Deus Hermano
Por: José Franco
 
 
Pegando carona no genial texto do escritor pop inglês Nick Hornby, publicado no prestigiado jornal The New York Times e depois editado no jornal paulista Folha de S. Paulo, por onde tive acesso e em uma releitura do ótimo livro “Clube Dos Corações Solitários”, do não menos genial escritor pop brasileiro André Takeda; vou tentar escrever como foi e como é assistir a um show dos também geniais (desculpa a repetição da palavra, mas outra me falta) Los Hermanos.
No texto citado acima “O Rock De Todas As Idades”, Hornby pede a volta do som “que nos faça felizes por estarmos vivos”. Se o escritor do guia para o homem de 30 anos “Alta Fidelidade”, que depois resultou em filme homônimo e uma adaptação teatral no começo de 2000 através das mãos do diretor Felipe Hirsch, o ator Guilherme Weber e a Sutil Cia. de Teatro, primeiro time do teatro curitibano, a espetacular “A Vida é Cheia de Som e Fúria”, morasse no Brasil não pediria a volta, mas sim, agradeceria o surgimento de quatro bandas Los Hermanos (essa a mais velha), Ludov (a adolescente), Violins (essa a irmã do meio) e a grande surpresa Gram (essa a caçula, e que já dá trabalho, no bom sentido).
Essas três últimas citados falarei depois em outra oportunidade, agora vou me ater e tecer elogios a essa “mais velha”, o Los Hermanos. Há exatos três meses eles lotaram o Directv Music Hall (3 mil pessoas), ontem 05/06/04, lotaram a casa de shows em São Paulo, o Credicard Hall (5.600 pessoas), não tive acesso a informações referente a bilheteria sobre se os ingressos esgotaram como houve no outro show, mas muita gente estava lá de peito aberto, coração calado e camadas de roupas de frio. São Paulo marcava 9 graus.
Com atraso de 45 minutos - pausa para uma digressão, já tornou-se rotina atrasar em shows, espetáculos, peças, o cume disso foi o show dos ingleses do Massive Attack no último dia 24, quando o atraso chegou a duas horas, e mais uma vez vamos nos acostumando, sem reclamar, fazer o quê? Isso aqui é a República Das Bananas; fim da pausa para digressão - entraram no palco os fabulosos (imaginário, mitológico, admirável, esplêndido - sempre uso para esteio o já conhecido Aurélio) Los Hermanos, essa foi a terceira vez que pude presenciar uma apresentação da melhor banda nacional de rock (romântico, indie, samba - como queira chamar caro leitor) em muito tempo.
Na última oportunidade que tive de assisti-los ao vivo e longamente relatada aqui no POPPYCORN, em artigo intitulado Ursinhos Carinhosos, a apresentação foi bem melhor que esta a que me refiro neste texto, não que os Hermanos tenham perdido qualidade ou apagado a chama do bom rock, como pede Nick Hornby: “Quando eu era mais jovem, o rock expressava esses sentimentos (N.E.: felicidade, invencibilidade, esperança); agora que sou mais velho, os estimula. Mas, de um modo ou de outro, o rock era e continua a ser necessário porque, afinal, quem não precisa de uma sensação inexplicável de felicidade e um sentimento de invencibilidade, mesmo que às vezes?”
Os Hermanos sabem a receita certa de um bom... diria ótimo rock, prova disso são shows lotados e ingressos esgotados, além de convites para tocar fora do país em festivais acompanhados de grandes nomes pops da atualidade (com qualidade bem menor que a dos brasileiros aqui exaltados). Mas acho, e apenas acho que, o show poderia sofrer uma pequena mudança no repertório, uma cover aqui, uma mudança na ordem de algumas músicas ali, não que como foi e esta turnê seja errada, acho que seja apenas pessoal, e aí o problema estaria com esse pobre escriba que aqui tem a chance de se expressar, mas para registro fica a dica. Dito isso, posso agora partir para detalhes técnicos, o Credicard Hall não estava com o sistema de som legal, muitas vezes parecia baixo, outras fora de equalização, isso sem contar a grande falta de educação de uma molecada presente onde o empurra-empurra dominavam uma certa área da pista onde haviam apenas casais. Pode ter sido apenas a ausência do ineditismo, visto que fui a outra apresentação desta mesma turnê.
Fora os deslizes do destino, o show foi bom, veio mais uma vez afirmar o carisma, a qualidade de união da banda - os improvisos mostraram bem isso, e constatar que eles são a luz no fim do túnel daqueles que não acreditam mais em uma vida justa (sempre derrotados) e principalmente no rock.
 
LITERATURA POP
“Guerra. Assalto. Tortura. Uma xícara de café bem quente em um gole só. Frio. Quarenta graus centígrados. Sede. Atropelamento. Dor de dente. Gripe. Ouvir um disco inteiro do Yes. Pepinos. Morder a língua. Trabalhar no fim de semana. Vestibular. Estudar. Ressaca. Chuck Norris em um sábado à tarde. Estar perdido no meio da madrugada naquele bairro em que você jamais pensou que iria entrar, quanto mais se perder. Pessoas chatas. Vegetarianos terroristas. Cerimônia do Oscar em versão dublada. Faltar luz sem que você tivesse salvado seu trabalho no micro. Rodar de ano. O aumento do preço dos CDs.
Hoje fiquei boa parte do tempo listando coisas horríveis que podem acontecer com um ser humano. E cheguei à triste conclusão de que nada é pior do que ouvir da sua namorada, aquela que você tem certeza que é a mulher da sua vida, um 'Eu não te amo mais'.”
O trecho citado acima é do ótimo romance “Clube Dos Corações Solitários” de André Takeda. No romance ele faz a síntese dos adolescentes com 20 e poucos anos, que estão crescendo e sofrendo com a falta de perspectiva de futuro, a falta de esperança e principalmente a falta de amor honesto e verdadeiro. Posso até ser criticado por especialistas da boa escrita mas para mim este romance é uma Obra-Prima. Me transformou, me fez outro após sua leitura, assim como um bom (sem dó) pé-na-bunda me fez crescer, ficar maior.
Acredito e faço torcida para que daqui a algumas décadas algum genial acadêmico solte a frase: “- Hoje estudaremos um disco gravado há muito tempo, Bloco Do Eu Sozinho, do grupo carioca Los Hermanos. Disco transformador, simplesmente um petardo à época e porque não afirmar ainda hoje, o que dizer de “cadê teu suín-?”, crítica feroz a industria fonográfica, a pós-carnaval “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, a dilacerante “Sentimental” e a Tomahawk “A Flor”. Na próxima aula continuaremos a estudar os Hermanos, desta vez uma obra-prima do grupo, Ventura, que contém as mais belas canções escritas em bom português, “O Vencedor”, o hino “Cara Estranho”, a mais linda e romântica de todas, “Do Sétimo Andar”, e a sublime entre todas as canções, “De Onde Vem A Calma”, e para introdução à obra da banda podem consultar o não menos importante Los Hermanos, disco homônimo com as urgentes “Quem Sabe”, “Tenha Dó” e “Pierrot”." Todas essas canções, exceto a última, estavam presentes no show.
Caro leitor, desculpa a brincadeira, mas citando alguns críticos de música coloco aqui trechos de resenhas de alguns discos, que entram em contexto para definir e fazer síntese a que é o Los Hermanos: “Não tem erro. As canções representam o rock em sua versão mais lapidada: guitarra chorosa, voz lamuriosa, letra destruidora e levada encantadora. Faz, sobretudo, arte. De quanto em quanto tempo ouve-se um disco que envolve, perturba, e incita à revisão de postura? O disco é também exercício de literatura. No conto, crônica, na poesia, Marcelo Camelo, Rodrigo Barba, Bruno Medina e Rodrigo Amarante inscrevem-se como escribas de seu tempo.”
Poderia definir a noite de sábado último como mágica, ou única, mas não, prefiro dizer que aqueceu assim como um sorriso ou palavras da pessoa que você ama. Foi um presente antecipado para os namorados, uma semana antes de seu dia, para quem estava com seu par foi lindo. Eu estava só, a noite fria. Apenas a poesia dos Hermanos me aqueceram.
“Eu que já não quero mais ser um vencedor, / levo a vida devagar para não faltar amor”. “E se o tempo for te levar / eu sigo essa hora / e pego carona / pra te acompanhar”. “Os poucos que viram você aqui / disseram que mal você não faz”. “Vou levando assim / que o acaso é amigo / do meu coração / quando fala comigo / quando eu sei ouvir”. “Se existe Deus em agonia / manda essa cavalaria / que hoje a fé me abandonou”. “Eu não vou mudar não / Eu vou ficar são / Mesmo se for só, / não vou ceder / Deus vai dar aval sim, / o mal vai ter fim /e no final assim calado / eu sei que vou ser coroado rei de mim”
Sempre quando penso em Los Hermanos acredito que exista um deus vindo da Grécia antiga e não muito conhecido chamado Deus Hermano. Diante de um mundo com todos os males citados por Takeda, podendo acrescentar mais e mais, prefiro me ater e ficar calado (não que consinto), e ao cair de cada noite ouvir e repetir as canções dos Hermanos, fazendo-as de oração, pedindo justiça, paz e o mais sublime sentimento: o amor. Ficar só nesses dias frios gela a alma. Vou apertar o play.
16/11/2004
 
Voltar

Comentário dos leitores:

Nenhum comentário foi feito, seja o primeiro a comentar.

>> Clique aqui para enviar seu comentário!



    ATUALIZAÇÕES
17/06 Van Damme, a redenção [JCVD]
17/06 Katie Melua [Katie Melua - The Katie Melua Collection]
28/05 Canto de casa para todos os pretos [Lívia Lucas - Canto de Casa]
28/05 Da Lama ao Caos. [Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos]
17/04 Meio que tardio [Guns and Roses – Chinese Democracy]
DO MESMO AUTOR
   LEIA TAMBÉM
21/10/2003 Farinha do Mesmo Saco (Carlos Maltz) [Carlos Maltz - Farinha do Mesmo Saco]
26/02/2009 Espere a sua vez atrás da moita ["Carta aos loucos" e "Jonas Assombro" (Carlos Nejar)]
16/06/2004 a pior banda do mundo [O Quiosque da Utopia (José Carlos Fernandes)]
18/10/2003 Quem Se Atreve A Me Dizer? [Los Hermanos - Ventura]
06/08/2005 Reflexões Sobre a Morte (Segunda Parte) [Morte - Filosofia (II)]