|
 Hunter S. Thompson não foi apenas o gênio e o louco por trás do jornalismo Gonzo, ao escancarar a já próxima relação entre repórter e fonte que permeia a modalidade literária da profissão. Ele também não precisou de muito para transformar a sua coletânea de crônicas - A Grande Caçada aos Tubarões – Histórias estranhas de um tempo estranho (Conrad Editora, final de 2004) - em um documento histórico sobre os Estados Unidos de 40 anos atrás.
E inclua o jornalismo que era feito naquela época dentro deste contexto. Pelo menos o jornalismo que Thompson praticava. Enquanto carregamentos de cerveja e drogas chegavam à sua casa para aplacar o cansaço das horas ininterruptas de trabalho, havia um editor da Rolling Stone no seu pé e toda uma equipe na redação da revista trabalhando para organizar os textos do Dr. Gonzo, assim como ele descreve no livro.
Como se não bastasse, o trecho de uma nota do editor revela o potencial de sandice de Thompson: “Durante um período de quatro dias em Washington, ele destruiu dois carros, rachou uma parede no Washington Hilton, comprou duas trompetes de 1.100 dólares cada e atravessou uma porta de vidro num restaurante turco”. O jornalismo perdeu todo o seu romance com Thompson, talvez o real responsável por acrescentar a palavra hard antes de news.
 Todo esse estilo ‘curtindo a vida adoidado’ de ser era alimentado pelo encontro bombástico da mente inquieta de Thompson com o surto das drogas que acometeu a Califórnia da metade do século passado em diante, ocasião também registrada no livro. Esse casamento lisérgico deu a luz à obra-prima do autor, Fear and Loathing in Las Vegas, de 1971, e alguns trechos deste livro foram acrescentados n’ A Grande Caçada. Uma oportunidade imperdível, já que Fear and Loathing não consta na lista de lançamento de nenhuma editora para 2005.
Mas Thompson não foi o transgressor da moral e dos bons costumes em tempo integral, o que pode ser comprovado pelas fervorosas críticas que ele produziu contra o governo Nixon, uma unanimidade tão latente quanto Bush em questão de incompetência. Os editores americanos e brasileiros optaram por manter a longa e tediosa descrição que o autor faz do escândalo Watergate n’A Grande Caçada.
E mesmo Thompson reparou na apatia que a história causava na população: “Milhares de pessoas em todo o país estão escrevendo para as emissoras exigindo que esse maldito pesadelo entediante seja tirado do ar para que elas possam voltar para suas novelas preferidas (...) Elas estão entediadas com o espetáculo das audiências de Watergate. O enredo é confuso, dizem. Os personagens são chatos, e o diálogo é repulsivo”.
 E como não poderia deixar de ser, nem a cobertura de um dos maiores escândalos na política norte-americano passaria ilesa à porra-louquice tão característica de Thompson. Ele passeava pelos corredores do local onde aconteciam as audiências de Watergate com a credencial de imprensa em uma mão e a garrafa de Carlsberg na outra.
No mais, o livro é de um atrativo especial para nós latino-americanos. A obra também reúne as matérias que Thompson escreveu durante os sete meses em que esteve entre o povo da América que fala espanhol e português, a serviço do periódico National Observer. A tentativa de apresentar os problemas do nosso continente de uma forma pasteurizada, ligando os pontinhos dos incidentes isolados que acontecem em cada país, se mostra bastante útil.
Assim, a partir do exemplo da instabilidade política no Peru, Thompson traça o itinerário da democracia delirante e do avanço dos governos militares entre os nossos vizinhos, desde a Argentina, passando pelo Brasil, até a Venezuela. Do Peru ainda vem uma história sobre o total estado de abandono da questão indígena pelas autoridades, e do Brasil, uma passagem sobre violência urbana na época da ditadura. O olhar de fora que faltava para nos dar mais uma pista de quem realmente somos.
 Thompson ainda passeia pelo cotidiano e conturbações internas de seu país natal, um refresco à leitura sobre o seu constante abuso de drogas, que já enjoa logo na metade do livro. É mais fácil tomar um porre abrindo A Grande Caçada aos Tubarões do que se dar ao trabalho de abrir uma dúzia de latinhas de cerveja. Ainda assim, para quem redigia chapado, é difícil encontrar alguém que alcance a sua inigualável qualidade de escrita, coisa que acaba ficando tão evidente neste livro. 20/01/2005
|