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“Radiohead é digno de pena, sem tutano, uma caricatura covarde de banda de rock”.
 Se o clássico do caos/máquinas “OK Computer”, que é a união entre sons esparços, barulhinhos ora irritantes, ora agradáveis e instigantes, marco na carreira do Radiohead, o melhor disco de todos os tempos segundo uma respeitada revista inglesa (e este humilde escriba) era nota dez, este “Haill To The Thief” é nota: 9,9. Só o tempo vai dizer se ele é melhor ou não que seu irmão gêmeo de 1997. Uma coisa é certa ele está bem próximo disso.
Ano dois mil e três depois de Cristo, as máquinas são presença constante em nossas vidas, não há como negar, de cartões de crédito a bilhetes de ônibus. O visor do aparelho de som marca 1 minuto e 53 segundos, faixa 1 do mais recente desafio/presente da melhor banda do mundo (traduz-se: criativa, instigante, interrogativa, constante, desconfortável...) o Radiohead. O que vem no segundo depois é o que os fãs/seguidores desta banda esperam por seis anos: (desde “Ok Computer”, clássico absoluto da junção melodia + barulhinhos + paranóia + quebra de refrão + música eletrônica) guitarras, guitarras, guitarras. As caixas de som pulam à frente com uma parede de guitarras, Thom Yorke, Jonny e Ed O´Brian, fazem o coração do ouvinte pular a boca e com um grito agradecer a volta delas que fazem do rock ser o que é. “2+2=5” primeira música de “Hail To The Thief” coloca um sorriso no rosto do ouvinte que há muito tempo não sentia a presença das guitarras na música do Radiohead.
Caras estranhos
Depois de três anos sem lançar nada, o Radiohead viria a público nos propor um desafio, esquecer “OK Computer” e tudo o que a banda fez e querendo nos falar algo como “Não gostem mais da nossa banda” (algo impossível, é claro) lançaram “Kid A” (2000) (uma homenagem ao primeiro ser humano clonado) um álbum estranho, desconfortável até. Lembro que quando ouvi pela primeira vez pensei que sir Thom Yorke e cia haviam dado um tiro na cabeça e morrido junto com o disco anterior, por semanas recusei aceitar que aquele era o disco que esperava impaciente há anos. A primeira faixa, “Everething In Its Right Place”, me deu tontura, dor de cabeça, desapontamento, decepção; teclados, murmúrios, vocais quase indecifráveis. Difícil, ainda mais quando a segunda faixa “Kid A” não ajudava. Thom Yorke, antes gênio, agora louco, cantava palavras que mais pareciam sair de uma máquina, um robô triste e sem esperança (!) de futuro. As outras tentativas (o desafio estava lançado) eram uma incógnita, “The National Athem” me deu sinal de que o velho Radiohead estava ali presente naquele disco, algo parecendo guitarras entram na música depois de um sinal sonoro, minutos se passam e o vocal entra indicando que a festa vai começar, minutos depois um jogo de metais entra e estraga a festa dos roqueiros de plantão. 
Na faixa oito, a ótima “Idioteque”, um drum n' bass insano e hipinotizante me dá as esperanças de que o Radiohead resolveu seguir um outro caminho. O que havia sido um teste no disco anterior, a junção de eletrônica ao rock havia se tornado uma escolha para o daqui pra frente, todas as outras tentativas de entender esse labirinto que a banda havia entrado não deram certo. “How To Desappear Completely”, “Treenefingers”, a linda “Motion Picture Soundtrack” mais pareciam fazer parte de trilha sonora de um filme ainda não rodado, “Optimistic” e “Morning Bell” mostravam resquícios do Radiohead de antigamente, mesmo com vocais murmurantes Thom ainda emocionava exalando beleza de onde antes (isso durou semanas) havia desespero e dúvida.
Menos de um ano se passou e o Radiohead está de volta com “Amnesiac” (2001), Thom Yorke explica o título do novo desafio: “Quando nascemos, somos forçados a esquecer de onde viemos para poder lidar com o trauma da chegada nessa vida.” Sim é preciso esquecer o Radiohead de “Pablo Honey” (1993) onde as guitarras indicavam o porquê de estar ali, a ótima e triste “Creep” foi e sempre será o cartão de visitas, “The Bends” (1995) onde a beleza indicava as qualidades da banda, o que dizer de “Street Spirits” e “Black Star”, as guitarras presentes no disco anterior se repetiam mas dessa vez com mais harmonia cada uma no seu lugar, perfeitas, “High An Dry” e “My Iron Lung” são testemunhas e as melhores do álbum, “Fake Plastic Trees” com letra confusa mas melodia e arranjos inigualáveis se atesta como uma das melhores baladas da banda, anos depois seria descoberta pela indústria dos comerciais, mas não era mais preciso, o mundo já a conhecia. E é preciso lembrar de “Ok Computer” (1997) com “Karma Police”, “No Surprises” “Lucky” e a melhor música de todos os tempos (entra fácil fácil em primeiro lugar no meu top five). “Paranoid Android” dividida em partes com muita guitarra, microfonia, vocais angustiantes, vocais raivosos, elementos eletrônicos, barulhinhos desconexos, simplesmente perfeita, são as melhores do álbum. Obra Prima.
“Amnesiac”, vem assim como o anterior nos colocar um ponto de interrogação, mas logo de cara, o que mais me agradou no anterior (Idioteque) se repete aqui. Eletrônica e rock marcam presença em “Packt Like Sardines In A Crushd Tin Box”, “Pyramid Song” traz um piano delicado e vocais melancólicos de Thom Yorke, mal acaba e já é estuprada (desculpem, meninas) pela "Pulk/Pull Revolving Doors”, essa a faixa mais estranha do disco. "You And Whose Army?" e "I Might Be Wrong", a primeira, bela e sofrida, a segunda, rock dos mais agradáveis e instigantes, é como uma pilha para regarregar as energias e nos dar um sinal na nova linha de direção que o Radiohead resolveu se enveredar, ainda bem que "I Might Be Wrong" é puro rock. “Knives Out” e “Dollar Ands Cents” confirmam o que antes (ainda) era dúvida. O disco termina com a linda e inesquecível “Life In A Glasshouse”. Jazz, sax, bateria delicada, voz agonizante e ao mesmo tempo bela e metais (ah, que coisa linda) que antes estranhava agora dão o toque final, linda, linda, linda. Que venha o ponto de exclamção.
Trilogia do Caos/Máquinas
Voltando do passado (claro) para o agora, o Radiohead está de volta com “Hail To The Thief” depois da já citada “2+2=5” que emana algo de “Pablo Honey” no ar, entra “Sit Down Stand Up”, música que hipnotiza do começo ao fim. Repetitiva em algumas partes, propositalmente, com bateria marcante nos leva ao que o Radiohead quer: nos convencer de que está de volta. Refrão repetitivo e, quando vamos ver, acaba abruptamente levando-nos a um bosque belo e límpido como se estivéssemos dentro de uma floresta sem saída chegando a bela, calminha e viajante “Sail To The Moon”. “Backdrifts” é eletrônica assim como “Idioteque” ou “Packt Like Sardines In A Crushd Tin Box”, mais calminha mas ainda assim com loops, bases e barulhinhos agora já familiares. “Go To Sleep” tem bateria e guitarras convencionais, lembra algo de “Ok Computer” não sei ao certo oque, mas há. “Where I End And You Begin” é uma auto estrada, acelere; eles, os cinco caras mais criativos do mundo pop, querem te levar para um passeio, aceite o convite. “We Suck Young Blood” lembra muito as músicas/interrogações de “Kid A”, tem até palminhas, o piano triste dói de verdade na alma, Thom está impecável. “The Gloaming”, a segunda eletrônica do disco, traz as experimentações de “Ok Computer” e “Kid A/Amnesiac” juntas e consegue fazer com que faça parte dos três discos, na verdade sendo do quarto, o Radiohead seria a definição para o que os críticos chamam de “som químico”, na verdade um laboratório sonoro.
 “There There” é o primeiro single e, assim como a maioria das outras novas músicas, foi testada em uma turnê de laboratório na Europa (Espanha/Portugal) - a última vez que a banda havia testado tantas músicas foi na turnê da Obra Prima, “Ok Computer”, precisa dizer mais alguma coisa? -, a bateria de Phill Selway começa pontuando, depois o baixo de Colin Greenwood entra dando sinal de que o rock do Radiohead está mais vivo do que nunca, então entra os vocais do messias do rock atual, Thom Yorke, que sabe pra onde levar (nós leitores, ouvintes e sua banda), mais para o fim da música entram elas as guitarras mais insanas do que há seis anos atrás. Agora mais raivosas, sem direção e sem preocupação, acaba com a bateria em três batidas. Lembram de “Tender”? Linda balada golpel com direito a coral e falsete, do Blur? Pois bem, Radiohead fez a sua “I Will” de apenas 1:59, para trazer uma resposta a mensagem que "I Might Be Wrong" citava: "Eu achei que não havia mais futuro algum". Sim, há um futuro e ele está dentro, nem que seja nas “entrelinhas” de ”Hall To The Thief”. “A Punch Up At A Wedding”, é linda de dar saudades dos tempos de “The Bends” ou as mais belas de “Kid A”. “Myxomatosis” é a "Pulk/Pull Revolving Doors” deste, entra com uma guitarra rasgada, explosiva, depois os vocais entram em harmonia com o baixo e a bateria, pontuada do começo ao fim e mesmo assim não é massante. “Scatterbrain” calminha bela e simples, só isso!
Passados 53 minutos de surpresas agradáveis, o que mais esperar? A resposta é “Wolf At The Door”. Linda, calma, bela, perfeita para um dia frio debaixo das cobertas ouvindo no fone de ouvido e tomando um capuccino, quentíssimo.
“Ok Computer”, “Kid A/Amesiac” (que foram gravados na mesma sessão) e “Hail To The Thief” formam o que chamo de trilogia, o nome certo para ela seria ou Trilogia do Caos ou Trilogia das Máquinas. Ouça os quatro (três) CDs em seguida ou juntos, assim como “Zaireeka” do Flaming Lips, e tire suas conclusões. Juntos, os quatro têm mais consistência e são mais coerentes que muitas obras por aí!!!
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Ah, ia me esquecendo. Quem disse a frase do primeiro parágrafo foi a Bíblia Pop, de onze entre dez indies de todo o mundo quando o assunto é música pop, a revista semanal NME, em dezembro de 1992 depois de um show. Hoje um ingresso para essa “caricatura covarde de banda de rock” custa “só” R$500. 18/10/2003
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