10º Goiânia Noise Festival - 3ª noite, 12 de dezembro
Por: Fabrício C. Santos, Júlio Ibelli
 
 
Apesar de bombástica no saldo final, a última noite do Noise começou morna, novamente com os ensinamentos da tríade Cobain/Cornell/Vedder a ecoar quando o Lake (GO) entrou no palco. Grunge até a medula, pra bem ou para mal.
A coisa melhorou em seguida com a banda de virtuosos dos goianos ZenTropa e o seu power-rock de levada impressionante. Música e show interessante, para prestar atenção, como demonstra a curiosa versão da música francesa “Le Coier Qui Jazz” (corrijam-nos se estivermos errados), dos anos 60, um jazz francês a la motel que no Zentropa virou rock. Ainda com suas guitarras dissonantes e uma vocalista que segurou as rédeas do grupo, Bianca Jhordão, do Leela, já pode se preocupar em perder o posto de mais carismática vocalista do rock independente brasileiro
Distantes no aspecto físico, os paraenses do Eletrola, terceira banda da noite, mostraram-se mais do que afinados com a música comercial das rádios. Prova de que ainda existe vida inteligente no dito circuitão brasileiro. Pois essa prova teve que vir de longe, das 36 horas que separam Belém e Goiânia de ônibus.
Os cariocas do Billy Goat aparecerem como a resposta brasileira ao Live. Parecidos até demais com a banda gringa, resta saber se eles beberam nessa fonte ou não. Destaque para o vocalista: reencarnação de Raul Seixas no Pyguá.
Viva o punk-rock sem preconceito!, foi o que gritou no microfone um expectador do show dos paulistanos glam do Daniel Belleza e Os Corações em Fúria, no intervalo entre uma música e outra da banda, antes de dar um mosh em cima da galera. A atração mais procurada da noite juntava a primeira multidão daquele domingo em frente ao Yguá. As expectativas foram atendidas e este periga ser um dos melhores shows do festival. A equipe PoppyCorn, que passou longe das aulas de matemática e estatística, contabilizou 132 mosh durante a apresentação.
Na noite do ‘rock sem melancia no rabo’ (vide Cachorro Grande, headline do dia 12 ao lado do Bidê ou Balde), os goianos do Barfly entraram em cena com O indie-rock (é bom deixar frisado o rock) também sem melancia no rabo. Levada Oasis bem gostosa, com destaque para a matadora cover de Our Time is Running Out, dos britânicos Muse.
Com a abstenção do Deceivers, do Distrito Federal, a segunda e última de todo o festival, a multidão mais histérica de toda esta edição do Noise se aglomerou frente à entrada do Pyguá para ver os Ramones brasileiros, os gaúchos do Tequila Baby. A exaltação do público era tamanha, que em dado momento havia cinco seguranças em cima do palco, tampando totalmente a visão do público que, além de ouvir, também queria ver a banda.
Depois foi a vez do Jumbo Elektro, de São Paulo, deixar meio confusa a platéia com a mistura da sua dance music meio Rapture com o que pior os Pet Shop Boys já fizeram em matéria de batidas e pianinhos. Ainda sim, um ‘climão’ que lembra uma coisa meio The Music. Os goianos do Rollin’ Chamas e Réu e Condenado precisam aprender urgentemente como fazer graça com o Jumbo.
Com o MQN (banda de Fabrício Nobre, da Monstro Discos) no palco do Pyguá, a segurança tomou conhecimento do que se trata o caos em shows de rock. A platéia extasiada invadiu o palco e deixou Fabrício, vocalista da banda, atônito. Ele precisou se apoiar na bateria para conseguir ficar de pé, sem muito sucesso.
Os goianos do Valentina trouxeram o seu híbrido brasileiro de Placebo numa versão mais punk-rock ao Noise, com direito a vocalista-sósia. Houve uma resposta quase que sagrada do público ao show da banda.
Já próximo ao fim do festival, Detetives, banda de São Paulo, chegou ao palco do Noise despertando certa ansiedade, com um “sonzinho preparação”, que rapidamente se transformou em satisfação ao escutar o rock maduro e decente do grupo. O show correu bem, inclusive fazendo crer que poderiam oferecer mais ousadia, impressão eliminada próximo ao fim da apresentação, quando, sim, ousaram. Thunderbird apareceu em certos momentos para dar auxílio vocal.
As portas do Yguá se abriram pela última vez e houve correria para pegar um bom lugar na frente do palco. Quando o levante sulista que marcaria o fim do Noise surgiu com os mais que hypados Cachorro Grande, os seguranças tiveram que segurar as caixas de som que traziam a resposta dos instrumentos tocados e da voz de Beto para a banda, porque a platéia entusiasmada ameaçava empurrar os equipamentos para o meio do palco.
O show do Cachorro Grande foi quase como uma adoração. Quem estava no gargalo e tinha a chance, aproveitava para sentar em cima do palco e acompanhar bem de pertinho a performance. Com isso, literalmente, o palco ficou pequeno. Fabrício, do MQN, brindou a todos com uma participação especial nos vocais. Trinta minutos históricos em Goiânia, para constar na nova história do rock brasileiro.
Precavida, quase toda a segurança do Noise se portou em frente ao palco onde aconteceria o último show do festival, dos também gaúchos Bidê ou Balde. E foi sábia a decisão, senão teria sido mais um show interrompido. A ‘culpa’ não era da platéia, bom, em parte era, mas com um petardo como Carlinhos, vocalista do Bidê, em cima do palco, era de se esperar uma química explosiva rolando entre banda e público. O próprio Carlinhos tomou conhecimento da situação e pediu calma à galera.
Foi outra apresentação fabulosa. Desfilaram hits como Melissa, Bromélias e Cores Bonitas, além das novas É Preciso dar Vazão aos Sentimentos (nome também do cd recém-lançado pela banda) e Hoje, regravação do Camisa de Vênus. Com banda que toca com toda a dedicação do mundo para os expectadores é assim: sucesso na certa. Com festival feito por gente que realmente gosta de música, e não se preocupa tanto com o lucro, também é desse jeito.
 
* Com colaborações de: Elder Rezende e Fábio Theiss
Fotos: Henrique Junqueira Campos
 
24/12/2004
 
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