashwood, mesmo sendo apenas a história cotidiana da sobrevivência de uma família só de mulheres, em meio às picuinhas e preconceitos da alta classe. Parte do mérito se deve à direção segura e humana de Ang Lee.
As atuações do elenco também foram um grande diferencial. Emma Thompson, na época considerada velha demais para o papel da racional Elinor, assina o roteiro e uma atuação impecável indicada ao Oscar, assim como Kate Winslet, indicada pela segunda vez ao Oscar por sua interpretação da sensível Marianne.
Apesar dos homens terem um papel de secundário, pode-se dizer que são coadjuvantes de luxo: o talentoso Alan Rickman, que interpreta o coronel Brandon, homem atormentado que esconde uma intensa paixão por Marianne e Hugh Grant, interpretando Edward Ferrars, o escolhido de Elinor, não fazem feio. O estreante (e gato) Greg Wise interpreta o libertino jovem Willoughby com charme de veterano, nos fazendo amá-lo e odiá-lo com a mesma intensidade. Com todo esse conjunto de qualidades reunidas, seria redundante falar que o filme foi um sucesso.
Em 2008, a BBC pretende revisitar Razão e Sensibilidade em mais uma minissérie para a TV, dessa vez com atores desconhecidos para o grande público. É esperar e torcer que a obra tenha o cuidado que sua importância merece.
 
Erros e Acertos ou “Quando o Caldo Desanda”
 
Aparentando ser um sucesso garantido, a receita austeniana nem sempre serviu para boas adaptações. Pode ser citado como exemplo o caso de Emma, estrelado por Gwyneth Paltrow e Jeremy Northam, certamente uma das maiores besteiras feitas com base na obra de Austen.
De qualidade, o filme possui apenas o figurino e o cenário, o mínimo exigido para se recriar uma época mais luxuosa. Emma trouxe apenas benefícios para Paltrow, pois foi através dele que acabou sendo convidada para estrelar Shakespeare Apaixonado, filme pelo qual ganhou seu único Oscar.
Por incrível que pareça, uma “versão teen” de Emma fez mais sucesso que sua predecessora, embora também de qualidade duvidosa: trata-se de As Patricinhas de Beverly Hills. Alicia Silverstone faz uma Emma moderna, divertida, descabeçada e só preocupada em ajudar os outros, enquanto se esquece da própria vida e dos próprios sentimentos. Não é um dos melhores momentos de Jane Austen na tela, mas é em circunstâncias assim que a escritora inglesa mostra mais uma faceta de sua genialidade: quantos autores escreveram obras tão fluidas a ponto de se adaptarem aos dias de hoje, tendo trezentos anos de existência?
 
 
A obra póstuma Persuasão, considerada pelos críticos seu livro mais maduro, passou pelos cinemas em um filme totalmente esquecível. Funcionou melhor apenas como uma citação na trama de A Casa do Lago, que assim como o livro, também levanta a questão de se ter ou não um timing específico para o amor, mas com uma roupagem mais moderna.
Mansfield Park, traduzido para o português como O Palácio das Ilusões, outra obra adaptada para os cinemas, conta a história de mais uma Cinderela adotada por tios ricos e dividida entre dois homens. Diferente dos outros filmes já citados, de qualidade duvidosa, O Palácio das Ilusões desanda por uma opção estilística: a diretora canadense Patrícia Rozema transformou a personagem Fanny Price (Frances O´Connor) numa projeção de Miss Jane, mudando a personalidade passiva e vacilante da personagem pela ativa e firme da autora.
O mar de adultério, decadência financeira e traições ainda é o mesmo, mas faltou algo para ser tão bom quanto as adaptações anteriores. De mérito, tem a tentativa de enxergar a obra por outro prisma, mas peca justamente por não conseguir fazê-lo de forma competente.
 
Miss Jane e Sua Importância
 
Apesar de considerada a segunda figura mais importante da literatura inglesa, perdendo apenas para William Shakespeare, existem aqueles que não levam a autora a sério, intitulam suas obras de “livros de mulherzinha” e fazem pouco caso de sua comprovada importância na literatura mundial.
O fato é que biógrafos ainda se descabelam tentando desvendar essa enigmática mulher, que mudou a literatura de sua época, influenciou o cinema e ensinou gerações inteiras sobre a força do amor, a força da mulher e até mesmo sobre o espírito masculino ao longo dos tempos.
Num tempo onde o feminino luta por sua identidade em meio a modelos anoréxicas e tchutchucas, sofre com o acúmulo de acúmulo de papéis sociais e a busca de padrões inatingíveis, a mulher de Jane Austen é inteira, racionalmente sensível e plena da força feminina, que reconhece seu próprio valor e sua importância como instrumento de mudança.
Ler Jane Austen torna-se mais do que um prazer: É um golpe de ar fresco na fronte de qualquer mulher moderna, diria.
 
 
 
18/10/2003
 
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Comentário dos leitores:

Descobri mesmo Jane Austen este ano, quando li "Orgulho e Preconceito". Quase devorei o livro. Entao resolvi ler mais sobre ela e descobri que "Razão e Sensibilidade" e "Emma" (já assisti aos dois) são influenciados por ela. Concordo com o texto de Luana sobre a patetice de Paltrow. Ainda não vi "Orgulho e Preconceito", mas a contar pelo que vi dos cenários nos trailleres, mal posso esperar. De qualquer forma, só em saber que o cinema respira Jane Austen a tanto tempo (300 anos!!!!), fico mais feliz ainda.
Rosa Santos

O universo de Jane Austen é que move meu sonho, adoro seus livros e alguns filmes foi mesmo fiéis à sua obra como Orgulho e Preconceito, este último (fiel nos diálogos) e Razão e Sensibilidade. Espero outros filmes e que descubram alguma outra obra dela que ainda esteja desconhecida.
NEUZA SALETE TOLEDO PEREIRA

Jane Austen tem o poder de prender o leitor em cada linha de seus livros ou mesmo em cada cena de adaptação ao cinema. Me viciou em seu estilo, tamanha perfeição.
R.

Sou devoradora da obra de Austen, adoro seu estilo irônico. Vi as duas adaptações de "Orgulho e preconceito", e a Lizzie de Keira Knightley deixa muito a Jennifer Ehle. Os Darcys, no entanto, são perfeitos! Já "Razão e sensibilidade" me deixou um tanto inconformada com a escolha de Emma Thompson, muito "velha" pra viver Elinor. Pode parecer que não, mas acho que tira muito a credibilidade do filme.
Ana

Jane Austen transmite em seus romances uma sensualidade a flor da pele.Não vou criticar as adaptações para o cinema, pois vc esquece de detalhes pequenos, e se permite transportar a época de Lizzi,Elinor e da pórpia Jane Austen.Ela é uma escritora invejável.
Sandra Reis

Eu achei a matéria muito boa, até porque faz pouco tempo, mais ou menos uns dois dias, que eu me apaixonei por Jane Austen assistindo Pride and Prejudice, com Keira Knightley. Só descobri este mundo porque me apaixonei pelo filme e pela sua historia, sem contar a atuaçao, que é deslumbrante. A história do filme é tão triste e romantica ao mesmo tempo, então você não sabe se ve Mr. Darcy como Lizzy ve ou se o ve como um homem romantico e timido, eu achei lindo.
Letícia

e adoravel

o filme foi adoravel, sonia - paulo afonso

Não conheço a autora muito bem, na verdade ouvi falar dela a primeira vez esse mês quando vi "A casa do lago". Neste filme, a personagem de Sandra Bullock ganha um livro de seu pai e o livro é "Persuasão" de Jane Austen. No filme a personagem diz q o livro marcou sua vida...espero lê-lo e vê se acontece o mesmo!
caio tulio duque

conheci janes austen ,apartir do filme a casa do lago adorei o filme q falar sobre espera. em uma das cenas sandra buloock esquese o livro persuasao q ainda nao li mas em breve irei comprar para a preciar pois adoro livro como o dela. deixo uma dica para vcs assistam A CASA DO LAGO.
dannielle cruz barbosar

Realmente é uma autora maravilhosa!Impossivel não apaixonar-se por ela! Como muitos, descobri essa preciosidade através do filme c/ Keira Knightley e resolvi procurar o livro. Novamente amei! Espero poder ler os outros e também assistir as outras versões desse maravilhoso romance que é Orgulho e Preconceito!
Cris

Jane Austen é uma grande escritora que desenvolveu uma obra eterna e universal, pois qualquer individuo por mais insensível ou voyeur que seja procura e deseja a felicidade conjugal. Jane Austen mostra que o casamento foi e sempre será um modelo de ascensão social tanto para a mulher e nos dias atuais até para os homens. Essa busca por algo ou alguém melhor, que seja compatível com a personalidade de cada um é inevitável e faz parte da natureza humana.
Gilson

******************************* EM A CASA DO LAGO, QUANTAS PESSOAS NÃO SE IDENTIFICARAM COM O TEMA SOBRE A "ESPERA"? ESPERA QUE SEGUE O HOMEM EM TODOS OS SEUS SENTIDOS, E SEUS CAMINHOS.? PRINCIPALMENTE, A ESPERA ANGUSTIADA PELO AMOR DE OUTRA PESSOA, QUE NÃO SE SABE SE TERÁ UM DIA? TODOS NÓS, NOS ENVOLVEMOS E NOS APAIXONAMOS NESSE DRAMA. E A PARTIR DESSE FILME, COMEÇAMOS NOSSO PRÓPRIO 'FEEDBACK', TENTANDO NOS APERCEBER DE TODOS OS ATOS PRESENTES, PARA NÃO SOFRER, BEM LA NO FUTURO, POR NOSSAS DESASTRADAS PERDAS! MARAVILHOSO. IMPERDÍVEL.
BruxaRô

Sou apaixonda por seus livros e filmes,fazem nós vermos o quanto era crítica e inspirada,não aceitava injustiça ou ignorância,Jane Austen demonstrou tudo que sentia,em todas as cenas podemos perceber que estava sempre persente,isso nos faz pensar sobre os tais fatos escritos por ela e eu pra ser sincera não gostava muito de ler e esses livros fizeram eu mudar de opinião.
Tátyla

gostaria de saber quem sao estes idosos na foto, quem sao esses casais. porfafor eu preciso dessa resposta agora
monique ellen

Chandra, o filme "Emma" é uma besteira tão grande, que é auto-explicativo. Você deve ter lido o livro da Jane Austen e ter percebido o quanto essa adaptação não fez jus, em matéria de qualidade e de atuação, em especial a de Paltrow, ao original... Até Romola Garai fez melhorzinho na série homônima da BBC. Sim, livro e filmes são diferentes. Mas encontrar qualidade é bom nos dois casos.
Luana Silveira

Discordo, Emma é uma excelente adaptação. Faltaram os argumentos pra explicar porque é uma "besteira"...
Chandra

Bom, Chandra, é óbvio que você tem todo o direito à sua opinião e preferências, mas pra fechar essa discussão, vou dar a você alguns argumentos pessoais contra essa adaptação - e assim como a sua opinião, também tenho o direito à minha, obviamente: A falta de carisma do casal é um problema, assim como a pouca química entre eles e a chatice extrema de Paltrow fazendo uma Emma reduzida em suas nuances e preconceitos, só pra começar. As adaptações de Austen costumam primar por alguns cuidados que faltam neste filme aqui citado: respeito com os detalhes do universo da autora, como a ironia nos diálogos juntamente com a crítica social, sua marca registrada, a trilha sonora arrebatadora, a fotografia deslumbrante da Inglaterra do período... Nem todas as adaptações de Austen são boas, mas pelo menos em sua maioria algumas dessas características são encontradas. Menos em Emma. Pelo menos em minha opinião, volto a dizer.
Luana Muzy

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