Síndrome da falta de final
 
 
Pelo menos dois filmes sofrem com um mal que acomete a recente safra brasileira de produções cinematográficas pop. Nem o ‘cinemão’ bancado pela Globo e o universo paralelo ao monopólio da vênus platinada parecem estar imunes à ação desse vírus. O diagnóstico: síndrome da falta de final. De um final coerente.
Os pacientes em que a patologia pode ser observada são Meu Tio Matou Um Cara, talvez o primeiro grande alarde publicitário injustificável do cinema nacional em 2005, e Garotas do ABC. Em ambos os casos é possível notar os sintomas que acabam por deflagrar a doença: o filme corre perfeito até a metade, quando o roteirista resolve transformar tudo em samba do crioulo doido dali em diante.
A causa da síndrome pode ter relação direta com Hollywood, que desde cedo impregnou as mentes e corações subjugados do terceiro mundo com happy endings triunfais, onde todas as tramas enfim se amarram. No entanto, a teoria apresentada a seguir promete ser ainda mais plausível.
Os recursos utilizados para financiar a produção dos filmes seriam os responsáveis pela síndrome. Porque não há patrocínio de Petrobrás ou de qualquer outra estatal do ramo de energia que dê conta de levar para a tela grande a quantidade de projetos de qualidade dos cineastas brasileiros. Acuados, eles parecem estar aglutinando todas as suas idéias, dispares, em um mesmo filme, para com isso não perder o dinheiro e a chance de fazer cinema.
É o exemplo gritante do filme de Jorge Furtado, Meu Tio Matou Um Cara. Ao que parece, Lázaro Ramos só foi aproveitado na história por conta de seu apelo junto ao público. A forma com que o seu personagem é inserido na trama é tão abrupta, que a necessidade da participação de Lázaro no filme é posta em cheque. Assim, perde-se completamente a intenção de retratar o cotidiano do jovem urbano brasileiro por meio de repetições ‘espertinhas’. O final de tudo isso é de uma estranheza reveladora e incômoda. Como um efeito colateral.
A fita Garotas do ABC é o segundo e último caso da síndrome listado aqui. Carlos Reichenbach imita a vida e transforma em arte o dia-a-dia de operárias em uma fábrica têxtil do pólo industrial da Grande São Paulo. O andamento e a idéia central do filme ficam comprometidos pelo surgimento de uma realidade paralela do ABC, mais cinematográfica, a dos neo-nazistas, No fim, os bad guys são postos em seu devido lugar e há uma tentativa quase desesperada de voltar o foco para as operárias. Afinal, o assunto que o título do filme se propõe a mostrar precisa ser salvo.
Diga-se o mesmo de Meu Tio Matou Um Cara. Na verdade, o problema destes dois filmes não seja nem o final deles, mas sim os seus títulos nada genéricos que acabam não correspondendo à procura e expectativa específicas do público. Se bem que a função do cinema é surpreender o expectador, o que as duas produções fazem muito bem. Fim do diagnóstico. Os pacientes acabam não sendo tão afetados assim, ficam um pouco confusos é bem verdade, mas você tem direito a uma segunda opinião.
01/03/2005
 
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