Uma canção redentora
Por: José Franco
 
 
“Você acha que ainda estamos namorando”?
Até pouco tempo não entendia o que Zeca Baleiro queria dizer com a versão de “Proibida Pra Mim” do Charlie Brow Jr, ao cantar “Guerra, Guerra, Guerra” no refrão da música. Após alguns minutos de ouvir a frase acima pude perceber e desacreditar que aquilo era real e se dirigia a mim.
O escritor pop inglês Nick Hornby, em sua maior obra relata como foi o primeiro pé-na-bunda de seu mais famoso personagem, o vendedor de discos e a partir desse livro, ícone pop, Rob Fleming: “Senti uma ardência, e corei, e subitamente esqueci de como andar sem ter consciência de cada parte isolada do meu corpo. O que fazer? Aonde ir? Eu não queria brigar. Não queria ir para casa. Então, concentrando-me com muita força nos sinais que demarcavam no chão a trilha entre as garotas e os garotos, e sem olhar para cima ou para trás ou para os lados, dirigi-me de volta às fileiras cerradas de machos solteiros pendurados no vai-a-lua. No meio do caminho cometi meu único erro de julgamento: parei e olhei para o relógio, embora jure pela minha vida que não sei o que eu estava tentando enganar. Afinal, qual seria o horário capaz de fazer um garoto de treze anos desviar-se de uma garota em direção a um playground, com as palmas suadas, o coração disparado, tentando desesperadamente não chorar? Certamente que não quatro horas de uma tarde no final de setembro.”
Também cometi um erro, bem que despropositado, guardei e ainda guardo a frase lá de cima, aqui na cabeça. Erro, infantil, ingênuo, mas um erro. Ele fica ecoando dentro não apenas da minha caixa receptora de sons ou de idéias, mas do meu corpo todo, pois ele é constantemente agredido por essa lembrança.
Sei que a vida dá voltas e a dor com o tempo passa. Não esquecemos as pessoas, apenas deixamos de pensar nelas. Mas às vezes (quase sempre) esse mecanismo de defesa falha e sua imagem me volta a memória.
Sabe, caro leitor, já gostei de outras garotas, mas desta vez foi de verdade. “Eu estive tão doente nesses últimos 23 carnavais”, citando o ótimo grupo Violins. Esse era o meu estado antes dela chegar, posso dizer que em toda minha vida apenas vivi o tempo que estive a seu lado.
Citando, ainda, a bíblia ou Woody Allen em “Manhattan”: “Você é a resposta de Deus para Jô. Você teria encerrado a discussão dos dois. Ele teria apontado para você e dito: ‘Eu faço coisas terríveis, mas eu também posso fazer uma coisa bonita como ela’. E, então Jô diria: ‘Ok, você venceu’.”
Isso, é essa garota, que desta vez foi e não mais mora aqui ao meu lado. Poderia dividir meu tempo aqui entre antes de você (alegria) e depois de você (sem nenhuma alegria).
Apenas me resta recorrer a arte da música, da boa escrita, dos bons pensadores, para assim acalentar a minha dor. Não sou o melhor dos mortais, mas como escreveu brilhantemente Hamilton de Jesus Assunção do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ), em seu poema “Ser poeta é se viver”: “Sou uma pessoa boa de lidar, mas problemático no meu mundo. Desde que me conheço sou honesto, mas o meu sintoma e a vida são desonestos comigo.”
Recorrendo à clássicos: “Wish you were here” do Pink Floyd, “Como queria, como queria que você estivesse aqui/ Nós somos apenas duas almas perdidas nadando num aquário, ano após ano/ Correndo sobre o mesmo velho chão/ O que encontramos? Os mesmos velhos medos/ Queria que você estivesse aqui.”
 
UM PIANO E UMA (A) DOR
Dos grandes, e que assim sendo se tornaram únicos, momentos nesta vida que Deus me deu pude guardar alguns que ainda, nessa pouca idade, não esqueci. “Shiver” havia terminado, a banda Jon Buckland (guitarrista), Will Champion (bateria) Guy Berryman (baixo), deixam o palco, só resta um integrante Chris Martin. Dirige-se ao piano e começa o que considero uma das músicas mais tristes que já ouvi. São cinco minutos e três segundos de desalento, perda de direção, descrença no Criador. No começa a canção é solitária (é preciso ser assim), Chris e o piano pedem “Vim prá te encontrar, dizer que eu sinto muito / Você não sabe o quão amável você é / Tive que te encontrar / Dizer que preciso de você / Dizer que te deixei de lado / Diga-me os seus segredos / E faça-me perguntas”. O Coldplay já diz a que veio em sua melhor canção.
Fim de relacionamentos são sempre dolorosos, não importa a que lado se olhe, a partida traz dor.
Arthur Dapieve que me cobre direitos autorais, mas se faz necessário citá-lo novamente (a criatividade e a boa palavra me falta, então nada mais correto que recorrer a quem melhor a tem). Certa vez escreveu sobre um livro “Yossel Rakover dirige-se a Deus”, Zvi Kolitz, Editora Perspectiva, São Paulo, onde retrata um dos últimos combatentes do levante de Varsóvia, em 28 de abril de 1943. Quando levei um literal pé-na-bunda me senti igual ao soldado citado acima, saí daquele shopping cego, surdo e mudo para as mazelas do mundo, eu estava morrendo, aos poucos sendo vencido, não mais existia o Eu que você fez viver, morri, derrotado e com o peito calado. Calo diante de não mais poder dizer que gosto muito de você.
Dapieve dá voz ao soldado: “Morro calmamente mas não apaziguado, não satisfeito; vencido, batido, mas não escravo; amargo, mas não decepcionado. Como credor e como crente mas não como devedor e pedinte, não suplicando nem orando. Amoroso de Deus mas sem dizer-lhe cegamente ‘Amem’ a tudo aquilo que Ele faz.” E, acrescenta de próprio punho: “Suspeito que, por toda sorte de fatores, as frases mais importantes da História da Humanidade, aquelas capazes de mudar o rumo de uma prosa, capazes de impedir uma guerra ou de revelar uma grande paixão, jamais foram pronunciadas.”
Chris Martin, ainda só ao piano, assim como um cavaleiro solitário da dor, executa nota sobre nota, quando recebe a companhia de seus amigos de banda. Desta vez acompanhado, ainda sente-se só e pede: “Vamos voltar ao começo”.
O Coldplay em suas apresentações ao vivo ou de estúdio sintetizam o que os corações apaixonados ou solitários sentem e não conseguem expressar assim como um bom poema ou uma obra de arte. Chris só ao piano faz à vez as palavras que não possuo. Um piano e uma dor fazem de “The Scientist”, uma canção redentora e as palavras que sempre faltaram assim como disse Dapieve, dessa vez, ao menos, são pronunciadas.
16/11/2004
 
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