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Às 15h da tarde o campus da UFRJ na Praia Vermelha estava razoavelmente vazio, no máximo umas 200 pessoas esperando para ver o show que Tom Zé daria pelo projeto Trama Universitário. Com um atraso de meia hora (o que fez com que mais umas 100 pessoas chegassem ao local), Tom Zé subiu ao palco e sua primeira frase foi: "Me desculpem pelo atraso. É que eu tava maravilhado com a praia de vocês. Por favor não me despeçam por isso porque, como bem vocês bem sabem, eu sou é empregado de vocês. Eu trabalho pra vocês pra eu pagar minhas contas". Com essa frase Tom Zé mostra porque, ainda hoje, não recebeu a atenção dos meios de divulgação da forma que merecida e não é considerado grande da MPB: porque a MPB não o quer. Ele é simples demais, pobre demais e feliz demais. Lembro-me de Tom Zé cantando: "Todo compositor brasileiro é um complexado", em "Complexo de Édipo". Complexado e sério, esse não é Tom Zé. Por isso ele não pode ser chamado de compositor, no máximo, de comediante e enganador de palco, como ele mesmo se definiu: "Eu sou péssimo músico, péssimo compositor e péssimo cantor. Por isso fiz sucesso com os meus defeitos".
 O músico conversa com o público à todo o tempo, tentando manter o clima de informalidade que é comum em suas apresentações. Numa dessas conversas, ele solta: "Essa música eu fiz depois que me enterraram vivo. É isso mesmo! É porque já me enterarram vivo duas vezes... agora estou esperando a terceira", diz, se referindo ao ostracismo no qual foi vítima. Aliás, assim como o músico, também acredito que um próximo ostracismo virá para Tom Zé, dado a complexidade de suas músicas, alternando ritmos e experimentações, e de suas letras, passeando do sarcástico ao irônico, e criticando tudo o que pode de forma muito sutil e, exatamente por isso, também ácida. "Pra fazer novidades a gente tem que negar a geração passada. Tem que fazer coisa nova, né? Não dá pra ficar só repetindo, tem que tentar ser diferente, mesmo que soe estranho", e começa a tocar "Jimi Renda-se", um rock que, ironicamente, nega o próprio rock ao citar de forma cômica vários nomes conhecidos: "Bob Dica, diga, Jimi renda-se! / Cai cigano, cai, camóni bói / Jarrangil century fox / Galve me a cigarrete / Billy Halley Roleiflex / Jâni chope chope chope chope".
 Ao começar a tocar (sem ensaio prévio) "Silêncio de Nós Dois" à pedido de uma fã pra lá de animada, o público se empolgou com a música e em poucos segundos uma roda começou a se formar no meio do pátio onde acontecia o show. Briga? Tumulto? Não... era somente uma roda de ciranda que começou a rodar, rodar, rodar, e quando fomos nos dar conta, Tom Zé já tinha repetido a música umas três vezes e a roda só aumentava, tudo espontaneamente (e eu digo, ESPONTANEAMENTE). Tom Zé começou a cantar outras músicas típicas para que a roda não acabasse, a festa estava bonita demais. Deixou seus músicos cantando e tocando e, como ele mesmo não sabia as letras das músicas, ficava só animando o público, servindo o microfone para seus músicos e acertando as coisas no palco. Ou seja, de atração se transformou em roadie só para que a festa não terminasse, coisa Caetano Veloso nunca teria a ousadia (leia-se: humildade) de fazer...
Tom Zé, ao contrário de Marisa Monte e outros ícones da MPB, não está no palco para ser admirado, o palco só é necessário para que todos os vejam e lá ele não se mantém distante do público. Exemplo disso foi quando o músico notou alguns universitários tirando fotos e filmando a roda de ciranda que se formou e os convidou ao microfone: "Vocês aí, por que vocês não filmam daqui de cima? Tá muito mais bonito ver daqui". Não deu outra, vários subiram ao palco (que já não era tão grande) e por lá ficaram dividindo o espaço com os músicos da banda. Tom Zé se arrependeu de ter chamado o público ao palco? Que nada! Ele aproveitou foi para dançar perto dos seus chefes, o povo, o suficiente para que a roda ainda rodasse por mais uns 15 minutos... 21/11/2004
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