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 Eu não gosto do Natal, e muito menos da figura do Papai Noel. Podem me chamar de Grinch, se quiserem, mas o fato é que, sim, sou um desses chatos que consideram este holiday uma data triste e cada vez mais consumista. A cada ano que passa, vejo que o Natal existe para fazer com que as pessoas comprem, gastem e se finjam de boazinhas pelo menos uma vez durante o ano. Dito isso, acrescento que “filmes que se passam no Natal” tem que ser muito bons para se comunicarem comigo. Adorei Simplesmente Amor, contudo (ok, é sobre amor, mas seu contexto é natalino). Por outro lado, recentemente me decepcionei com Noel (traduzido aqui como Anjo de Vidro). Agora, depois de ver O Expresso Polar, continuo não gostando do Natal (aliás, acho até que gosto menos), mas gosto de Cinema, e isso Robert Zemeckis oferece muito em seu novo trabalho.
Concebido como uma “fantasia virtual” a partir do livro de Chris Van Allsburg, que contém gravuras interessantíssimas, O Expresso Polar chega aos cinemas surpreendentemente sem grandes promoções. Para manter a magia do universo da obra literária, Zemeckis optou por captar os movimentos dos atores e transportá-los para o campo digital. O que se vê é irreal, mas as atuações foram feitas normalmente (em cenários vazios), o que significa que as expressões vistas virtualmente são resultados de interpretações exatamente iguais, por mais que Tom Hanks tenha interpretado cinco papéis, sendo que apenas o do Condutor (e do Pai) se assemelha fisicamente ao ator. Os outros são o Garoto protagonista, o Andarilho e o Papai Noel. Segundo o próprio Zemeckis, somente com esta técnica para reproduzir ao máximo a magia do livro e suas ilustrações. Funciona? Em parte.
No sentido estético, o filme é de fato espetacular, visualmente fantástico. Final Fantasy propôs e Zemeckis aceitou. Mas, espetáculo visual por espetáculo visual, ainda prefiro Capitão Sky e o Mundo de Amanhã (excelente!), outra recente overdose digital, longa muito mais espirituoso e interessante. A atual digitalização cinematográfica amplia ainda mais seu cerco se lembrarmos que em poucos dias Os Incríveis chega às telas com seus humanos irreais. Essa tendência do “quase tudo computador” pode assustar um pouco, mas, até o momento, não dói.
 Zemeckis sempre teve um tato muito bom para imagens e para acompanhar a modernidade da cinematografia. De Volta Para o Futuro (trilogia), Uma Cilada Para Roger Rabbit, Forrest Gump e Contato parecem caminhar paralelamente à sofisticação de aspectos visuais e seus efeitos. O diretor dá a impressão de evoluir ao lado do Cinema, embora não dispense filmes mais “simples” ( Carros Usados, Náufrago, Revelação...). Aqui, o cineasta ganha de si mesmo a total liberdade para filmar, haja visto que terrenos virtuais são verdadeiros parques de diversões para diretores travessos como Zemeckis. Além do virtual aqui apresentado ser deslumbrante (mas ainda assim claramente virtual, falso), infinitamente mais excitante é acompanhar o talento do diretor para movimentos de câmera, felizes e sorridentes por poderem explorar os cenários como bem entenderem. Fazer a câmera atravessar vidros torna-se um pirulito, assim como colocar um enorme trem para deslizar sobre o gelo. Momento particularmente brilhante é aquele em que um bilhete percorre grande distância, sem cortes (obviamente, aparenta ser uma referência à peninha de Forrest Gump), e ver uma águia praticamente beijar a lente da câmera me fez arrepiar. Também há lições de como montanhas-russas deveriam ser. Ao que consta, o longa custou mais de US$ 150 milhões, mas em outras circunstâncias teria custado muito mais, pelo que dá a entender.
 Só que, apesar de ser praticamente impecável nos quesitos visuais, o Natal de O Expresso Polar me incomoda. Me incomoda a ponto de tentar enxergá-lo somente como mera aventura infantil. Difícil, levando-se em conta que toda a imaginação cultural de um “consciente coletivo” em torno do Natal dá as caras por aqui (renas, trenó, sacão de presentes, guizos, Papai Noel, elfos-duendes, musiquinhas natalinas, etc). Fora isso, há criaturas interessantes, como um enigmático “Vagabundo Fantasma”, às vezes dando a entender que é o próprio Papai Noel disfarçado, ou simplesmente assustadoras, como os elfos (estranhos... muito estranhos...) e a versão élfica de Steven Tyler, vocalista do Aerosmith (assustador e interessante – merecia participação maior).
No fim, percebe-se que O Expresso Polar é uma lição de moral carimbada, diferenciando-se das demais por ser estilizada. Mas, como um todo, o filme pareceu-me um espírito de Natal distorcido, uma grande e colorida valorização do consumo e dos presentes de fim de ano. Ocorre, também, uma estranha utilização de um garotinho pobre, com dificuldades em se enturmar com o restante da molecada e que não vê nada de bom no Natal. E eu, que sou muito bom para interpretações malévolas, vi nisso um tipo de olhar discriminativo por parte do filme, como se o Natal estivesse ao alcance apenas de pessoas monetariamente favorecidas, com poder para comprar e satisfazer seus desejos consumistas. Certo, pode ser paranóia do euzinho aqui, mas o filme tem essas brechas. O garotinho pobre ganha presentes, mas presentes não encerram pobreza e nem tristeza. São, no máximo, uma injeção de ilusão e ingenuidade.
 Pólo Norte à vista, e a impressão que se tem é a de uma cidadela industrial, sonho de qualquer empresário. Muitas fábricas, muitos presentes e muitos elfos trabalhadores, visão um tanto surreal e meio isolada de uma idealização capitalista. Um elfo chega a dizer que “tempo é dinheiro”, e a cerimônia ocorrida em um eterno “cinco para meia-noite” mais se assemelha a uma abertura de Jogos Olímpicos. Eis então que, finalmente, chega o patrão, Papai Noel, recebido como um popstar pronto para os autógrafos. Muito bom em sermões elegantes, o velhinho me fez pensar se um Noel muito melhor não seria Gandalf, com trenó puxado por Scadufax. O gorducho barbudo, certamente milionário e de forte apelo econômico ( shoppings centers estão aí para comprovar), chega a dizer que "amizade é o melhor dos presentes", mas todo 25 de Dezembro sai voando por aí para distribuir presentes, todos reunidos em um enorme saco vermelho (e, ora vejam só, o saco do Papai Noel é mesmo muito grande). Como bom político, Sr. Noel tenta enganar, mas é um porco capitalista, promoter de um pão-e-circo interminável. Sim, amizade é “o melhor dos presentes”, mas o que o moleque pobre quer mesmo é o presente, material que exibe orgulhosamente em sua última cena.
 Fora do trem, O Expresso Polar perde um pouco do fôlego (inclusive na estética), talvez porque crave de vez suas garras no “aprender com o Natal, consumir e ser feliz”. Ao final, sensação ambígua do que foi visto até então (sonho?) faz com que o longa ganhe pontos a mais. No fim do trajeto, um bom filme, não obstante suas pequenas falhas morais (intencionais ou não) e a ausência de emoção (para moi, claro). Zemeckis me presenteou com um belo guizo, mas não escuto barulho algum.
Filme visto no Alvorada Cinema
Cine Stadium Center - Shopping Flamboyant
Dezembro/2004 - Goiânia, GO 07/12/2004
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