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Tem um livro chamado “Minha vida de menina”, que conta o dia a dia de uma adolescente entre 1893 e 1895, em Diamantina, Minas Gerais. Parece estranho, mas ele é extremamente atual. Se publicado hoje, provavelmente faria o maior sucesso entre as menininhas de 12 ou 13 anos do começo do século XXI. Mas — que fique claro — estes modestos apontamentos aqui vertidos não têm a pretensão de esgotar os diversos temas do livro, nem a sua inegável importância para a literatura brasileira. Têm apenas a intenção de divulgar a sua existência, no mínimo, e de atiçar a curiosidade de leitores em potencial, se tivermos muita sorte. Afinal, parafraseando Mário de Andrade, certos livros a gente tem que conhecer e gostar; “faz parte da dignidade do ser”.
 Escrito por Alice Dayrell Caldeira Brant, sob o pseudônimo de Helena Morley, o diário — forma que o livro adota integralmente — relata com simplicidade e curiosidade a vida e os hábitos de uma descendente de ingleses na província. Seu pai cuida da lavra de diamantes, sua avó lhe dá bons conselhos de vida, sua tia Madge lhe ensina bons modos. Mas não nos deixemos enganar pela aparente simplicidade do tema: o livro é dos bons, e a menina Helena tem muito mais a contar do que a maioria das adolescentes habitantes dos shoppings.
Com incrível perspicácia, Helena traça um perfil bastante curioso da vida na província no fim do século XIX. E não somente no sentido histórico, pela curiosidade e pelo valor cultural das informações trazidas através de seu diário. O livro impressiona mesmo é pela sua atemporalidade. É sincero, simples, limpo. Mas não é infantil. A autora é surpreendentemente afiada nas suas observações sobre a vida (e não só a sua vida, em particular), sobre sua personalidade em formação e sobre a comunidade em que vive.
Por outro lado, o livro serve como testemunho da universalidade da adolescência. Os questionamentos individuais que acometem os seres humanos em formação parecem não fazer distinção entre Helena, em Diamantina, 1893, e qualquer Carol, em Recife, 2004. Elas poderiam ser melhores amigas. Certamente os diários das meninas de 12 anos atualmente têm algo parecido com “Não sei se sou inteligente. Vovó, meu pai e tia Madge acham; mas só sei que não gosto de estudar, nem de ficar parada prestando atenção. Em todo caso eu gosto que digam que eu sou inteligente. É melhor do que dizerem que sou burra, como vai acontecer na certa, quando virem que eu não vou ser, na Escola Normal, o que eles esperam”.
E é uma delícia, um prazer inocente, ler a pequena grande Helena, por vezes tão voluntariosa quanto consciente, narrar suas impressões sobre festas religiosas, casos de dor de dente, superstições correntes, causos que lhe contavam velhos parentes, festas populares, medo de ladrões astutos, comidas, bebidas, hábitos sociais, decepções, padres mexeriqueiros, carnavais. Sem perder a graça, ela ainda nos brinda com curiosa crônica eleitoral que serviria justíssima para nosso presente momento (“O que eu acho mais engraçado no dia da eleição é o partido que todos tomam e ninguém perdoa o que vota contra nesse dia. É tanta animação na cidade que parece coisa que nos interessa. Acabada a eleição ninguém mais se lembra”) e considerações agudas que revelam um grau de consciência social que faria inveja aos intelectuais tão preocupados em melhorar o país. Fala de escravidão, de morte, de religião, e também de galinhas, de esperança no futuro, e de vestidinhos já gastos.
 O livro foi muito bem recebido à época de sua edição, em 1942, quando a autora já era uma respeitável vovó, e foi traduzido para o inglês por ninguém menos que a poetisa Elizabeth Bishop. Parece agora passar por uma fase de redescoberta: foi adaptado para o cinema por Helena Solberg, em filme exibido e premiado no Festival de Gramado de 2004 e estrelado por Ludmila Dayer, que, ao menos fisicamente (já que o filme ainda não chegou ao grande público), parece ter sido talhada para o papel da ruiva tão brasileirinha. Tomara que, ao menos assim, o Brasil conheça essa menina deveras interessante, que a descubra, e que cresça com ela.
O livro deveria ser leitura obrigatória nas escolas. Muito antes de chegar ao fim, você já tem a impressão de que Helena é, ou foi, muito parecida você. Que, embora em épocas e condições tão distintas, o diário de Helena tem estranha semelhança com o seu, mesmo que você não tenha nunca escrito um.
Não importa se você é uma menina ou um menino. Ou uma tia velha, ou um executivo, ou uma dona de casa, ou um estudante. Talvez o melhor do livro seja mesmo essa descoberta de que a dúvida — sobre quem somos, o que fazemos, do que tomamos parte, o que buscamos — é tão intrinsecamente humana quanto um sorriso. 08/11/2004
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Há livros que ficam nos chamando, nos seduzindo,como que se impondo,já perceberam?
Foi o caso deste, na minha vida. De repente, lá pelos idos de 1996 (mais de 100 anos depois de ter sido escrito) , ele foi citado várias vezes e por fontes tão diversas que pensei: -" Preciso ler este livro!"
Fiquei encantada! Pelos "causos", pelo humor, e pela retrato da vida cotidana no Brasil.
Para quem, como eu, leu toda a coleção da Laura Ingalls, várias vezes, foi super interessante.
Ontem, vi o filme em DVD e bem, selecionaria outras coisas se fosse fazer o roteiro.
Mas há imagens muito bonitas. E principalmente, a luz e o lugar.
Cybelle
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