Ensaio sobre a “tosquice”
Por: Pablo Lima
 
 
A caveira é a moda do rock, todo mundo já sabe, mas quando se procura em Recife, Goiânia, Porto Alegre, ou qualquer outro local onde é dito estarem os celeiros da nova safra nacional, cadê a caveira? Vocalistas encabulados e seus fãs limpinhos às vezes ditam o andar de um rock sem bom-humor, sem energia, sem tesão, sem álcool e sem direção. Enfim, o rock falido...
“A juventude está mal encaminhada com essa viadagem de emo e bandinhas que usam franjinhas e camisas pequenininhas... eles têm que ouvir muito Wander Wildner, Amado Batista, Roberto Carlos, Léo Jaime, Roberto Leal, Tonico e Tinoco pra aprender sobre música”. Leitores do Poppycorn afeitos às misturas moderninhas perpetradas por artistas que se julgam no direito de jogar em seus liquidificadores qualquer ritmo que vêem pela frente podem até considerar uma heresia a afirmação acima, dita pelo meu amigo rico Tonny Powzer, guitarrista e vocalista d’Os Pedrero. Mas é de intrigar como esse quarteto, ao invés de se contentarem com o mel, ficaram com o bagaço, e ainda assim lançaram um dos melhores discos nacionais desse esquisito ano de 2004, Cavera Y Macaco, melhor que toda mistura de drum ‘n’ bass anêmico com maxixe do mangue que muita gente finge gostar só para não perder o bonde.
Estapafúrdia a afirmação? De modo algum, ainda mais ao se considerar que ser melhor, nesse caso, não foi uma ação buscada desesperadamente, ou fabricada às custas desses endeusados formadores de opiniões do meio indie. Tonny Powzer, Big Black Bastard (bateria), Mister Rotten Wine (baixo e vocal) e Jhonny Larva (guitarra e vocal) parecem sempre querer exatamente o contrário: fazer o pior possível. Mas isso é só impressão. “Não nos preocupamos em deixar tosco ou não, saca? Procuramos deixar do jeito que gostamos, até porque assim, o tosco por natureza vai sair de forma natural”.
Bingo: tosco é o adjetivo que permeia qualquer referência mínima a’Os Pedrero. “Sobre tosquera ou não, tanto a molecada que curte nosso som, como nós também somos um bando de toscos ridículos”. Se você for olhar no dicionário, não existe uma palavra que exprime aquilo que é tosco. Tosquera, tosquice; ser tosco é tão tosco, que você acaba tendo de inventar palavras para se exprimir melhor!
Hard rock farofa, punk brega, bubblegum, hardcore porrada: seja qual for a frente de ataque, o som de cada uma das 12 faixas, embora mal-produzidas e sem firula alguma, soam absurdamente divertidas! Surpreendentemente, ao divulgar esse álbum para vários amigos, sempre ele foi bem recebido. Também, mesmo se o disco fosse ruim, seus exatos 30 minutos passam tão rapidamente que ao menos uma satisfação temporária é garantida...
O disco é metade Roberto Carlos (o Rei, capixaba como os integrantes da banda), metade GG Allin (clássico do punk podre), e metade Bon Jovi (lembra?). Matemática torta, bem de acordo com o rock analfabeto dos caras. Difícil saber qual a melhor “metade”.
A bonitinha Cuide de Mim, e a sincera Só Te Usei, que tem um clipe bem legal por sinal, são algumas das representantes da faceta bubblegum da banda. Screeching Weasel + Queers é a associação imediata. Mas o grande momento é o power pop bregaço da cover Cadê Você?, uma linda canção de dor-de-cotovelo com direito a tchuru-tchutchuuus e palminhas, e que me fez constatar como power pop é brega, e como eu gosto disso! Outra: quem é Bené Alves, pelamordedeus?
Uma banda que conta com integrantes de uma banda como o Mukeka di Rato não poderia negar sua veia hardcore, latente o tempo inteiro, seja na barulhenta faixa-título, ou na empolgante Minha Nega, ou na trilíngüe Punk Rock Girl. No meio da gritaria obtusa, um momento de sabedoria: Rock Falido funciona como a síntese da falta de diversão dos roqueiros do novo século, e como um hino para os rockers da maioria das cidades brasileiras, que em sua maioria são um poço de bom-mocismo, e onde as festas oferecem somente música ruim e mulheres frescas e cheias de não-me-toques. Esteja você em Vila Velha ou qualquer outro lugar, e fazendo uso de entorpecentes na quantidade que for, é difícil não sentir a falência do rock. Muito triste isso.
Para compensar esse fato com muita alegria, a última e mais interessante das metades: a farofenta! Desenterrando o pior do glam metal dos anos 80, ou seja, tudo, Mr. Rotten Wine canta três faixas sensacionais, que satisfazem bem mais do que aquele disco do Warrant do seu pai que você finge não gostar! Primeiro, Shirley Maclaine, ode às meninas maluquetes que fazem a vida de qualquer roqueiro mais feliz, cheia de gritinhos, refrão com várias vozes finas, e um solo de guitarra sensacionaaaaaaal de Jhonny Larva, que também interpreta o peão Tobias na novela Cabocla. Mais adiante, a engraçadíssima Ah! Eu Se Fudi e seus backings vocals femininos tem o refrão mais grudento (no mau sentido) do ano. Como deve ser terminar uma noite de bebedeira cantarolando isso pelas ruas?
Finalmente, o grande momento do álbum, a emocionante última faixa, e, é lógico, o que há de mais podre: em um baladão que é puro Bon Jovi, só que um pouco melhor, rola uma linda homenagem aos amigos ricos dos integrantes da banda, em My Rich Friends. Depois que você consegue entender um pouco do inglês macarrônico de Rotten Wine, é impossível não se impressionar (e mijar de rir) com a imponente lista de amigos ricos dos sujeitos. Bom saber que eles estão andando em tão boa companhia...
Antes esse tipo de companhia do que nenhuma. Isso ajuda a (des)construir caráter com certeza. Não se reprima: rock sempre foi e sempre será o veículo para se buscar diversão, mais do que qualquer outra sensação. E se pelo caminho você precisar passar por Sidnei Magal, ou Milionário e José Rico, ou Odair José, ou Tim Maia, ou Roupa Nova, ou Matogrosso e Matias, ou José Augusto, aproveite!
Obs.: há a promessa feita por Tonny de que o próximo disco, que no começo de 2005 começa a ser gravado, "será bem diferente, tanto as músicas como a mixagem final..." Suspense no ar!
12/11/2004
 
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