Por que não se render?
Por: Pablo Lima
 
 
2004 foi prodigioso para a cena alternativa capixaba: além da explosão emetiviana dos astros do Dead Fish, vários outros nomes surpreenderam lançando interessantes álbuns, das mais variadas vertentes. Guitarria e meus favoritos d'Os Pedrero já foram notícia aqui no PoppyCorn, mas Mukeka di Rato, Merda e Chuck Norris também ajudaram a criar essa cena, essa aura de eldorado hardcore que Vila Velha e Vitória vêm delineando. E esse Bem Vindo, Inverno coloca o Take Me no mesmo trem de seus conterrâneos, de modo cativante e preciso.
Num passado pouco distante, 1998, 1999, o Take Me desaguava no rio do emocore, que começava a dar as caras de forma mais incisiva na cena musical brasileira. Em 2000, foram deixadas de lado as letras em inglês e as tendências instrumentalistas, até que o som feito por Jean Dias (vocal e guitarra), Jorge Fernandes (baixo) e Marcelo Buteri (bateria) atingiu um ponto de mais maturidade, buscando tirar o máximo possível do formato power trio. Aquele ponto ideal de competência cristalina, onde se é básico sem ser simplista, fácil sem apelar.
Aproveitando a influência confessa: sempre que você escuta um álbum novo do Foo Fighters, sempre há a empolgação inicial com os hardcores estridentes, e a emoção de ouvir os baladões com gosto de FM das antigas. Mas sempre sobram aquelas músicas que não chamam tanto a atenção a princípio, mas que aos poucos vão se nivelando com os hits, e após alguns dias te deixam com a satisfação de ser fã duma das (poucas) bandas que importam no rock moderno americano. Os exatos 44 minutos e 44 segundos de Bem Vindo, Inverno trazem uma coleção de canções que seguem um mesmo padrão, por sorte de qualidade, quase como essas músicas menos badaladas dos Fighters vertidas para um português prático e direto. Pode até demorar um pouco, mas esse álbum termina por cativar com sua simplicidade marcante.
Claro, existem outras influências, como Sparta e Jawbreaker, mas o que mais se denota nesse trabalho, ainda mais ao se ouvir faixas um pouco mais moderadas, como "Ontem e Hoje" e "Polaroid", é que o Take Me poderia perfeitamente atingir o patamar de sucesso que vêm sendo alcançado por bandecas anódinas que se proliferaram em solo americano e agora tentam fazer estrago aqui no Brasil. O Take Me assimila a proposta pós-grunge com muito mais competência e decência. Foo Fighters não é phoda, e Three Doors Down não é tenebroso? Um paralelo desses poderia ser traçado entre o Take Me e, desculpa, Reação em Cadeia...
Apesar de uma certa homogeneidade entre as faixas, um ou outro destaque pode ser pescado. A faixa de abertura "Legado" já mostra as características principais presentes no disco: riffs cativantes, refrões bem construídos, e letras pessoais que vão direto ao ponto, casando-se de pronto com as imagens impessoais e melancólicas que adornam a arte do encarte. O hit "Astro" é delicioso, e mostra bem como todas as influências antigas foram bem assimiladas e diluídas. Já a faixa de encerramento, "Render-se", é o ápice instrumental do álbum, com todos os instrumentos aparecendo de modo notável, "para não ser sem gosto, pálido e sem sentido". Muitas cores, muitos sentidos.
"Submerso" traz peso e empolgação a um cenário de "céu tão verde, pulmões a explodir". Não há mais dúvidas sobre o retrato de melancolia sendo pintado. Na metade recitada de "Strada", é dito que "tudo isso só vem dar nome à minha tristeza... e eu ainda consigo ver beleza em me sentir assim..." E quando Jean canta na melhor das faixas, "Ponto de Fuga", que "não vai haver ninguém aqui pra me salvar", é que o disco chega ao seu momento mais preto e branco, e o inverno chega para tapar o sol que reluz fora da janela. Seja bem vindo!
O rock básico é força motriz para qualquer alma, mas estão tentando passar rock sem alma como combustível para essa nossa geração coitada. Vale, e muito, o convite do Take Me: "porque não se entregar de olhos fechados e confiar?"
19/01/2005
 
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