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Um dia antes de ir para Memphis, onde começaria a gravação do disco “My Sweetheart the Drunk”, Jeff Buckley disse a um amigo que gostaria de ir nadar nas caudalosas águas do rio Wolf, afluente do Mississipi. Entrou na água cantarolando Whole Lotta Love, do Led Zeppelin. Seu corpo só foi encontrado seis dias depois. Essa é uma das muitas versões para a morte de Buckley, ocorrida em 1997, morte tão triste quanto a música que ele fez, e cada vez mais sentida, em razão dos 10 anos do lançamento de sua obra-prima, o álbum “Grace”.
 Filho de outra lenda musical que morreu jovem (Tim Buckley, cantor folk vítima de overdose em 1975), Jeff buscava de todo modo fugir dessa sombra. E com uma vasta influência sonora, ele passeou por estilos tão dispares e com tal parcimônia que, além de não ter dado margem a qualquer comparação, ainda hoje dá para se surpreender ao perceber o quanto Jeff gostava de alguns sons “diferentes”. No seu primeiro EP, “Live At Sin-é”, ele dava as caras com covers de Edith Piaf ("Je N'en Connais Pas Le Fin") e Van Morrisson ("The Way Young Lovers Do"); na versão extendida do mesmo show, lançada em 2003, misturam-se MC5 (“Kick Out The Jams”) e uma brincadeira com o Nirvana (“Smells Like Teen Spirit”). Soma-se que ele era fã de carteirinha do paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, e percebe-se a miríade de sonoridades que ele repassava para suas composições.
Apesar de tudo, a aura em cima de Buckley é toda rock, e não é pelo fato do cantor ter passado algum tempo em Seattle no começo dos anos 90, embora um resquício de dramaticidade à la Pearl Jam apareça nos momentos mais pesados. Sua voz, límpida e de alma negra, passeia pelo blues, pelo jazz, pelo soul, e comove do começo ao fim. É difícil definir ou explicar, pois Jeff vai desde eruditos momentos de tenor, até furiosas interpretações a la Robert Plant – essa é uma das comparações mais recorrentes pelos críticos, e se o Chris Cornell também sofria do mesmo estigma, coitado do Jeff...
Voltando ao “Grace”: aqui, melancolia é a palavra-chave. Ouvir esse disco em momentos felizes é altamente desaconselhável, pois ele é capaz de te deixar com ânsia pela garrafa do vinho barato que você detesta, ou pelos cigarros que você nunca fumará. Até o semblante de Buckley era melancólico, como pode ser conferido no clipe da linda “Last Goodbye”, onde se tem a impressão de que a qualquer momento ele desatinaria a chorar. Se não foi dessa vez que correram as lágrimas, não consigo imaginar a faixa-título sem conceber a imensa quantidade de pessoas que não resistem à sua beleza absoluta (dedo indicador levantado!) – reparando bem, talvez o Coldplay não poderia ter parido seu “Parachutes” se não fosse essa música. Talvez “Shiver” só exista graças à “Grace”! Não é à toa que a 2ª geração do britpop (Radiohead, Muse, Travis) não se cansa de render seus tributos a Jeff Buckley.
 O álbum é cheio de pontos altos. Tomemos suas três covers: "Lilac Wine", conhecida na voz de Nina Simone e cantada com doce sutileza, a clássica e apaixonante "Hallelujah" de Leonard Cohen, e a tradicional "Corpus Christi Carol", onde Buckley assume ares de solista de coral, o colocam facilmente como um dos grandes intérpretes da década passada. E é na passagem súbita dessa delicada última canção para a grunge “Eternal Life” que fica claro o porquê de tantos abnegados fãs, dos mais diferentes meios, louvarem cada um dos bootlegs e das sobras de estúdio deixadas por Buckley.
Em suma, no seu perfeito equilíbrio entre suas muitas influências, nos seus arranjos refinados, e na sua emoção transparente, “Grace” vai ficando, como aquelas garrafas de vinho que Jeff Buckley adorava, cada vez melhor com o passar do tempo. E não se assuste com as pontadas no coração durante a audição...
PS: Quer ouvir TODA a obra de Jeff Buckley, incluindo o álbum acima incensado, as demos para seu segundo disco, e o mítico show no Sin-é? Conheça o Peyote Radio Theater do www.jeffbuckley.com. Indispensável. 23/10/2004
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