|
 Ativistas de plantão, tremei: a série de livros anarco-ativistas Baderna, da Conrad, teria finalmente se submetido aos caprichos capitalistas? Em seu mais recente lançamento, Estamos Vencendo! Resistência Global no Brasil (2004), a editora paulistana aposta mais no consumidor de livros decorativos do que no público cativo dos escritos da esquerda ultra-moderna.
Impressa em papel couché brilhante, a obra tem 175 páginas, 85 delas dedicadas a imagens. É, portanto, um livro de fotografia e uma guinada de rumo dentro do catálogo da Baderna, onde figuram mais títulos dedicados ao texto do que ao apelo visual.
No entanto, ficou a cargo de Pablo Ortellado, doutor em filosofia pela USP, escrever a introdução do livro, um texto até então inexistente de maneira condensada sobre o recente movimento anti-globalização brasileiro. Esclarecedor, e por isso mesmo definitivo, ele reúne todos os elementos que fundamentam a nova debandada de jovens em direção às ruas, e que pela primeira vez não estão dispostos de forma fragmentada para pesquisa. Uma leitura descomplicada, inclusive para os leigos menos alienados de plantão.
Pablo explica que tão importante para a cultura pop quanto Hendrix ou Cobain, foi outra onda que também teve a cidade americana de Seatle como ponto de partida. Em 30 de novembro de 1999, conta-se que 50 mil pessoas saíram às ruas da cidade do extremo noroeste yankee, para o que se tornou uma batalha campal contra as forças policiais, empenhadas em manter a paz dos chefes de estado presentes na reunião da Organização Mundial do Comércio.
Do embate, com raízes fincadas na resistência zapatista contra o NAFTA e em reminiscências inexpressivas do movimento estudantil de décadas passadas, os manifestantes criaram seu próprio sistema de gestão dos protestos, com regras claras de influência, administração, contato com a mídia (o que se mostrou de uma importância fundamental) e criatividade e humor durante os piquetes. Tudo devidamente documentado por Pablo Ortellado.
O autor ainda é ativista do Centro de Mídia Independente brasileiro. A matriz, americana, foi criada para cobrir os eventos de 99 em Seatle de acordo com a ótica de quem esteve nas ruas, fazendo dessa maneira uma cobertura paralela e sem deturpação, diferente do trabalho que a imprensa tradicional costuma realizar.
 O Brasil entra nessa história no dia 20 de abril de 2001, quando depois de vários protestos de jovens anarquistas pelas cidades do país contra as entidades carro-chefe do capitalismo no mundo, dois mil jovens são duramente reprimidos pela polícia militar em plena Avenida Paulista, em São Paulo.
Este verdadeiro exército de mascarados, sua contagem regressiva para o início da batucada e da tomada das ruas, o quebra-pau com os servidores públicos fardados, dedos do meio ao ar contra o BankBoston e violações contra o símbolo sagrado da vênus platinada, ainda a tomada de monumentos públicos e a transformação da rua em um circo ou em um pelada de asfalto, tudo isto está histórica e maravilhosamente registrado pelas lentes do fotógrafo, e também historiador pela USP, André Ryoki, que co-assina o livro.
Como se já não bastasse, uma breve cronologia do movimento e um anexo, com os panfletos que dão vida à prática ativista, colocam um ponto final em Estamos Vencendo, frase essa que era escrita pelos manifestantes nos muros de Seatle durante aquele 30 de novembro. O mesmo lema que deve mover a editora Conrad no seu esforço de deixar menos careta as prateleiras das livrarias dedicadas às obras de história e sociologia. 15/10/2004
|