Greetings from the Third World: 10 anos de Roots
Por: Jairo de Souza, André Bisk
 
 
A música pesada, na conjuntura atual, consegue facilmente mesclar técnica, peso e ainda flertar com o mainstream mais explicitamente, tocando em trilhas sonoras para filmes e novelas. Esse fenômeno deve-se a macrovisão de alguns músicos, que largaram das tradições, optando em fazer metal de forma criativa, original e de forma ousada.
Independente da opinião pública sobre este estilo musical, é inegável que tal audácia gerou um lampejo de genialidade tamanho que inúmeras bandas tiveram influência direta desta inspiração. Várias delas comporam obras memoráveis, mas para nosso orgulho, talvez a maior delas é brasileira. Nada pode ser comparado ao genial "Roots" do Sepultura.
Apesar de ser oficialmente lançado em 1996, seu projeto teve sua pedra angular em 05 de novembro de 1995, na visita da banda ao Mato Grosso, na aldeia dos índios Xavantes. Este trabalho se tornou um exemplo de como uma banda de música pesada pode chegar ao seu ápice de criatividade, utilizando elementos completamente atípicos. Inovador, trouxe à cena internacional a inclusão de ritmos tipicamente brasileiros como o samba e a timbalada. "Chaos A.D.", trabalho anterior, já mostrava claramente o direcionamento musical de seu sucessor.
 
A CONCEPÇÃO
Can't you see/can't you feel/this is real
(Roots Bloody Roots)
 
Gravado no famoso estúdio americano Indigo Ranch, "Roots" tinha o destino de ser um divisor de águas: as melodias foram gravadas com instrumentos antigos para obter timbres mais sujos e pesados, além de instrumentos artesanais, mudando um bocado o som do Sepultura. Jairo Guedz (guitarrista da banda nos álbuns "Bestial Devastation" e "Morbid Visions", e atual baixista do Eminence) reconhece a diversidade e carinho com que "Roots" foi arquitetado: "É um álbum revolucionário. Desde a pré-produção nos ensaios da banda até a finalização do álbum nós podemos sentir a força da banda e o carinho dispensado a cada elemento do disco. A mixagem e a masterização, a produção e as inovações no estilo da banda. Acho que este é o melhor trabalho dos caras. Estava nos EUA quando estavam mixando e finalizando o disco junto com o Andy Wallace e pude acompanhar cada detalhe. Também estive no escritório da Roadrunner quando o A & R da banda estava montando e escolhendo com eles o trampo gráfico do CD, que é simplesmente maravilhoso e bate em cada detalhe com as músicas contidas no álbum. Bom, vendo estes dois processos de finalização em 95/96 eu entendi depois porque este era para ser o maior trabalho dos caras. Mais uma vez, o carinho e o profissionalismo que regem cada processo deste disco é surpreendente, e merece todo o respeito do público, da mídia especializada e de nós músicos".
 
DIRECIONAMENTO MUSICAL
Open up your mind/And go your own way
(Breed Apart)
 
"Roots", por ser um trabalho absolutamente diferente de seus antecessores, dividiu seu público que, enquanto muitos criticavam a banda por se distanciar do Thrash Metal característico, outra parte exaltava a ousadia do conjunto mineiro, considerados agora uma das bandas mais importantes da década de 90. Segundo alguns, o disco foi o pioneiro num novo estilo, o folk metal. Verdade ou não, a influência da sonoridade de "Roots" refletiu em outras bandas que começaram a agregar a seu próprio estilo os tambores tribais e timbres sujos. Tom Araya, vocalista/baixista do Slayer, chegou dizer que ficou seduzido pelas batidas, e quase a incorporou ao som da banda californiana. Outros músicos tem uma opinião formada sobre "Roots". Marcelo Castro, do Necromancia, exalta a importância do trabalho: "Um disco que foi um marco tanto para a música brasileira como para o metal mundial. Foi a primeira mistura musical e levadas brazuca bem sucedida, numa fase inspiradíssima do Sepultura. Foi uma grande influência para uma geração de bandas no mundo e isto inclui o Necromancia".
Músicos de outras vertentes do metal como Rafael Gama, do Avec Tristesse, que apesar de não ser adepto do estilo, reconhece a energia e força de "Roots": "Eu comprei o disco mais ou menos na época em que ele foi lançado, influenciado por amigos que diziam que o som era muito legal. Realmente quando eu escutei o CD achei bem interessante e empolgante. (...). Não sei dizer se esse disco me influenciou ou não, vai entender o inconsciente humano... Se não me engano, é nesse disco que o Sepultura faz um cover do Black Sabbath (Symptom of the Universe) que eu achei ótimo, uma pegada diferente da música original e com um clima maravilhoso na parte acústica no final". Mesmo músicos de outras vertentes, como a compositora neozelandesa Carla Werner nos mostram que não havia limites para o reconhecimento da banda: "'Roots Bloody Roots' era uma grande música de uma grande banda brasileira. Eles eram legendários por aqui [N.E.: Nova Zelândia] e ainda são". POu, do KiLLi, também tem este mesmo sentimento: "Acho que sou a inlfuência mais heavy metal do KiLLi. Ouvia bastante Sepultura, mas não era um fã de carteirinha. Esse CD veio numa importante época, onde eu estava decidindo o que eu queria realmente fazer. (...) Gosto muito de Sepultura e ouço até hoje, pena eu não ter a mesma potência e habilidade para tocar bateria como o Igor".
 
EMBAIXADORES DO TERCEIRO MUNDO
I'll take you to a place/Where we shall find our/Roots Bloody Roots
(Roots Bloody Roots)
 
Inegavelmente, com a boa repercussão do álbum, o Sepultura carregou junto de si em suas turnês (principalmente na turnê que deu origem ao maravilhoso trabalho ao vivo "Under a Pale Grey Sky") algo a mais do Brasil, sua cultura rica e miscigenada, muito mais que os já conhecidos "produtos de exportação", como o carnaval e o futebol. Levou ao cenário mundial como fazer música pesada sem clichês e utilizando instrumentos que nem o mais insano dos metaleiros ousaria utilizar, de berimbau a botijão de gás vazio. As letras agora falavam de um país que buscava suas raízes, da preservação de sua natureza e da luta contra as memórias de um período negro de torturas e censura, como a ditadura militar. Através dos furiosos vocais de Max, o mundo observava que o Terceiro Mundo tinha uma voz. E que voz! André Dellamanha, da revista especializada "Roadie Crew", estava no exterior quando "Roots" foi lançado, e sabe bem qual era a imagem da banda em terras estrangeiras: "Lembro-me como se fosse hoje quando o Sepultura lançou o 'Roots', que por incrível que pareça, em 2006 fará 10 anos. Eu estava em Londres e primeiro foi lançado o single 'Roots Bloody Roots'. Comprei os três formatos deste single, voltei para o hotel e não acreditei no que eu estava escutando! Aquilo foi a coisa mais insana que eu havia escutado até então! Naquela época, o Sepultura era a maior banda do momento, após a turnê do 'Chaos A.D' e em todos os lugares do mundo que eu ia, ao dizer que era brasileiro, me perguntavam primeiro sobre o Sepultura do que sobre o Pelé! Talvez muitas pessoas tenham ficado chocadas quando a banda lançou o CD, até então seu álbum mais variado, ousado e cheio de elementos diferentes de todos os lados. E daí? Hoje em dia você escuta influências daquele álbum em centenas de novos nomes do metal mundial, o que se reforça a idéia de que o quarteto brasileiro sempre esteve um passo a frente do seu tempo, e nunca se repetiu de um álbum para o outro. Todo o conceito de 'Roots', misturando a cultura brasileira ao som agressivo da banda, deixou um legado impagável na história da música, com faixas imortais como 'Ratamahatta', 'Straighthate', 'Spit', 'Born Stubborn' e a própria 'Roots Bloody Roots', um dos maiores clássicos da música pesada até os dias de hoje".
Outro fato importantíssimo é de que com "Roots", o Sepultura realmente buscou as suas raízes, se voltando mais para a política do país, conseqüentemente, seus shows em terras tupiniquins eram mais freqüentes como confirma John, do Pato Fu: "Pra mim, o que impressionava no Sepultura dessa época era ver a magnitude que a banda alcançou, a incrível presença de Max e as lembranças que eu tinha desses caras, uns moleques que tinham a maior banda de heavy metal de BH nos anos 80. 'Roots' também marcou uma época em que começou a ser mais fácil vê-los por aqui. Acho que o som se voltou um pouco pro Brasil, assim como a própria banda".
Um dos maiores trunfos que permitiram ao som de "Roots" ser mais familiar à cultura brasileira foi a inclusão de algumas participações especiais, como a família Gracie no vídeo de "Attitude", da Timbalada no vídeo de "Roots Bloody Roots" e citações de heróis em "Ratamahatta": Zé do Caixão, Zumbi dos Palmares e o cangaceiro Lampião. Porém a participação mais relevante foi a de Carlinhos Brown, que ajudou na composição de várias músicas e de manipulação de instrumentos quase artesanais.
O Sepultura fez mais que um álbum genial. Recriou uma visão, fez uma reeleitura da música pesada, que até nos dias de hoje é honradamente lembrada, como diz Alan, guitarrista do Eminence, em palavras sábias: "sem dúvida nenhuma é um dos melhores álbums de metal da história, se você coloca o CD hoje em dia para escutar, ele soa bem atual". Todo estilo tem seu criador (ou o principal criador), sua estrela (aquele que consegue divulgar o estilo para o grande público) e seu revolucionário. Na música pesada, o Sepultura conseguiu ser revolucionário. E a história prova que isso não costuma acontecer com tanta frequência.
12/02/2005
 
Voltar

Comentário dos leitores:

Sem Duvida nehuma, este foi o melhor album de metal dos ultimos 10 anos, não fizeram nada(dentro do Heavy Metal) que possa superar. E acho dificil fazeram. Este album foi um tiro certeiro no peito do Heavy Metal!!!
Fábio

EU curto esses caras há muuuuito tempo! e o Roots foi realmente especial, ouvi-lo na época em que foi lançado e ainda hj me faz sentir orgulho do Brasil e principalmente desta banda fantástica! pode parecer engraçado mas Roots bloody Roots me emociona, dá pra sentir sinceridade e coração nessa música, ela e o disco todo são DE FUDER!!!
wellington

Roots foi o disco mais revolucionario q eu já escutei, com uma produção impecávél e as idéias mais insanas, ainda não foi superado!
samirbretas

>> Clique aqui para enviar seu comentário!



    ATUALIZAÇÕES
17/06 Van Damme, a redenção [JCVD]
17/06 Katie Melua [Katie Melua - The Katie Melua Collection]
28/05 Canto de casa para todos os pretos [Lívia Lucas - Canto de Casa]
28/05 Da Lama ao Caos. [Chico Science & Nação Zumbi - Da Lama ao Caos]
17/04 Meio que tardio [Guns and Roses – Chinese Democracy]
DO MESMO AUTOR
   LEIA TAMBÉM
21/10/2003 Nation (Sepultura) [Sepultura - Nation]
21/10/2003 Agora sim! Mas porque não o fizeram antes??? [Sepultura - Roorback]
22/07/2006 Muito além do lugar-comum [Sepultura - Dante XXI]
21/10/2003 Álbum saudosista e de extremo vigor, com Max no vocal [Sepultura - Under a Pale Grey Sky]
21/10/2003 Disco de covers soa "diferente" aos ouvidos dos fãs da banda [Sepultura - Revolusongs]